Macunaíma – Mário de Andrade

MACUNAÍMA – MÁRIO DE ANDRADE

No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa
gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento
em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do
Uraricoera, que a índia, tapanhumas pariu uma criança feia. Essa
criança é que chamaram de Macunaíma.
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro: passou mais
de seis anos não falando. Sio incitavam a falar exclamava: If — Ai!
que preguiça!. . . e não dizia mais nada.”] Ficava no canto da maloca,
trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e
principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê
na força de homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva.
Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava
pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar
banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando
mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos
guaimuns diz-que habitando a água-doce por lá. No mucambo si
alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaíma
punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia
na cara. Porém respeitava os velhos, e freqüentava com aplicação a
murua a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas essas danças
religiosas da tribo.
Quando era pra dormir trepava no macuru pequeninho sempre se
esquecendo de mijar. Como a rede da mãe estava por debaixo do
berço, o herói mijava quente na velha, espantando os mosquitos bem.
Então adormecia sonhando palavras-feias, imoralidades estrambólicas
e dava patadas no ar.
Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto eram sempre
as peraltagens do herói. As mulheres se riam muito simpatizadas,
falando que “espinho que pinica, de pequeno já traz ponta”, e numa
pagelança Rei Nagô fez um discurso e avisou que o herói era
inteligente.Nem bem teve seis anos deram água num chocalho pra ele e
Macunaíma principiou falando como todos. E pediu pra mãe que
largasse da mandioca ralando na cevadeira e levasse ele passear no
mato. A mãe não quis porque não podia largar da mandioca não.
Macunaíma choramingou dia inteiro. De noite continuou chorando.
No outro dia esperou com o olho esquerdo dormindo que a mãe
principiasse o trabalho. Então pediu pra ela que largasse de tecer o
paneiro de guarumá-membeca e levasse ele no mato passear. A mãe
não quis porque não podia largar o paneiro não. E pediu pra nora,
companheira de Jiguê que levasse o menino. A companheira de Jiguê
era bem moça e chamava Sofará. Foi se aproximando ressabiada
porém desta vez Macunaíma ficou muito quieto sem botar a mão na
graça de ninguém. A moça carregou o piá nas costas e foi até o pé de
aninga na beira do rio. A água parará pra inventar um ponteio de gozo
nas folhas do javari. O longe estava bonito com muitos biguás e
biguatingas avoando na estrada do furo. A moça botou Macunaíma na
praia porém ele principiou choramingando, que tinha muita formiga!…
e pediu pra Sofará que o levasse até o derrame do morro lá dentro do
mato, a moça fez. Mas assim que deitou o curumim nas tiriricas, tajás
e trapoerabas da serrapilheira, ele botou corpo num átimo e ficou um
príncipe lindo. Andaram por lá muito.
Quando voltaram pra maloca a moça parecia muito fatigada de
tanto carregar piá nas costas. Era que o herói tinha brincado muito
com ela. Nem bem ela deitou Macunaíma na rede, Jiguê já chegava de
pescar de puçá e a companheira não trabalhara nada. Jiguê enquizlou e
depois de catar os carrapatos deu nela muito. Sofará agüentou a sova
sem falar um isto.
Jiguê não desconfiou de nada e começou trançando corda com
fibra de curauá. Não vê que encontrara rasto fresco de anta e queria
pegar o bicho na armadilha. Macunaíma pediu um pedaço de curauá
pro mano porém Jiguê falou que aquilo não era brinquedo de criança.
Macunaíma principiou chorando outra vez e a noite ficou bem difícil
de passar pra todos.
No outro dia Jiguê levantou cedo pra fazer arma-ilha e enxergando
o menino tristinho falou:
— Bom-dia, coraçãozinho dos outros.Porém Macunaíma fechou-se em copas carrancudo.
— Não quer falar comigo, é?
— Estou de mal.
— Por causa?
Então Macunaíma pediu fibra de curauá. Jiguê olhou pra ele com
ódio e mandou a companheira arranjar fio pro menino, a moça fez.
Macunaíma agradeceu e foi pedir pro pai-de-terreiro que trançasse
uma corda para ele e assoprasse bem nela fumaça de petum.
Quando tudo estava pronto Macunaíma pediu pra mãe que
deixasse o cachiri fermentando e levasse ele no mato passear. A velha
não podia por causa do trabalho mas a companheira de Jiguê mui
sonsa falou pra sogra que “estava às ordens”. E foi no mato com o piá
nas costas.
Quando o botou nos carurus e sororocas da serrapilheira, o
pequeno foi crescendo foi crescendo e virou príncipe lindo. Falou pra
Sofará esperar um bocadinho que já voltava pra brincarem e foi no
bebedouro da anta armar um laço. Nem bem voltaram do passeio,
tardinha, Jiguê já chegava também de prender a armadilha no rasto da
anta. A companheira não trabalhara nada. Jiguê ficou fulo e antes de
catar os carrapatos bateu nela muito. Mas Sofará agüentou a coca com
paciência.
No outro dia a arraiada inda estava acabando de trepar nas árvores,
Macunaíma acordou todos, fazendo um bué medonho, que fossem!
que fossem no bebedouro buscar a bicha que ele caçara!… Porém
ninguém não acreditou e todos principiaram o trabalho do dia.
Macunaíma ficou muito contrariado e pediu pra Sofará que desse
uma chegadinha no bebedouro só pra ver. A moça fez e voltou falando
pra todos que de fato estava no laço uma anta muito grande já morta.
Toda a tribo foi buscar a bicha, matutando na inteligência do
curumim. Quando Jiguê chegou com a corda de curauá vazia,
encontrou todos tratando da caça, ajudou. E quando foi pra repartir
não deu nem um pedaço de carne pra Macunaíma, só tripas. O herói
jurou vingança.No outro dia pediu pra Sofará que levasse ele passear e ficaram no

mato até a bôca-da-noite. Nem bem o menino tocou no folhiço e virou

num príncipe fogoso. Brincaram. Depois de brincarem três feitas, correram mato fora fazendo festinhas um pro outro. Depois das
festinhas de cotucar, fizeram a das cócegas, depois se enterraram na
areia, depois se queimaram com fogo de palha, isso foram muitas
festinhas. Macunaíma pegou num tronco de copaíba e se escondeu por
detrás, da piranheira. Quando Sofará veio correndo, ele deu com o pau
na cabeça dela. Fez uma brecha que a moça caiu torcendo de riso aos
pés dele. Puxou-o por uma perna. Macunaíma gemia de gosto se
agarrando no tronco gigante. Então a moça abocanhou o dedão do pé
dele e engoliu. Macunaíma chorando de alegria tatuou o corpo dela
com o sangue do pé. Depois retesou os músculos, se erguendo num
trapézio de cipó e aos pulos atingiu num átimo o galho mais alto da
piranheira. Sofará trepava atrás. O ramo fininho vergou oscilando com
o peso do príncipe. Quando a moça chegou também no tope eles
brincaram outra vez balanceando no céu. Depois de brincarem
Macunaíma quis fazer uma festa em Sofará. Dobrou o corpo todo na
violência dum puxão mas não pôde continuar, galho quebrou e ambos
despencaram aos emboléus até se esborracharem no chão. Quando o
herói voltou da sapituca procurou a moça em redor, não estava. Ia se
erguendo pra buscá-la porém do galho baixo em riba dele furou o
silêncio o miado temível da suçuarana. O herói se estatelou de medo e
fechou os olhos pra ser comido sem ver. Então se escutou um risinho e
Macunaíma tomou com uma gusparada no peito, era a moça.
Macunaíma principiou atirando pedras nela e quando feria, Sofará
gritava de excitação tatuando o corpo dele em baixo com o sangue
espirrado. Afinal uma pedra lascou o canto da boca da moça e moeu
três dentes. Ela pulou do galho e juque! tombou sentada na barriga do
herói que a envolveu com o corpo todo, uivando de prazer. E
brincaram mais outra vez.
Já a estrela Papacéia brilhava no céu quando a moça voltou
parecendo muito fatigada de tanto carregar piá nas costas. Porém
Jiguê desconfiado seguira os dois no mato, enxergara a transformação
e o resto. Jiguê era muito bobo. Teve raiva. Pegou num rabo-de-tatu e
chegou-o com vontade na bunda do herói. O berreiro foi tão imenso
que encurtou o tamanhão da noite e muitos pássaros caíram de susto
no chão e se transformaram em pedra.Quando Jiguê não pôde mais surrar, Macunaíma correu até a
capoeira, mastigou raiz de cardeiro e voltou são. Jiguê levou Sofará
pro pai dela e dormiu folgado na rede.

II
MAIORIDADE
Jiguê era muito bobo e no outro dia apareceu puxando pela mão
uma cunha. Era a companheira nova dele e chamava Iriqui. Ela trazia
sempre um ratão vivo escondido na maçaroca dos cabelos e faceirava
muito. Pintava a cara com araraúba e jenipapo e todas as manhãs
passava coquinho de assai nos beiços que ficavam totalmente roxos.
Depois esfregava limão-de-caiena por cima e os beiços viravam
totalmente encarnados. Então Iriqui se envolvia num manto de algodão listrado com preto de acariúba e verde de tatajuba e aromava os
cabelos com essência de umiri, era linda.
Ora depois de todos comerem a anta de Macunaíma a fome bateu
no mocambo. Caça, ninguém não pegava caça mais, nem algum tatugalinha aparecia! e por causa de Maanape ter matado um boto pra
comerem, o sapo cunauru chamado Maraguigana pai do boto fitou
enfezado. Mandou a enchente e o milharal apodreceu. Comeram tudo,
até a crueira dura se acabou e o fogaréu de noite e dia não moqueava
nada não, era só pra remediar a friagem que caiu. Não havia pra gente
assar nele nem uma isca de jobá.
Então Macunaíma quis se divertir um pouco. Falou prós manos
que inda tinha muita piaba muito jeju muito matrinchão e jatuaranas,
todos esses peixes do rio, fossem bater timbó! Maanape disse:
— Não se encontra mais timbó. Macunaíma disfarçando secundou:
— Junto daquela grota onde tem dinheiro enterrado enxerguei um
despotismo de timbó.
— Então venha com a gente pra mostrar onde que é.
Foram. A margem estava traiçoeira e nem se achava bem o que era
terra o que era rio entre as mamoranas copadas. Maanape e Jiguê
procuravam procuravam enlameados até os dentes, degringolando
juque! nos barreiros ocultos pela inundação. E pulavam se livrando
dos buracos, aos berros, com as mãos pra trás por causa dos candirus
safadinhos querendo entrar por eles. Macunaíma ria por dentro vendo
as micagens dos manos campeando timbó. Fingia campear também
mas não dava passo não, bem enxutinho no firme. Quando os manos
passavam perto dele, se agachava e gemia de fadiga.— Deixe de trabucar assim, piá!
Então Macunaíma sentou numa barranca do rio e batendo com os
pés n’água espantou os mosquitos. E eram muitos mosquitos, piuns
maruins arurus tatuquiras muriçocas meruanhas mariguis borrachudos
varejas, toda essa mosquitada.
Quando foi de tardezinha os manos vieram buscar Macunaíma
tiriricas por não terem topado com nenhum pé de timbó. O herói teve
medo e disfarçou:
— Acharam?
— Que achamos nada!
— Pois foi aqui mesmo que enxerguei timbó. Timbó já foi gente
um dia que nem nós… Presenciou que andavam campeando ele e
sorveteu. Timbó foi gente um dia que nem nós…
Os manos se admiraram da inteligência do menino e voltaram os
três pra maloca.
Macunaíma estava muito contrariado por causa da fome. No outro
dia falou pra velha:
— Mãe, quem que leva nossa casa pra outra banda do rio lá no
teso, quem que leva? Fecha os olhos um bocadinho, velha, e pergunta
assim.
A velha fez. Macunaíma pediu pra ela ficar mais tempo com os
olhos fechados e carregou tejupar marombas flechas piquás sapiquás
corotes urupemas redes, todos esses trens pra um aberto do mato lá no
teso do outro lado do rio. Quando a velha abriu os olhos estava tudo lá
e tinha caça peixes, bananeiras dando, tinha comida por demais. Então
foi cortar banana.
— Inda que mal lhe pergunte, mãe, porque a senhora arranca tanta
pacova assim!
— Levar pra vosso mano Jiguê com a linda Iriqui e pra vosso
mano Maanape que estão padecendo fome.
Macunaíma ficou muito contrariado. Maginou maginou e disse pra
velha:
— Mãe, quem que leva nossa casa pra outra banda do rio no
banhado, quem que leva? Pergunta assim!
A velha fez. Macunaíma pediu pra ela ficar com os olhos fechados
e levou todos os carregos, tudo, pro lugar em que estavam de já-hoje no mondongo imundado. Quando a velha abriu os olhos tudo estava
no lugar de dantes, vizinhando com os tejupares de mano Maanape e
de mano Jiguê com a linda Iriqui. E todos ficaram roncando de fome
outra vez.
Então a velha teve uma raiva malvada. Carregou o herói na cintura
e partiu. Atravessou o mato e chegou no capoeirão chamado Cafundó
do Judas. Andou légua e meia nele, nem se enxergava mato mais, era
um coberto plano apenas movimentado com o pulinho dos cajueiros.
Nem guaxe animava a solidão. A velha botou o curumim no campo
onde ele podia crescer mais não e falou:
— Agora vossa mãe vai embora. Tu ficas perdido no coberto e
podes crescer mais não.
E desapareceu. Macunaíma assuntou o deserto e sentiu que ia
chorar. Mas não tinha ninguém por ali, não chorou não. Criou
coragem e botou pé na estrada, tremelicando com as perninhas de
arco. Vagamundou de déu em déu semana, até que topou com o
Currupira inoqueando carne, acompanhado do cachorro dele Papamel.
E o Currupira vive no grelo do tucunzeiro e pede fumo pra gente.
Macunaíma falou:
— Meu avô, dá caça pra mim comer?
— Sim, Currupira fez.
Cortou carne da perna moqueou e deu pro menino, perguntando:
— O que você está fazendo na capoeira, rapaiz!
— Passeando.
— Não diga!
— Pois é, passeando…
Então contou o castigo da mãe por causa dele ter sido malévolo
prós manos. E contando o transporte da casa de novo pra deixa onde
não tinha caça deu uma grande gargalhada. O Currupira olhou pra ele
e resmungou:
— Tu não é mais curumi, rapaiz, tu não é mais curumi não …
Gente grande que faiz isso…
Macunaíma agradeceu e pediu pro Currupira ensinar o caminho
pro mocambo dos Tapanhumas. O Currupira estava querendo mas era
comer o herói, ensinou falso:— Tu vai por aqui, menino-home, vai por aqui, passa pela frente
daquele pau, quebra a mão esquerda, vira e volta por debaixo dos
meus uaiariquinizês.
Macunaíma foi fazer a volta porém chegado na frente do pau,
cocou a perninha e murmurou:
— Ai! que preguiça!… e seguiu direito.
O Currupira esperou bastante porém curumim não chegava… Pois
então o monstro amontou no viado, que é o cavalo dele, fincou o pé
redondo na virilha do corredor e lá se foi gritando:
— Carne de minha perna! carne de minha perna! Lá de dentro da
barriga do herói a carne respondeu:
— Que foi?
Macunaíma apertou o passo e entrou correndo na caatinga porém o
Currupira corria mais que ele e o menino isso vinha que vinha
acochado pelo outro.
— Carne de minha perna! carne de minha perna! A carne
secundava:
— Que foi?
O piá estava desesperado. Era dia do casamento da raposa e a
velha Vei, a Sol, relampeava nas gotinhas de chuva debulhando luz
feito milho. Macunaíma chegou perto duma poça, bebeu água de lama
e vomitou a carne.
— Carne de minha perna! carne de minha perna! que o Currupira
vinha gritando.
— Que foi? secundou a carne já na poça. Macunaíma ganhou os
bredos por outro lado e escapou.
Légua e meia adiante por detrás dum formigueiro escutou uma voz
cantando assim:
“Acuti pita canhém…” lentamente.
Foi lá e topou com a cotia farinhando mandioca num tipiti de j
achara.
— Minha vó, dá aipim pra mim comer?
— Sim, cotia fez. Deu aipim pro menino, perguntando:
— Quê que você está fazendo na caatinga, meu neto?
— Passeando.
— Ah o quê!— Passeando, então!
Contou como enganara o Currupira e deu uma grande gargalhada.
A cotia olhou pra ele e resmungou:
— Culumi faz isso não, meu neto, culumi faz isso não. .. Vou te
igualar o corpo com o bestunto.
Então pegou na gamela cheia de caldo envenenado de aipim e
jogou a lavagem no piá. Macunaíma fastou sarapantado mas só
conseguiu livrar a cabeça, todo o resto do corpo se molhou. O herói
deu um espirro e botou corpo. Foi desempenando crescendo
fortificando e ficou do tamanho dum home taludo. Porém a cabeça
não molhada ficou pra sempre rombuda e com carinha enjoativa de
piá.
Macunaíma agradeceu o feito e frechou cantando pro mocambo
nativo. A noite vinha bezourenta enfiando as formigas na terra e
tirando os mosquitos d’água. Fazia um calor de ninho no ar. A velha
tapanhumas escutou a voz do filho no longe cinzado e se espantou:
Macunaíma apareceu de cara amarrada e falou pra ela:
— Mãe, sonhei que caiu meu dente.
— Isso é morte de parente, comentou a velha.
— Bem que sei. A senhora vive mais uma Sol só. Isso mesmo
porque me pariu.
No outro dia os manos foram pescar e caçar, a velha foi no roçado
e Macunaíma ficou só com a companheira de Jiguê. Então ele virou na
formiga quenquém e mordeu Iriqui pra fazer festa nela. Mas a moça
atirou a quenquém longe. Então Macunaíma virou num pé de urucum.
A linda Iriqui riu, colheu as sementes se faceirou toda pintando a cara
e os distintivos, Ficou lindíssima. Então Macunaíma, de gostoso, virou
gente outra feita e morou com a companheira de Jiguê.
Quando os manos voltaram da caça Jiguê percebeu a troca logo,
porém Maanape falou pra ele que agora Macunaíma estava homem
pra sempre e troncudo. Maanape era feiticeiro. Jiguê viu que a maloca
estava cheia de alimentos, tinha pacova tinha milho tinha macaxeira,
tinha alua e cachiri, tinha maparás e camorins pescados, maracujá-
michira ata abio sapota sapotilha, tinha passoca de viado e carne
fresca de cutiara, todos esses comes e bebes bons… Jiguê conferiu que não pagava a pena brigar com o mano e deixou a linda Iriqui pra ele.
Deu um suspiro catou os carrapatos e dormiu folgado na rede.
No outro dia Macunaíma depois de brincar cedinho com a linda
Iriqui, saiu pra dar uma voltinha. Atravessou o reino encantado da
Pedra Bonita em Pernambuco e quando estava chegando na cidade de
Santarém topou com uma viada parida.
— Essa eu caço! ele fez. E perseguiu a viada. Esta escapuliu fácil
mas o herói pôde pegar o filhinho dela que nem não andava quase, se
escondeu por detrás duma carapanaúba e cotucando o viadinho fez ele
berrar. A viada ficou feito louca, esbugalhou os olhos parou turtuveou
e veio vindo veio vindo parou ali mesmo defronte chorando de amor.
Então o herói flechou a viada parida. Ela caiu esperneou um bocado e
ficou rija estirada no chão. O herói cantou vitória. Chegou perto da
viada olhou que mais olhou e deu um grito, desmaiando. Tinha sido
uma peça do Anhanga… Não era viada não, era a própria mãe
tapanhumas que Macunaíma flechara e estava morta ali, toda arranhada com os espinhos das titaras e mandacarus dó mato.
Quando o herói voltou da sapituca foi chamar os manos e os três
chorando muito passaram a noite de guarda bebendo oloniti e
comendo carimã com peixe. Madrugadinha pousaram o corpo da
velha numa rede e foram enterrá-la por debaixo duma pedra no lugar
chamado Pai da Tocandeira. Maanape que era um catimbozeiro de
marca maior, foi que gravou o epitáfio. E era assim:
Jejuaram o tempo que o preceito mandava e Macunaíma gastou o
jejum se lamentando heroicamente. A barriga da morta foi inchando
foi inchando e no fim das chuvas tinha virado num cerro macio. Então
Macunaíma deu a mão pra Iriqui, Iriqui deu a mão pra Maanape,
Maanape deu a mão pra Jiguê e os quatro partiram por esse mundo.

III
Ci, MÃE DO MATO
Uma feita os quatro iam seguindo por um caminho no mato e
estavam penando muito de sede, longe dos igapós e das lagoas. Não
tinha nem mesmo umbu no bairro e Vei, a Sol, esfiapando por entre a
folhagem guascava sem parada o lombo dos andarengos. Suavam
como numa pagelança em que todos tivessem besuntado o corpo com
azeite de piquiá, marchavam. De repente Macunaíma parou riscando a
noite do silêncio com um gesto imenso de alerta. Os outros estacaram.
Não se escutava nada porém Macunaíma sussurrou:
— Tem coisa.
Deixaram a linda Iriqui se enfeitando sentada nas raízes duma
samaúma e avançaram cautelosos. Já Vei estava farta de tanto guascar
o lombo dos três manos quando légua e meia adiante Macunaíma
escoteiro topou com uma cunha dormindo. Era Ci, Mãe do Mala Logo
viu pelo peito destro seco dela, que a moça fazia parte dessa tribo de
mulheres sozinhas parando lá nas praias da lagoa Espelho da Lua,
coada pela Nhamundá. A cunha era linda com o corpo chupado pelos
vícios, colorido com genipapo.
O herói se atirou por cima dela pra brincar. Ci não queria. Fez
lança de flecha tridente enquanto Macunaíma puxava da pageú. Foi
um pega tremendo e por debaixo da copada reboavam os berros dos
briguentos diminuindo de medo os corpos dos passarinhos. O herói
apanhava. Recebera já um murro de fazer sangue no nariz e um lapo
fundo de txara no rabo. A icamiaba não tinha nem um arranhãozinho e
cada gesto que fazia era mais sangue no corpo do herói soltando
berros formidandos que diminuíam de medo os corpos dos
passarinhos. Afinal se vendo nas amarelas porque não podia mesmo
com a icamiaba, o herói deitou fugindo chamando pelos manos:
— Me acudam que sinão eu mato! me acudam que sinão eu mato!
Os manos vieram e agarraram Ci. Maanape trançou os braços dela
por detrás enquanto Jiguê com a murucu lhe dava uma porrada no
coco. E a icamiaba caiu sem auxílio nas samambaias da serrapilheira.
Quando ficou bem imóvel, Macunaíma se aproximou e brincou com a
Mãe do Mato. Vieram então muitas jandaias, muitas araras vermelhas tuins coricas periquitos, muitos papagaios saudar Macunaíma, o novo
Imperador do Mato-Virgem.
E os três manos seguiram com a companheira nova. Atravessaram
a cidade das Flores evitaram o rio das Amarguras passando por
debaixo do salto da Felicidade, tomaram a estrada dos Prazeres e
chegaram no capão de Meu Bem que fica nos cerros da Venezuela.
Foi de lá que Macunaíma imperou sobre os matos misteriosos,
enquanto Ci comandava nos assaltos as mulheres empunhando txaras
de três pontas.
O herói vivia sossegado. Passava os dias marupiara na rede
matando formigas taiocas, chupitando golinhos estalados de pajuari e
quando agarrava cantando companhado pelos sons gotejantes do
cotcho, os matos reboavam com doçura adormecendo as cobras os
carrapatos os mosquitos as formigas e os deuses ruins.
De noite Ci chegava recendendo resina de pau, sangrando das
brigas e trepava na rede que ela mesmo tecera com fios de cabelo. Os
dois brincavam e depois ficavam rindo um pro outro.
Ficavam rindo longo tempo, bem juntos. Ci aromava tanto que
Macunaíma tinha tonteiras de moleza.
— Puxa como você cheira, benzinho!
que ele murmurava gozado. E escancarava as narinas mais. Vinha
uma tonteira tão macota que o sono principiava pingando das
pálpebras dele. Porém a Mãe do Mato inda não estava satisfeita não e
com um jeito de rede que enlaçava os dois convidava o companheiro
para mais brinquedo. Morto de soneira, infernizado, Macunaíma
brincava para não desmentir a fama só porém quando Ci queria rir
com ele de satisfação:
— Ai! que preguiça!…
que o herói suspirava enfarado. E dando as costas para ela
adormecia bem. Mas Ci queria brincar inda mais… Convidava
convidava… O herói ferrado no sono. Então a Mãe do Mato pegava na
txara e cotucava o companheiro. Macunaíma se acordava dando
grandes gargalhadas estorcegando de cócegas.
— Faz isso não, oferecida!
— Faço!
— Deixa a gente dormir, meu bem…— Vamos brincar.
— Ai! que preguiça!…
E brincavam mais outra vez
Porém nos dias de muito pajuari bebido, Ci encontra o Imperador
do Mato-Virgem largado por aí num porre mãe. Iam brincar e o herói
esquecia no meio.
— Então, herói!
— Então o quê!
— Você não continua?
— Continua o quê!
— Pois, meus pecados, a gente está brincando e vai você pára no
meio!
— Ai! que preguiça…
Macunaíma mal esboçava de tão chumbado. E procurando um
macio nos cabelos da companheira adormecia feliz.
Então pra animá-lo, Ci empregava o estratagema sublime. Buscava
no mato a folhagem de fogo da urtiga e sapecava com ela uma coça
coçadeira no chuí do herói e na nalachítchi dela. Isso Macunaíma
ficava que ficava um lião querendo. Ci também. E os dois brincavam
que mais brincavam num deboche de ardor prodigioso.
Mas era nas noites de insônia que o gozo inventava mais. Quando
todas as estrelas incendiadas derramavam sobre a Terra um óleo
calorento que ninguém não suportava de tão quente, corria pelo mato
uma presença de incêndio. Nem a passarinhada agüentava no ninho.
Mexia inquieta o pescoço, voava pro galho em frente e no milagre
mais enorme deste mundo inventava de sopetão uma alvorada preta,
cantacantando que não tinha fim. A bulha era tremenda o cheiro poderoso e o calor inda mais.
Macunaíma dava um safanão na rede atirando Ci longe. Ela
acordava feito fúria e crescia pra cima dele. Brincavam assim. E agora
despertados inteiramente pelo gozo inventavam artes novas de brincar.
Nem bem seis meses passaram e a Mãe do Mato pariu um filho
encarnado. Isso, vieram famosas mulatas da Bahia, do Recife, do Rio
Grande do Norte e da Paraíba, e deram pra Mãe do Mato um laçarote
rubro cor de mal, porque agora ela era mestra do cordão encarnado em
todos os Pastoris de Natal. Depois foram-se embora com prazer e alegria, bailando que mais bailando, seguidas de futebóleres águias
pequenos xodós seresteiros, toda essa rapaziada dorê. Macunaíma
ficou de repouso o mês de preceito porém se recusou a jejuar. O
pecurrucho tinha cabeça chata e Macunaíma inda a achatava mais
batendo nela todos os dias e falando pro guri:
— Meu filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar
muito dinheiro.
Todas as icamiabas queriam bem o menino encarnado e no
primeiro banho dele puseram todas as jóias da tribo pra que o pequeno
fosse rico sempre. Mandaram buscar na Bolívia uma tesoura e
enfiaram ela aberta debaixo do cabeceiro porque sinão Tutu Marambá
vinha, chupava o umbigo do piá e o dedão do pé de Ci. Tutu Marambá
veio, topou com a tesoura e se enganou: chupou o olho dela e foi-se
embora satisfeito. Todos agora só matutavam no pecurrucho.
Mandaram buscar pra ele em São Paulo os famosos sapatinhos de lã
tricotados por dona Ana Francisca de Almeida Leite Morais e em
Pernambuco as rendas “Rosa dos Alpes”, “Flor de Guabiroba” e “Por
ti padeço” tecidas pelas mãos de dona Joaquina Leitão mais conhecida
pelo nome de Quinquina Cacunda. Filtravam o milhor tamarindo das
irmãs Louro Vieira, de Óbidos, pro menino engolir no refresco o
remedinho pra lombriga. Vida feliz, era bom!… Mas uma feita
jucurutu pousou na maloca do imperador e soltou o regougo
agourento. Macunaíma tremeu assustado espantou os mosquitos e caiu
no pajuari por demais pra ver si espantava o medo também. Bebeu e
dormiu noite inteira. Então chegou a Cobra Preta e tanto que chupou o
único peito vivo de Ci que não deixou nem o apojo. E como Jiguê não
conseguira moçar nenhuma das icamiabas o curumim sem ama
chupou o peito da mãe no outro dia, chupou mais, deu um suspiro
envenenado e morreu.
Botaram o anjinho numa igaçaba esculpida com forma de jaboti e
prós boitatás não comerem os olhos do morto o enterraram mesmo no
centro da taba com muitos cantos muita dança e muito pajuari.
Terminada a função a companheira de Macunaíma toda enfeitada
ainda, tirou do colar uma muiraquitã famosa, deu-a pro companheiro e
subiu pro céu por um cipó. É lá que Ci vive agora nos trinques pas-seando, liberta das formigas, toda enfeitada ainda, toda enfeitada de
luz, virada numa estrela. É a Beta do Centauro.
No outro dia quando Macunaíma foi visitar o túmulo do filho viu
que nascera do corpo uma plantinha. Trataram dela com muito
cuidado e foi o guaraná. Com as frutinhas piladas dessa planta é que a
gente cura muita doença e se refresca durante os calorões de Vei, a
Sol.

IV
BOIÚNA LUNA
No outro dia bem cedo o herói padecendo saudades de Ci a
companheira pra sempre inesquecível, furou o beiço inferior e fez da
muiraquitã um tembetá. Sentiu que ia chorar. Chamou depressa os
manos, se despediu das icamiabas e partiu.
Gauderiaram gauderiaram por todos aqueles matos sobre os quais
Macunaíma imperava agora. Por toda a parte ele recebia homenagens
e era sempre acompanhado pelo séquito de araras vermelhas e
jandaias. Nas noites de amargura ele trepava num açaizeiro de frutas
roxas como a alma dele e contemplava no céu a figura faceira de Ci.
“Marvada!” que ele gemia… Então ficava muito sofrendo, muito! e
invocava os deuses bons cantando cânticos de longa duração.. .
Rudá, Rudá!…
Tu que secas as chuvas,
Faz com que os ventos do oceano
Desembestem por minha terra
Pra que as nuvens vão-se embora
E a minha marvada brilhe
Limpinha e firme no céu!. . .
Faz com que amansem
Todas as águas dos rios
Pra que eu me banhando neles
Possa brincar com a marvada
Refletida no espelho das águas!…
Assim. Então descia e chorava encostado no ombro de Maanape.
Jiguê soluçando de pena animava o togo da caieira pra que o herói não
sentisse frio. Maanape engulia as lágrimas, invocando o Acutipuru o
Murucututu o Ducucu, todos esses donos do sono em acalantos assim:
Acutipuru,
Empresta vosso sono
Pra Macunaíma
Que é muito manhoso!…Catava os carrapatos do herói e o acalmava balanceando o corpo.
O herói acalmava acalmava e adormecia bem.
No outro dia os três estradeiros recomeçavam a caminhada através
dos matos misteriosos. E Macunaíma era sempre seguido pelo séquito
de araras vermelhas e jandaias.
Caminhando caminhando, uma feita em que a arraiada principiava
enxotando a escureza da noite, escutaram longe um lamento de moça.
Foram ver. Andaram légua e meia e encontraram uma cascata chorando sem parada. Macunaíma perguntou pra cascata:
— Que é isso!
— Chouriço!
— Conta o que é.
E a cascata contou o que tinha sucedido pra ela.
— Não vê que chamo Naipi e sou filha do tuxaua Mexô-
Mexoitiqui nome que na minha fala quer dizer Engatinha-Engatinha.
Eu era uma boniteza de cunhatã e todos os tuxauas vizinhos
desejavam dormir na minha rede e provar meu corpo mais molengo
que embirossu. Porém quando algum vinha eu dava dentadas e
pontapés por amor de experimentar a força dele. E todos não
agüentavam e partiam sorumbáticos.
Minha tribo era escrava da boiúna Capei que morava num covão
em companhia das saúvas. Sempre no tempo em que os ipês de beirario se amarelavam de flores a boiúna vinha na taba escolher a cunha
virgem que ia dormir com ela na socava cheia de esqueletos.
Quando meu corpo chorou sangue pedindo força de homem pra
servir, a suinara cantou manhãzinha nas jarinas de meu tejupá, veio
Capei e me escolheu. Os ipês de beira-rio relampeavam de amarelo e
todas as flores caíram nos ombros soluçando do moço Titçatê
guerreiro de meu pai. A tristura talqualmente correição de sacassaia
viera na taba e devorara até o silêncio.
Quando o pajé velho tirou a noite do buraco outra vez, Titçatê
ajuntou as florzinhas perto dele e veio com elas pra rede da minha
última noite livre. Então mordi Titçatê.
O sangue espirrou na munheca mordida porém o moço não fez
caso não, gemeu de raiva amando, me encheu a boca de flores que não
pude mais morder. Titçatê pulou na rede e Naipi serviu Titçatê.Depois que brincamos feito doidos entre sangue escorrendo e as
florzinhas de ipê, meu vencedor me carregou no ombro me jogou na
ipeigara abicada num esconderijo de aturiás e flechou pro largo rio
Zangado, fugindo da boiúna.
No outro dia quando o pajé velho guardou a noite no buraco outra
vez, Capei foi me buscar e encontrou a rede sangrando vazia. Deu um
urro e deitou correndo em busca nossa. Vinha vindo vinha vindo, a
gente escutava o urro dela perto, mais perto pertinho e afinal as águas
do rio Zangado empinaram com o corpo da boiúna ali.
Titçatê não podia mais remar desfalecido, sangrando sempre com a
mordida na munheca. Por isso que não pudemos fugir. Capei me
prendeu, me revirou, fez a sorte do ovo em mim, deu certo e a boiúna
viu que eu já servira Titçatê.
Quis acabar com o mundo de raiva tamanha, não sei… me virou
nesta pedra e atirou Titçatê na praia do rio, transformado numa planta.
É aquela uma que está lá, lá em baixo, lá! É aquele mururê tão lindo
que se enxerga, bracejando n’água pra mim. As flores roxas dele são
os pingos de sangue da mordida, que meu frio de cascata regelou.
Capei mora em baixo de mim, examinando sempre si fui mesmo
brincada pelo moço. Fui sim e passarei chorando nesta pedra até o fim
do que não tem fim, mágoas de não servir mais o meu guerreiro
T’çatê… Parou. O choro pingava nos joelhos de Macunaíma e ele
soluçou tremido.
— Si… si… si a boiúna aparecesse eu… eu matava ela!
Então se escutou um urro guaçu e Capei veio saindo d’água. E
Capei era a boiúna. Macunaíma ergueu o busto relumeando de
heroísmo e avançou pro monstro. Capei escancarou a goela e soltou
uma nuvem de apiacás. Macunaíma bateu que mais bateu vencendo os
marimbondos. O monstro atirou uma guascada tirlintando com os
guizos do rabo, porém nesse momento uma formiga tracuá mordeu o
calcanhar do herói. Ele agachou distraído com a dor e o rabo passou
por cima dele indo bater na cara de Capei. Então ela urrou mais e deu
um bote na coxa de Macunaíma. Ele só fez um afastadinho com o
corpo, agarrou num rochedo e juque! decepou a cabeça da bicha.
O corpo dela se estorceu na corrente enquanto a cabeça com
aqueles olhões docinhos vinha beijar vencida os pés do vingador. O herói teve medo e jogou no viado mato dentro acompanhado pelos
manos.
— Vem cá, siriri, vem cá! que a cabeça gritava.
Eles chispavam mais. Correram légua e meia e
olharam para trás. A cabeça de Capei vinha rolando
sempre em busca deles. Correram mais e quando não podiam de
fadiga treparam num bacuparizeiro ribeirinho pra ver si a cabeça
continuava pra diante. Mas cabeça parou por debaixo do pau e pediu
bacuparis. Macunaíma sacudiu a árvore. A cabeça catou as frutas do
chão, comeu e pediu mais. Jiguê sacudiu bacuparis dentro d’água
porém a cabeça falou que lá não ia não. Então Maanape atirou com
toda a força uma fruta longe e enquanto a cabeça ia buscá-la os manos
desceram do pau e se rasparam. Correndo correndo, légua e meia
adiante deram com a casa onde morava o bacharel de Cananéia. O
coroca estava na porta sentado e lia manuscritos profundos.
Macunaíma falou pra ele:
— Como vai, bacharel?
— Menos mal, ignoto viajor.
— Tomando a fresca, não?
— C’est vrai, como dizem os franceses.
— Bem, té-logo bacharel, estou meio afobado…
E chisparam outra vez. Atravessaram os sambaquis do Caputera e
do Morrete num respiro. Logo adiante havia um rancho teatino.
Entraram e fecharam a borta bem. Então Macunaíma pôs reparo que
perdera o tembetá. Ficou desesperado porque era a única lembrança
que guardava de Ci. Ia saindo pra campear a pedra porém os manos
não deixaram. Não durou muito a cabeça chegou. Juque! bateu.
— Que há?
— Abra a porta pra mim entrar!
Porém jacaré abriu? nem eles! e a cabeça não pôde entrar.
Macunaíma não sabia que a cabeça ficara escrava dele e não vinha pra
fazer mal não. A cabeça esperou muito porém vendo que não abriam
mesmo matutou no que ia ser. Si fosse ser água os outros bebiam, si
fosse mosquito flitavam, si fosse trem de ferro descarrilava, si fosse
rio punham no mapa… Resolveu: “Vou ser Lua”. Gritou:— Abram a porta, gente, que quero umas coisas! Macunaíma
espiou pela fresta e avisou Jiguê já abrindo:
— Está solta!
Jiguê tornou a fechar a porta. Por isso que existe a expressão “Tá
solto!” indicando que a gente não faz mesmo o que nos pedem.
Quando Capei viu que não abriam a porta principiou se
lamentando muito e perguntou pra iandu caranguejeira si ajudava a
subida pro céu.
— Meu fio Sol derrete, secundou a aranha tatamanha.
Então a cabeça pediu prós xexéus se ajuntarem e ficou noite
escura.
— Meu fio ninguém não enxerga de noite, disse a aranha
tatamanha.
A cabeça foi buscar um cuitê de friagem nos Andes e falou:
— Despeja uma gota cada légua e meia, fio branqueia de geada.
Podemos ir.
— Pois então vamos.
A iandu principiou fazendo fio no chão. Com o primeiro ventinho
que brisou por ali o fio leviano se ergueu no céu. Então a aranha
tatamanha subiu por ele e da ponta lá em riba derramou um bocado de
geada. E enquanto a iandu caranguejeira fazia mais fio de lá pra riba, o
de baixo branqueava todo. A cabeça gritou:
— Adeus, meu povo, que vou pro céu!
E lá foi comendo fie sobessubindo pro campo vasto do céu. Os
manos abriram a porta e espiaram. Capei sempre subindo.
— Você vai mesmo pro céu, cabeça?
— Uum, ela fez não podendo mais abrir a boca. Quando foi ali
pela hora antes da madrugada a
boiúna Capei chegou no céu. Estava gorducha de tanto fio comido
e muito pálida do esforço. Todo o suor dela caía sobre a Terra em
gotinhas de orvalho novo. Por causa do fio geado é que Capei é tão
fria. Dantes Capei foi a boiúna mas agora é a cabeça da Lua lá no
campo vasto do céu. Desde essa feita as caranguejeiras preferem fazer
fio de noite.
No outro dia os manos deram um campo até a beira do rio mas
campearam, campearam em vão, nada de muiraquitã. Perguntaram pra todos os seres, aperemas sagüis tatus-mulitas tejus mussuãs da terra e
das árvores, tapiucabas chabós matinta-pereras pinica-paus e aracuãs
do ar, pra ave japiim e seu compadre marimbondo, pra baratinha
casadeira, pro pássaro que grita “Taam!” e sua companheira que
responde “Taim!”, pra lagartixa que anda de pique com o ratão, prós
tambaquis tucunarés piracurus curimatás do rio, os pecaís tapicurus e
iererês da praia, todos esses entes vivos mas ninguém não vira nada,
ninguém não sabia de nada. E os manos bateram pé na estrada outra
vez, varando os domínios imperiais. O silêncio era feio e o desespero
também. De vez em quando Macunaíma parava pensando na
marvada… Que desejo batia nele! Parava tempo. Chorava muito
tempo. As lágrimas escorregando pelas faces infantis, do herói iam lhe
batizar a peitaria cabeluda. Então ele suspirava sacudindo a cabecinha:
— Qual, manos! Amor primeiro não tem companheiro, não!…
Continuava a caminhar. E por toda a parte recebia homenagens e
era sempre seguido pelo séquito sarapintado de jandaias e araras
vermelhas.
Uma feita em que deitara numa sombra enquanto esperava os
manos pescando, o Negrinho do Pastoreio pra quem Macunaíma
rezava diariamente, se apiedou do panema e resolveu ajudá-lo.
Mandou o passarinho uirapuru. Quando sinão quando o herói escutou
um tatalar inquieto e o passarinho uirapuru pousou no joelho dele.
Macunaíma fez um gesto de caceteação e enxotou o passarinho
uirapuru. Nem bem minuto passado escutou de novo a bulha e o
passarinho pousou na barriga dele. Macunaíma nem se amolou mais.
Então o passarinho uirapuru agarrou cantando com doçura e o herói
entendeu tudo o que ele cantava. E era que Macunaíma estava
desinfeliz porque perdera a muiraquitã na praia do rio quando subia no
bacupari. Porém agora, cantava o lamento do uirapuru, nunca mais
que Macunaíma havia de ser marupiara não, porque uma traça já
engulira a muiraquitã e o mariscador que apanhara a tartaruga tinha
vendido a pedra verde pra um regatão peruano se chamando
Venceslau Pietro Pietra. O dono do talismã enriquecera e parava
fazendeiro e baludo lá em São Paulo, a cidade macota lambida pelo
igarapé Tietê.Dito isto o passarinho uirapuru executou uma letra no ar e
desapareceu. Quando os manos chegaram da pesca Macunaíma falou
pra eles:
— Ia andando por um caminho negaceando um catingueiro e vai,
presenciei um friúme no costado. Botei a mão e saiu uma lacraia
mansa que me falou toda a verdade.
Então Macunaíma contou o paradeiro da muiraquitã e disse prós
manos que estava disposto a ir em São Paulo procurar esse tal
Venceslau Pietro Pietra e retomar o tembetá roubado.
— … ei cascavel faça ninho si eu não topo com a muiraquitã! Si
vocês venham comigo muito que bem, si não, homem, antes só do que
mal acompanhado! Mas eu tenho opinião de sapo e quando
encasqueto uma coisa agüento firme no toco. Hei de ir só pra tirar a
prosa do passarinho uirapuru, minto! da lacraia.
Depois que discursou Macunaíma deu uma grande gargalhada
imaginando na peça que pregava no passarinho. Maanape e Jiguê
resolveram ir com ele, mesmo porque o herói carecia de proteção.

V
PIAIMÃ
No outro dia Macunaíma pulou cedo na ubá e deu uma chegada até
a foz do rio Negro pra deixar a consciência na ilha de Marapatá.
Deixou-a bem na ponta dum mandacaru de dez metros, pra não ser
comida pelas saúvas. Voltou pro lugar onde os manos esperavam e no
pino do dia os três rumaram pra margem esquerda da Sol.
Muitos casos sucederam nessa viagem por caatingas rios
corredeiras, gerais, corgos, corredores de tabatinga matos-virgens e
milagres do sertão. Macunaíma vinha com os dois manos pra São
Paulo. Foi o Araguaia que facilitou-lhes a viagem. Por tantas conquistas e tantos feitos passados o herói não ajuntara um vintém só mas os
tesouros herdados da icamiaba estrela estavam escondidas nas grunhas
do Roraima lá. Desses tesouros Macunaíma apartou pra viagem nada
menos de quarenta vezes quarenta milhões de bagos de cacau, a
moeda tradicional. Calculou com eles um dilúvio de embarcações. E
ficou lindo trepando pelo Araguaia aquele poder de igaras, duma em
uma duzentas em ajojo que-nem flecha na pele do rio. Na frente
Macunaíma vinha de pé, carrancudo, procurando no longe a cidade.
Matutava roendo os dedos.” agora cobertos de berrugas de tanto
apontarem Ci estrela. Os manos remavam espantando os mosquitos a
cada arranco dos remos repercutindo nas duzentas igaras ligadas,
despejava uma batelada de bagos na pele do rio, deixando uma esteira
de chocolate onde os camuatás pirapitingas dourados piracanjubas
uarus-uarás e bacus se regalavam.
Uma feita a Sol cobrira os três manos duma escaminha de suor e
Macunaíma se lembrou de tomar banho. Porém no rio era impossível
por causa das piranhas tão vorazes que de quando em quando na luta
pra pegar um naco de irmã espedaçada, pulavam aos cachos pra fora
d’água metro e mais. Então Macunaíma enxergou numa lapa bem no
meio do rio uma cova cheia d’água. E a cova era que-nem a marca
dum pé-gigante. Abicaram. O herói depois de muitos gritos por causa
do frio da água entrou na cova e se lavou inteirinho. Mas a água era
encantada porque aquele buraco na lapa era marca do pezão do Sumé,
do tempo em que andava pregando o evangelho de Jesus pra indiada brasileira. Quando o herói saiu do banho estava branco louro e de
olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele. E ninguém não seria
capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta dos Tapanhumas.
Nem bem Jiguê percebeu o milagre, se atirou na marca do pezão
do Sumé. Porém a água já estava muito suja da negrura do herói e por
mais que Jiguê esfregasse feito maluco atirando água pra todos os
lados só conseguiu ficar da cor do bronze novo. Macunaíma teve dó e
consolou:
— Olhe, mano Jiguê, branco você ficou não, porém pretume foi-se
e antes fanhoso que sem nariz.
Maanape então é que foi se lavar, mas Jiguê esborrifara toda a
água encantada pra fora da cova. Tinha só um bocado lá no fundo e
Maanape conseguiu molhar só a palma dos pés e das mãos. Por isso
ficou negro bem filho da tribo dos Tapanhumas. Só que as palmas das
mãos e dos pés dele são vermelhas por terem se limpado na água
santa. Macunaíma teve dó e consolou:
— Não se avexe, mano Maanape, não se avexe não, mais sofreu
nosso tio Judas!
E estava lindíssima na Sol da lapa os três manos um louro um
vermelho outro negro, de pé bem erguidos e nus. Todos os seres do
mato espiavam assombrados. O jacarèuna o jacarètinga, o jacaré-açu o
jacaré-ururau de papo amarelo, todos esses jacarés botaram os olhos
de rochedo pra fora d’água. Nos ramos das igàzeiras das aningas das
mamoranas das embaúbas dos catauaris de beira-rio o macaco-prego o
macaco-de-cheiro o guariba o bugio o cuatá o barrigudo o coxiú o
cairara, todos os quarenta macacos do Brasil, todos, espiavam babando
de inveja. E os sabiás,o sabiàcia o sabiàpoca o sabiàúna o sabiàpiranga
o sabiàgonga que quando come não me dá, o sabiá-barranco o sabiá-
tropeiro o sabiá-laranjeira o sabiá-gute todos esses ficaram pasmos e
esqueceram de acabar o trinado, vozeando vozeando com eloqüência.
Macunaíma teve ódio. Botou as mãos nas ancas e gritou pra natureza:
— Nunca viu não!
Então os seres naturais debandavam vivendo e os três manos
seguiram caminho outra vez.
Porém entrando nas terras do igarapé Tietê adonde o burbon
vogava e a moeda tradicional não era mais cacau, em vez, chamava arame contos contecos milreis borós tostão duzentorréis
quinhentorreis, cinqüenta paus, noventa bagarotes, e pelegas cobres
xenxéns caraminguás selos bicos-de-coruja massuni bolada calcáreo
gimbra siridó bicha e pataracos, assim, adonde até liga pra meia
ninguém comprava nem por vinte mil cacaus. Macunaíma ficou muito
contrariado. Ter de trabucar, ele, herói. . . Murmurou desolado:
— Ai! que preguiça!. . .
Resolveu abandonar a empresa, voltando prós pagos de que era
imperador. Porém Maanape falou assim:
— Deixa de ser aruá, mano! Por morrer um carangueijo o mangue
não bota luto! que diacho! desanima não que arranjo as coisas!
Quando chegaram em São Paulo, ensacou um pouco do tesouro
pra comerem e barganhando o resto na Bolsa apurou perto de oitenta
contos de réis. Maanape era feiticeiro. Oitenta contos não valia muito
mas o herói refletiu bem e falou prós manos:
— Paciência. A gente se arruma com isso mesmo, quem quer
cavalo sem tacha anda de a-pé.. . Com esses cobres é que Macunaíma
viveu. E foi numa bôca-da-noite frio que os manos toparam com a
cidade macota de São Paulo esparramada a beira-rio do igarapé Tietê.
Primeiro foi a gritaria da papagaiada imperial se despedindo do herói.
E lá se foi o bando sarapintado volvendo prós matos do norte. Os
manos entraram num cerrado cheio de inajás ouricuris ubussus
bacabas mucajás miritis tucumãs trazendo no curuatá uma penachada
de fumo em vez de palmas e cocos. Todas as estrelas tinham descido
do céu branco de tão molhado de garoa e banzavam pela cidade.
Macunaíma lembrou de procurar Ci Êh! dessa ele nunca poderia
esquecer não, porque a rede feiticeira que ela armara prós brinquedos,
fora tecida com os próprios cabelos dela e isso torna a tecedeira
inesquecível. Macunaíma campeou campeou mas as estradas e terreiros estavam apinhados de cunhas tão brancas tão alvinhas, tão!…
Macunaíma gemia. Roçava nas cunhas murmurejando com doçura:
“Mani! Mani! filhinhas da mandioca…” perdido de gosto e tanta
formosura. Afinal escolheu três. Brincou com elas na rede estranha
plantada no chão, numa maloca mais alta que a Paranaguara. Depois,
por causa daquela rede ser dura, dormiu de atravessado sobre os
corpos das cunhas. E a noite custou pra ele quatrocentos bagarotes. —A inteligência do herói estava muito perturbada. Acordou com os
berros da bicharia lá em baixo nas ruas, disparando entre as malocas
temíveis. E aquele diacho de sagüi-açu que o carregara pro alto do
tapiri tamanho em que dormira. . . Quê mundo de bichos! quê despropósito de papões roncando, mauaris juruparis sacis e boitatás nos
atalhos nas socavas nas cordas dos morros furados por grotões donde
gentama saía muito branquinha branquíssima, de certo a filharada da
mandioca!… Á inteligência do herói estava muito perturbada. As
cunhas rindo tinham ensinado pra ele que o sagüi-açu não era sagüim
não, chamava elevador e era uma máquina. De-manhãzinha ensinaram
que todos aqueles piados berros cuquiadas sopros roncos esturros não
eram nada disso não, eram mas cláxons campainhas apitos buzinas e
tudo era máquina. As onças pardas não eram onças pardas, se
chamavam fordes hupmobiles chevrolés dodges mármons e eram
máquinas. Os tamanduás os boitatás as inajás de curuatás de fumo, em
vez eram caminhões bondes autobondes anúncios-luminosos relógios
faróis rádios motocicletas telefones gorjetas postes chaminés. . . Eram
máquinas e tudo na cidade era só máquina! O herói aprendendo
calado. De vez em quando estremecia. Voltava a ficar imóvel
escutando assuntando maquinando numa cisma assombrada. Tomou-o
um respeito cheio de inveja por essa deusa de deveras forçuda, Tupã
famanado que os filhos da mandioca chamavam de Máquina, mais
cantadeira que a Mãe-D’água, em bulhas de sarapantar.
Então resolveu ir brincar com a Máquina pra ser também
imperador dos filhos da mandioca. Mas as três cunhas deram muitas
risadas e falaram que isso de deuses era gorda mentira antiga, que não
tinha deus não e que com a máquina ninguém não brinca porque ela
mata. A máquina não era deus não, nem possuía os distintivos
femininos de que o herói gostava tanto. Era feita pelos homens. Se
mexia com eletricidade com fogo com água com vento com., fumo, os
homens aproveitando as forças da natureza. Porém jacaré acreditou?
nem o herói! Se levantou na cama e com um gesto, esse sim! bem
guaçu de desdém, tó! batendo o antebraço esquerdo dentro do outro
dobrado, mexeu com energia a munheca direita pras três cunhas e
partiu. Nesse instante, falam, ele inventou o gesto famanado de
ofensa: a pacova.E foi morar numa pensão com os manos. Estava com a boca cheia
de sapinhos por causa daquela primeira noite de amor paulistano.
Gemia com as dores e não havia meios de sarar até que Maanape
roubou uma chave de sacrário e deu pra Macunaíma chupar. O herói
chupou chupou e sarou bem. Maanape era feiticeiro.
Macunaíma passou então uma semana sem comer nem brincar só
maquinando nas brigas sem vitória dos filhos da mandioca com a
Máquina. A Máquina era que matava os homens porém os homens é
que mandavam na Máquina… Constatou pasmo que os filhos da
mandioca eram donos sem mistério e sem força da máquina sem
mistério sem querer sem fastio, incapaz de explicar as infelicidades
por si. Estava nostálgico assim. Até que uma noite, suspenso no
terraço dum arranha-céu com os manos, Macunaíma concluiu:
— Os filhos da mandioca não ganham da máquina nem ela ganha
deles nesta luta. Há empate.
Não concluiu mais nada porque inda não estava acostumado com
discursos porém palpitava pra ele muito embrulhadamente muito! que
a máquina devia de ser um deus de que os homens não eram
verdadeiramente donos só porque não tinham feito dela uma Iara
explicável mas apenas uma realidade do mundo. De toda essa
embrulhada o pensamento dele sacou bem clarinha uma luz: Os
homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens.
Macunaíma deu uma grande gargalhada. Percebeu que estava livre
outra vez e teve uma satisfa mãe. Virou Jiguê na máquina telefone,
ligou prós cabarés encomendando lagosta e francesas.
No outro dia estava tão fatigado da farra que a saudade bateu nele.
Se lembrou da muiraquitã. Resolveu agir logo porque primeira
pancada é que mata cobra.
Venceslau Pietro Pietra morava num tejupar maravilhoso rodeado
de mato no fim da rua Maranhão olhando pra noruega do Pacaembu.
Macunaíma falou pra Maanape que ia dar uma chegadinha até lá por
amor de conhecer Venceslau Pietro Pietra. Maanape fez um discurso
mostrando as inconveniências de ir lá porque a regatão andava com o
calcanhar pra frente e si Deus o assinalou alguma lhe achou. De certo
um manuari malevo… Quem sabe si o gigante Piaimã comedor de
gente!… Macunaíma não quis saber.— Pois vou assim mesmo. Onde me conhecem honras me dão
onde não me conhecem me darão ou não!
Então Maanape acompanhou o mano.
Por detrás do tejupar do regatão vivia a árvore Dzalaúra-Iegue que
dá todas as frutas, cajus cajás cajàmangas mangas abacaxis abacates
jaboticabas graviolas sapotis pupunhas pitangas guajiru cheirando
sovaco de preta, todas essas frutas e é mui alta. Os dois manos
estavam com fome. Fizeram um zaiacúti com folhagem cortada pelas
saúvas, esconderijo no galho mais baixo da árvore pra flecharem a
caça devorando as frutas. Maanape falou pra Macunaíma:
— Olha, si algum pássaro cantar não secunda não, mano, sinão
adeus minhas encomendas!
O herói mexeu a cabeça que sim. Maanape atirava m a sarabatana
e Macunaíma recolhia por detrás do zaiacúti a caça caindo. Caça caía
com estrondo e Macunaíma aparava os macucos macacos micos
mutuns jacus jaós tucanos, todas essas caças. Porém o estrondo tirou
Venceslau Pietro Pietra do farniente e ele veio saber o que era aquilo.
E Venceslau Pietro Pietra era o gigante Piaimã comedor de gente.
Chegou na porta da casa e cantou feito pássaro:
— Ogoró! ogoró! ogoró!
parecendo muito longe. Macunaíma secundou logo:
— Ogoró! ogoró! ogoró!
Maanape sabia do perigo e murmurou:
— Esconde, mano!
O herói escondeu por detrás do zaiacúti entre a caça morta e as
formigas. Então gigante veio.
— Quem que secundou? Maanape respondeu:
— Sei não.
— Quem que secundou?
— Sei não.
Treze vezes. Daí o gigante falou:
— Foi gente. Me mostra quem era. Maanape jo^ou um macuco
morto. Piaimã engoliu o macuco e falou:
— Foi gente. Me mostra quem era. Maanape jogou um macaco
morto. Piaimã engoliu-o e continuou:
— Foi gente. Me mostra quem era.Então enxergou o dedo mindinho do herói escondido e atirou uma
baníni na direção. Se ouviu um grito gemido comprido, juuuque! e
Macunaíma agachou com a flecha enterrada no coração. O gigante
falou pra Maanape:
— Atira a gente que eu cacei! Maanape atirou guaribas jaós
mutuns mutum-de-vargem mutum-de-fava mutuporanga urus
urumutum, todas essas caças porém Piaimã engolia e tornava a pedir a
gente que ele flechara. Maanape não queria dar o herói e jogava as
caças. Levaram muito tempo assim e Macunaíma já tinha morrido. A
final Piaimã deu um berro medonho:
— Maanape, meu neto, deixa de conversa! Atira a gente que eu
cacei que sinão te mato, velho safadinho!
Maanape não queria jogar o mano mesmo, pegou desesperado em
seis caças duma vez um macuco um macaco um jacu uma jacutinga
uma picota e uma pia-coça e atirou no chão gritando:
— Toma seis!
Piaimã ficou danado. Agarrou quatro paus do mato, uma
acapurana um angelim um apió e um carará, e veio com eles pra cima
de Maanape:
— Sai do caminho, por queira! jacaré não tem pescoço, formiga
não tem caroço! comigo é só quatro paus na ponta da unha, jogador de
caça falsa!
Então Maanape ficou com muito medo e jogou, truque! o herói no
chão. Foi assim que Maanape com Piaimã inventaram o jogo sublime
do truco.
Piaimã sossegou.
— Este mesmo.
Agarrou o defunto por uma perna e foi puxando. Entrou na casa.
Maanape desceu da árvore desesperado. Quando ia pra seguir atrás do
defunto mano topou com a formiguinha sarara chamada Cambgique.
A sarara perguntou:
— O que você faz por aqui, parceiro!
— Vou atrás do gigante que matou meu mano.
— Vou também.Então Cambgique sugou todo sangue do herói, esparramado no
chão e nos ramos e sugando sempre as gotas do caminho foi
monstrando o rasto pra Maanape.
Entraram na casa atravessaram o hol e a sala-de-jantar, passaram
pela copa saíram no terraço do lado e pararam na frente do porão.
Maanape acendeu uma tocha de jutaí e puderam descer a escadinha
negra. Bem na porta da adega restejava a última gota de sangue. A
porta estava fechada. Maanape cocou o nariz e perguntou pra
Cambgique:
— E agora!
Então veio por debaixo da porta o carrapato Zlezlegue e perguntou
pra Maanape:
— Agora o quê, parceiro?
— Vou atrás do gigante que matou meu mano. Zlezlegue falou:
— Está bom. Então fecha o olho, parceiro. Maanape fechou.
— Abre o olho, perceiro.
Maanape abriu e o carrapato Zlezlegue tinha virado numa chave
yale. Maanape ergueu a chave do chão e abriu a porta. Zlezlegue virou
carrapato outra vez e ensinou:
— Com as garrafas bem de cima você convence Piaimã.
E desapareceu. Maanape tirou dez garrafas, abriu e veio vindo uma
aroma perfeito. Era o cauim famoso chamado quiânti. Então Maanape
entrou na outra sala da adega. O gigante estava aí com a companheira,
uma caapora velha sempre cachimbando que se chamava Ceiuci e era
muito gulosa. Maanape deu as garrafas pra Venceslau Pietro Pietra,
um naco de fumo do Acará pra caapora e o casal esqueceram que
havia mundo.
O herói picado em vinte vezes trinta torresminhos bubuiava na
polenta fervendo. Maanape catou os pedacinhos e os ossos e estendeu
tudo. no cimento pra refrescar. Quando esfriaram a sarara Cambgique
derramou por cima o sangue sugado. Então Maanape embrulhou todos
os pedacinhos sangrando em folhas de bananeira, jogou o embrulho
num sapiquá e tocou pra pensão.
Lá chegado botou o cesto de pé assoprou fumo nele e Macunaíma
veio saindo meio pamonha ainda, muito desmerecido, do meio das folhas. Maanape deu guaraná pro mano e ele ficou taludo outra vez.
Espantou os mosquitos e perguntou:
— O que foi que sucedeu pra mim?
— Mas, meus cuidados, não falei pra você não secundar cantiga de
passarinho! falei sim, pois então!…
No outro dia Macunaíma acordou com escarlatina e levou todo o
tempo da febre imaginando que carecia da máquina garrucha pra
matar Venceslau Pietro Pietra. Nem bem sarou foi na casa dos
Ingleses pedir uma smith-wêsson. Os Ingleses falaram:
— As garruchas inda estão muito verdolengas porém vamos a ver
si tem alguma têmpora.
Então foram em baixo da árvore garrucheira. Os Ingleses falaram:
— Você fica esperando aqui. Se despencar alguma garrucha então
pegue. Mas não deixa ela cair no chão não!
— Feito.
Os Ingleses sacudiram sacudiram a árvore e caiu uma garrucha
têmpora. Os Ingleses falaram:
— Essa está boa.
Macunaíma agradeceu e foi-se embora. Queria que os outros
acreditassem que ele falava o inglês porém não falava nem sweetheart
não, os manos é que falavam. Maanape também desejava garrucha
balas e uísque. Macunaíma aconselhou:
— Você não fala inglês, bem, mano Maanape, vai lá e a volta é
cruel. É capaz de pedir garrucha e darem conserva. Deixa que eu vou.
E foi falar outra vez com os Ingleses. Debaixo da árvore
garrucheira os Ingleses sacolejaram sacolejaram os ramos porém não
caiu nem uma garrucha não. Então foram debaixo da árvore baleira, os
Ingleses sacudiram e despencou um desperdício de balas que
Macunaíma deixou cair no chão depois catou. — Agora uísque, falou.
Foram debaixo da árvore uisqueira, os Ingleses sacudiram e
despencaram duas caixas que Macunaíma pegou no ar. Agradeceu
prós Ingleses e voltou pra pensão. Lá chegado escondeu as caixas
debaixo da cama e foi falar com o mano:
— Falei inglês com eles, mano, porém não tinha nem garrucha
nem uísque por causa que passou uma correiçao de formiga oncinha e comeu tudo. As balas trago aqui. Agora dou minha garrucha pra você
e quando alguém bulir comigo você atira.
Então virou Jiguê na máquina telefone, ligou pro gigante e xingou
a mãe dele.

VI
A FRANCESA E O GIGANTE
Maanape gostava muito de café e Jiguê muito de dormir.
Macunaíma queria erguer um papiri prós três morarem porém jamais
que papiri se acabava. Os puchirões goravam sempre porque Jiguê
passava o dia dormindo e Maanape bebendo café. O herói teve raiva.
Pegou numa colher, virou-a num bichinho e falou:
— Agora você fica sovertida no pó de café. Quando mano
Maanape vier beber, morda a língua dele!
Então pegando num cabeceiro de algodão, virou-o numa tatorana
branca e falou:
— Agora você fica sovertida na maqueira. Quando mano Jiguê
vier dormir, chupe o sangue dele!
Maanape já vinha entrando na pensão pra beber café outra vez. O
bichinho picou a língua dele. Ai! Maanape fez. Macunaíma bem sonso
falou:
— Está doendo, mano? Quando bichinho me pica não dói não.
Maanape teve raiva. Atirou o bichinho muito pra longe falando:
— Sai, praga!
Então Jiguê entrou na pensão pra tirar um corte. O marandová
branquinho tanto chupou o sangue dele que até virou rosado.
— Ai! que Jiguê gritou. E Macunaíma:
— Está doendo, mano? Ora veja só! Quando tatorana me chupa até
gosto.
Jiguê teve raiva e atirou a tatorana longe falando:
— Sai, praga!
E então os três manos foram continuar a construção do papiri.
Maanape e Jiguê ficaram dum lado e Macunaíma do outro pegava os
tijolos que os manos atiravam. Maanape e Jiguê estavam tiriricas e
desejando se vingar do mano. O herói não maliciava nada. Vai, Jiguê
pegou num tijolo, porém pra não machucar muito virou-o numa bola
de couro duríssima. Passou a bola pra Maanape qüe estava mais na
frente e Maanape com um pontapé mandou ela bater em Macunaíma.
Esborrachou todo o nariz do herói.
— Ui! que o herói fez.Os manos bem sonsos gritaram:
— Uai! está doendo, mano! Pois quando bola bate na gente nem
não dói!
Macunaíma teve raiva e atirando a bola com o pé bem pra longe
falou:
— Sai, peste!
Veio onde estavam os manos:
— Não faço mais papiri, pronto!
E virou tijolos pedras telhas ferragens numa nuvem de içás que
tomou São Paulo por três dias.
O bichinho caiu em Campinas. A tatorana caiu por aí. A bola caiu
no campo. E foi assim que Maanape inventou o bicho-do-café, Jiguê a
largarta-rosada e Macunaíma o futebol, três pragas.
No outro dia, com o pensamento sempre na marvada, o herói
percebeu que xetrara mesmo duma vez e nunca mais que podia
aparecer na rua Maranhão porque agora Venceslau Pietro Pietra já o
conhecia bem. Imaginou e ali pelas quinze horas teve uma idéia. Resolveu enganar o gigante. Enfiou um membi na goela, virou Jiguê na
máquina telefone e telefonou pra Venceslau Pietro Pietra que uma
francesa queria falar com ele a respeito da máquina negócios. O outro
secundou que sim e que viesse agorinha já porque a velha Ceiuci tinha
saído com as duas filhas e podiam negociar mais folgado.
Então Macunaíma emprestou da patroa da pensão uns pares de
bonitezas, a máquina ruge, a máquina meia-de-sêda, a máquina
combinação com cheiro de cascasacaca, a máquina cinta aromada com
capim cheiroso, a máquina decoletê úmida e patchuli, a máquina
mitenes, todas essas bonitezas, dependurou dois mangarás nos peitos e
se vestiu assim. Pra completar inda barreou com azul de pau
campeche os olhinhos de piá que se tornaram lânguidos. Era tanta
coisa que ficou pesado mas virou numa francesa tão linda que se
defumou com jurema e alfinetou um raminho de pinhão paraguaio no
patriotismo pra evitar quebranto. E foi no palácio de Venceslau Pietro
Pietra. E Venceslau Pietro Pietra era o gigante Piaimã comedor de
gente.Saindo da pensão Macunaíma topou com um beija-flor com rabo
de tesoura. Não gostou da cagüira não e pensou abandonar o randevu
porém como promessa é dívida fez um esconjuro e seguiu.
Lá chegado encontrou o gigante no portão, esperando. Depois de
muitos salamaleques Piaimã tirou os carrapatos da francesa e levou-a
pra uma alcova lindíssima com esteios de acaricoara e tesouras de
itaúba. O assoalho era um xadrez de munirapiranga e pau-cetim. A
alcova estava mobiliada com as famosas redes brancas do Maranhão.
Bem no centro havia uma mesa de jacarandá esculpido arranjada com
louça branco-encarnada de Breves e cerâmica de Belém, disposta
sobre um toalha de rendas tecidas com fibra de bananeira. Numas
bacias enormes originárias das cavernas do rio Cunani fumegava
tacacá com tucupi, sopa feita com um paulista vindo dos frigoríficos
da Continental, uma jacarezada e polenta. Os vinhos eram um Puro de
Ica subidor vindo de Iquitos, um Porto imitação, de Minas, uma
caiçuma de oitenta anos, champanha de São Paulo bem gelada e um
extrato de jenipapo famanado e ruim como três dias- de chuva. E inda
havia dispostos com arte enfeitadeira e muitos recortados de papel, os
esplêndidos bombons Falchi e biscoitos do Rio Grande empilhados
em cuias dum preto brilhante de cumaté com desenhos esculpidos a
canivete, provindas de Monte Alegre.
A francesa sente i numa rede e fazendo gestos graciosos principiou
mastigando. Estava com muita fome e comeu bem. Depois tomou um
copo de Puro pra rebater e resolveu entrar no assunto de chapéu-de-sol
aberto. Foi logo perguntando si o gigante era verdade que possuía uma
muiraquitã com forma de jacaré. O gigante foi lá dentro e voltou com
um caramujo na mão. E puxou pra fora dele uma pedra verde. Era a
muiraquitã! Macunaíma sentiu um frio por dentro de tanta comoção e
percebeu que ia chorar. Mas disfarçou bem perguntando si o gigante
não queria vender a pedra. Porém Venceslau Pietro Pietra piscou
faceiro dizendo que vendida não dava a pedra não. Então a francesa
pediu suplicando pra levar a pedra de emprestado pra casa. Venceslau
Pietro Pietra mais uma vez piscou faceiro falando que de emprestado
não dava a pedra também não:
— Você imagina então que vou cedendo assim com duas risadas,
francesa? Qual!— Mas eu estou querendo tanto a pedra!…
— Vá querendo!
— Pois tanto se me dá como se me dava, regatão!
— Regatão uma ova, francesa! Dobre a língua! Colecionador é que
é!
Foi lá dentro e voltou carregando um grajaú tamanho feito de
embira e cheinho de pedra. Tinha turquesas esmeraldas berilos seixos
polidos, ferragem com forma de agulha, crisólita pingo-d’água
tinideira esmeril lapinha ovo-de-pomba osso-de-cavalo machados
facões flechas de pedra lascada, grigris rochedos elefantes petrificados, colunas gregas, deuses egípcios, budas javaneses, obeliscos
mesas mexicanas, ouro guianense, pedras ornitomorfas de Iguape,
opalas do igarapé Alegre, rubis e granadas do rio Gurupi, itamotingas
do rio das Garças, itacolumitos, turmalinas de Vupabuçu, blocos de
titânio do rio Piriá, bauxitas do ribeirão do Macaco, fósseis calcáreos
de Pirabas, pérolas de Cametá, o rochedo tamanho que Oaque o Pai do
Tucano atirou com a sarabatana lá do alto daquela montanha, um
litóglifo de Calamare, tinha todas essas pedras no grajaú.
Então Piaimã contou pra francesa que ele era um colecionador
célebre, colecionava pedras. E a francesa era Macunaíma, o herói.
Piaimã confessou que a jóia da coleção era mesmo a muiraquitã com
forma de jacaré comprada por mil contos da imperatriz das icamiabas
lá nas praias da lagoa Jaciuruá. E tudo era mentira do gigante. Vai, ele
sentou na rede mui rente da francesa, muito! e falou murmuriando que
com ele era oito ou oitenta, não vendia não emprestava a pedra mas
porém era capaz de dar… “Confrome…” O gigante estava mas era
querendo brincar com a francesa. Quando por causa do jeito de Piaimã
o herói entendeu o que significava o tal de “conforme”, ficou muito
inquieto. Matutou: “Será que o gigante imagina que sou francesa
mesmo!… Cai fora, peruano senvergonha”! E saiu correndo pelo
jardim. O gigante correu atrás. A francesa pulou numa moita pra se
esconder porém estava uma pretinha lá. Macunaíma cochilou Pra ela:
— Caterina, sai daí sim?
Caterina nem gesto. Macunaíma já meio impinimado com ela,
cochichou:
— Caterina, sai daí que sinão te bato!A mulatinha ali. Então Macunaíma deu um bruto dum tapa na
peste e ficou com a mão grudada nela.
— Caterina, me larga minha mão e vai-te embora que te dou mais
tapa, Caterina!
Caterina era mas uma boneca de cera de carnaúba posta ali pelo
gigante. Ficou bem quieta. Macunaíma deu outro tapa com a mão livre
e ficou mais preso.
— Caterina, Caterina! me larga minhas mãos e vaite embora
pixaim! sinão te dou um pontapé!
Deu o pontapé e ficou mais preso ainda. Afinal o herói ficou
inteirinho grudado na Catita. Então chegou Piaimã com um cesto.
Tirou a francesa da armadilha e berrou pro cesto:
— Abra a boca, cesto, abra a vossa grande boca! O cesto abriu a
boca e o gigante despejou o herói nele. O cesto fechou a boca outra
vez, Piaimã carregou-o e voltou. A francesa em vez de bolsa estava
armada com o mênie que serve pra guardar as frechinhas da
sarabatana. O gigante deixou o cesto encostado na porta de entrada e
afundou casa a dentro pra guardar o mênie entre as pedras da coleção.
Porém o mênie era de pano cheirando piche de caça. O gigante
desconfiou daquilo e perguntou:
— Vossa mãe é tão cheirosa e gordinha que nem você, criatura?
E revirou os olhos de gosto. Ele estava maliciando que o mênie era
filhinho da francesa. E a francesa era Macunaíma o herói. Lá do cesto
ele escutou a pergunta e principiou ficando excessivamente inquieto.
“Pois então será mesmo que esse tal de Venceslau imagina que passei
por debaixo de algum arco-da-velha pra ter mundado a natureza? te
esconjuro, credo!” Então assoprou raiz de cumacá em pó que bambeia
cordas, bambeou o amarrilho do cesto e pulou pra fora. Ia saindo
quando topou com o jaguará do gigante, que chamava Xaréu, nome de
peixe pra não ficar hidrófobo. O herói teve medo e desembestou numa
chispada mãe parque adentro. O cachorro correu atrás. Correram.
Passaram Já rente à Ponta do Calabouço, tomaram rumo de Guajará
Mirim e voltaram pra leste. Em Itamaracá Macunaíma passou um
pouco folgado e teve tempo de comer uma dúzia de manga-jasmim
que nasceu do corpo de dona Sancha, dizem. Rumaram pra sudoeste e
nas alturas de Barbacena o fugitivo avistou uma vaca no alto duma ladeira calçada com pedras pontudas. Lembrou de tomar leite. Subiu
esperto pela capistrana pra não cansar porém a vaca era de raça
Guzerá muito brava. Escondeu o leitinho pobre. Mas Macunaíma fez
uma oração assim:
Valei-me Nossa Senhora,
Santo Antônio de Nazaré,
A vaca mansa dá leite,
A braba dá si quisé!
A vaca achou graça, deu leite e o herói chispou pro sul.
Atravessando o Paraná já de volta dos pampas bem que ele queria
trepar numa daquelas árvores porém os latidos estavam na cola dele e
o herói isso vinha que vinha acochado pelo jaguara. Gritava:
— Sai, pau!
E desviava de cada castanheira, de cada pau-d’arco, de cada
cumpro bom de trepar. Adiante da cidade de Serra no Espírito Santo
quase arrebentou a cabeça numa pedra com muitas pinturas esculpidas
que não se entendia. De certo era dinheiro enterrado… Porém
Macunaíma estava com pressa e frechou pras barrancas da ilha do
Bananal. Enfim enxergou um formigueiro de trinta metros abrindo um
olho no rés do chão bem na frente. Barafustou subindo pelo buraco a
dentro e se encolheu no alto. O jaguara ficou acuando ali.
Então o gigante veio e topou com o jaguara acuando o
formigueiro. Bem na entrada a francesa perdera uma correntinha de
prata. “Meu tesouro está aqui” murmurou o gigante. Então o jaguara
desapareceu. Piaimã arrancou da terra com raiz e tudo uma palmeira
inajá e nem deixou sinal no chão. Cortou o grelo do pau e enfiou-o
pelo buraco por amor de fazer a francesa sair. Porém jacaré saiu? nem
ela! Abriu as pernas e o herói ficou como se diz empalado na inajá.
Vendo que a francesa não saía mesmo, Piaimã foi buscar pimenta.
Trouxe uma correição das formigas anaquilãs que é pimenta de
gigante, botou-as no buraco, elas ferraram no herói. Mas nem assim
mesmo a francesa saiu. Piaimã jurou vingança. Pinchou fora as
anaquilãs e gritou pra Macunaíma:
— Agora que te agarro mesmo porque vou buscar a jararaca Elite!Quando ouviu isso o herói gelou. Com a jararaca ninguém não
pode não. Gritou pro gigante:
— Espera um bocado, gigante, que já saio. Porém pra ganhar
tempo tirou os mangarás do
peito e botou na boca do buraco falando:
— Primeiro bota isso pra fora, faz favor. Piaimã estava tão
furibundo que atirou os mangarás longe. Macunaíma presenciou a
raiva do gigante.
Tirou a máquina decoletê, pôs ela na boca do buraco, falando outra
vez:
— Bota isso pra fora, faz favor.
Piaimã inda atirou o vestido mais longe. Então Macunaíma botou a
máquina cinta, depois a máquina
sapatos e foi fazendo assim com todas as roupas. O gigante isso já
estava fumando de tão danado. Jogava tudo longe sem nem olhar o
que era. Então bem de mansinho o herói pôs o sim-sinhô dele na boca
do buraco e falou:
— Agora me bote fora só mais esta cabaça fedorenta.
Piaimã cego de raiva agarrou no sim-sinhô sem ver o que era e
atirou sim-sinhô com herói e tudo légua e meia adiante. E ficou
esperando pra sempre enquanto o herói lá longe ganhava os mororós.
Chegou na pensão tomando a bênção de cachorro e chamando gato
de tio, só vendo! suando esfolado com fogo nos olhos, botando os
bofes pela boca. Descansou um pedaço e como estava arado de fome
bateu uma fritada de sururu de Maceió, um pato seco de Marajó molhando a janta com mocororó. Descansou.
Macunaíma estava muito contrariado. Venceslau Pietro Pietra era
um colecionador célebre e ele não. Suava de inveja e afinal resolveu
imitar o gigante. Porém não achava graça em colecionar pedra não
porque já tinha uma imundície delas na terra dele pelos espigões, nos
manadeiros nas corredeiras nas seladas e gupiaras altas. E todas essas
pedras já tinham sido vespas formigas mosquitos carrapatos animais
passarinhos gentes e cunhas e cunhatãs e até as graças das cunhas e
das cunhatãs… Praquê mais pedra que é tão pesado de carregar!…
Estendeu os braços com moleza e murmurou:
— Ai! que preguiça!…Matutou matutou e resolveu. Fazia uma coleção de palavras-feias
de que gostava tanto.
Se aplicou. Num átimo reuniu milietas delas em todas as falas
vivas e até nas línguas grega e latina que estava estudando um bocado.
A coleção italiana era completa, com palavras pra todas as horas do
dia, todos os dias do ano, todas as circunstâncias da vida e sentimentos
humanos. Cada bocagem! Mas a jóia da coleção era uma frase indiana
que nem se fala.

VII
MACUMBA
Macunaíma estava muito contrariado. Não conseguia reaver a
muiraquitã e isso dava ódio. O milhor era matar Piaimã… Então saiu
da cidade e foi no mato Fulano experimentar força. Campeou légua e
meia e afinal enxergou uma peroba sem fim. Enfiou o braço na
sapopemba e deu um puxão pra ver si arrancava o pau mas só o vento
sacudia a folhagem na altura porém. “Inda não tenho bastante força
não”, Macunaíma, refletiu. Agarrou num dente de ratinho chamado
crô, fez uma bruta incisão na perna, de preceito pra quem é frouxo e
voltou sangrando pra pensão. Estava desconsolado de não ter força
ainda e vinha numa distração tamanha que deu uma topada.
Então de tanta dor o herói viu no alto as estrelas c entre elas
enxergou Capei minguadinha cercada de névoa. “Quando mingua a
Luna não comeces coisa alguma” suspirou. E continuou consolado.
No outro dia o tempo estava inteiramente frio e o herói resolveu se
vingar de Venceslau Pietro Pietra dando uma sova nele pra esquentar.
Porém por causa de não ter força tinha mas era muito medo do
gigante. Pois então resolveu tomar um trem e ir no Rio de Janeiro se
socorrer e Exu diabo em cuja honra se realizava uma macumba no
outro dia.
Era junho e o tempo estava inteiramente frio. A macumba se
rezava lá no Mangue no zungu da tia Ciata, feiticeira como não tinha
outra, mãe-de-santo famanada e cantadeira ao violão. Às vinte horas
Macunaíma chegou na biboca levando debaixo do braço o garrafão de
pinga obrigatório. Já tinha muita gente lá, gente direita, gente pobre,
advogados garçons pedreiros meias-colheres deputados gatunos, todas
essas gentes e a função ia principiando. Macunaíma tirou os sapatos e
as meias como os outros e enfiou no pescoço a milonga feita de cera
de vespa tatucaba e raiz seca de assacu. Entrou na sala cheia e
afastando a mosquitada foi de quatro saudar a candomblèzeira imóvel
sentada na tripeça, não falando um isto. Tia Ciata era uma negra velha
com um século no sofrimento, javevó e galguincha com a cabeleira
branca esparramada feito luz em torno da cabeça pequetita. Ninguém mais não enxergava olhos nela, era só ossos duma compridez já
sonolenta pendependendo, pro chão de terra.
Vai, um rapaz filho de Ochum, falavam, filho de Nossa Senhora da
Conceição cuja macumba era em dezembro, distribuiu uma vela acesa
pra cada um dos marinheiros marcineiros jornalistas ricaços gamelas
fêmeas empregados-públicos, muitos empregados-públicos! todas
essas gentes e apagou o bico de gás alumiando a saleta.
Então a macumba principiou de deveras se fazendo um çairê pra
saudar os santos. E era assim: Na ponta vinha o ogã tocador de
atabaque, um negrão filho de Ogum, bexiguento e fadistas de
profissão, se chamando Olelê Rui Barbosa. Tabaque mexiamexia
acertado num ritmo que manejou toda a procissão. E as velas jogaram
nas paredes de papel com florzinhas, sombras tremendo vagarentas
feito assombração. Atrás do ogã vinha tia Ciata quase sem mexer, só
beiços puxando a reza monótona. E então seguiam advogados taifeiros
curandeiros poetas o herói gatunos portugas senadores, todas essas
gentes dançando e cantando a resposta da reza. E era assim:
— Va-mo sa-ra-vá!…
Tia Ciata cantava o nome do santo que tinham de saudar: v. .. .
— Ôh Olorung!
E a gente secundando:
— Va-mo sa-ra-vá!…
Tia Ciata continuava:
— Ô Boto Tucuchi!
E a gente secundando:
— Va-mo sa-ra-vá!…
Docinho numa reza mui monótona.
— Ô Iemanjá! Anamburucu! e Ochum! três Mães-d’água!
— Va-mo sa-ra-vá!…
Assim. E quando a tia Ciata parava gritando com gesto imenso:
— Sai Exu!
porque Exu era o diabo-coxo, um capiroto malévolo, mas bom
porém pra fazer malvadezas, era um tormento na sala uivando:
— Uuum!… uuum!… Exu! Nosso padre Exu…!
E o nome do diabo reboava com estrondo diminuindo o tamanhão
da noite fora. O çairê continuava:— Ôh Rei Nagô!
— Va-mo sa-ra-vá!… Docinho na reza monótona.
— Ôh Baru!
— Va-mo sa-ra-vá!…
Quando sinão quando tia Ciata parava gritando com gesto imenso:
— Sai Exu!
porque Exu era o pé-de-pato, um jananaíra malévolo. E de novo
era o tormento na sala uivando:
— Uuuum!… Exu! Nosso padre Exu!…
E o nome do diabo reboava com estrondo encurtando o tamanho
da noite.
— Ôh Oxalá!
— Va-mo sa-ra-vá!…
Era assim. Saudaram todos os santos da pagelança, o Boto Branco
que dá os amores Xangô, Omulu, Iroco Ochosse, a Boiúna Mãe feroz,
Obatalá que dá força pra brincar muito, todos esses santos e o çairê se
acabou. Tia Ciata sentou na tripeça num canto e toda aquela gente
suando, médicos padeiros engenheiros rábulas polícias criadas focas
assassinos, Macunaíma, todos vieram botar as velas no chão rodeando
a tripeça. As velas jogaram no teto a sombra da mãe-de-santo imóvel.
Já quase todos tinham tirado algumas roupas e o respiro ficara chiado
por causa do cheiro de mistura budum coty pitium e o suor de todos.
Então veio a vez de beber. E foi lá que Macunaíma provou pela
primeira vez o cachiri temível cujo nome é cachaça. Provou estalando
com a língua feliz e deu uma grande gargalhada.
Depois da bebida, entre bebidas, seguiram as rezas de invocação.
Todos estavam inquietos ardentes desejando que um santo viesse na
macumba daquela noite. Fazia já tempo que nenhum não vinha por
mais que os outros pedissem. Porque a macumba da tia Ciata não era
que-nem essas macumbas falsas não, em que sempre o pai-de-terreiro
fingia vir Xangô Ochosse qualquer, pra contentar os macumbeiros.
Era uma macumba séria e quando santo aparecia, aparecia de deveras
sem nenhuma falsidade. Tia Ciata não permitia dessas desmoralizações no zungu dela e fazia mais de doze meses que Ogum
nem Exu não apareciam no Mangue. Todos desejavam que Ogum viesse. Macunaíma queria Exu só pra se vingar de Venceslau Pietro
Pietra.
Entre golinhos de abrideira, uns de joelhos outros de quatro, todas
essas gentes seminuas rezavam em torno da feiticeira pedindo a
aparição dum santo. À meia-noite foram lá dentro comer o bode cuja
cabeça e patas já estavam lá no pegi, na frente da imagem de Exu que
era um tacuru de formiga com três conchas fazendo olhos e boca. O
bode fora morto em honra do diabo e salgado com pó de chifre e
esporão de galo-de-briga. A mãe-de-santo puxou a comilança com
respeito e três pelossinais de atravessado. Toda a gente vendedores
bibliófilos pés-rapados acadêmicos banqueiros, todas essas gentes
dançando em volta da mesa cantavam:
Bamba querê
Sai Aruê
Mongi gongo
Sai Orobô,
Êh!…
ôh mungunzá
Bom acaçá
Vancê nhamanja
De pai Guenguê,
Êh!…
E conversando pagodeando devoraram o bode consagrado e cada
qual buscando o garrafão de pinga dele porque ninguém não podia
beber no de outro, todos beberam muita caninha, muita! Macunaíma
dava grandes gargalhadas e de repente derrubou vinho na mesa. Era
sinal de alegrão pra ele e todos imaginavam que o herói era o
predestinado daquela noite santa. Não era não.
Nem bem reza recomeçou se viu pular no meio da saleta uma
fêmea obrigando todos a silêncio com o gemido meio choro e puxar
canto novo. Foi um tremor em todos e as velas jogaram a sombra de
cunha que nem monstro retorcido procanto do teto, era Exu! Ogã
pelejava batendo tabaque pra perceber os ritmos doidos do canto
novo, canto livre, de notas afobadas cheio de saltos difíceis, êxtase maluco baixinho tremendo de fúria. E a polaca muito pintada na cara,
com as alças da combinação arrebentadas estremecia no centro da
saleta, já com as gorduras quasi inteiramente nuas. Os peitos dela
balangavam batendo nos ombros na cara e depois na barriga, juque!
com estrondo. E a ruiva cantando cantando. Afinal a espuminha rolou
dos beiços desmanchados, ela deu um grito que diminuiu o tamanhão
da noite mais, caiu no santo e ficou dura.
Passou um tempo de silêncio sagrado. Então tia Ciata se levantou
da tripeça que uma mazombinha substituiu no sufragante por um
banco novo nunca sentado, agora pertencendo pra outra. A mãe-deterreiro veio vindo veio vindo. Ogã vinha com ela. Todos os outros
estavam de pé se achatando nas paredes. Só tia Ciata veio vindo veio
vindo e chegou junto do corpo duro da polaca no centro da saleta ali.
A feiticeira tirou a roupa ficou nua, só com os colares os braceletes os
brincos de contas de prata pingando nos ossos. Foi tirando da cuia que
Ogã pegava, o sangue coalhado do bode comido e esfregando a pasta
na cabeça da balalaó. Mas quando derramou o efém verdento em riba,
a dura se estorceu gemida e o cheiro iodado embebedou o ambiente.
Então a mãe-de-santo entoou a reza sagrada de Exu, melopéia
monótona.
Quando acabou, a fêmea abriu os olhos, principiou se movendo
bem diferente de já-hoje e não era mais fêmea era o cavalo do santo,
era Exu. Era Exu, o romãozinho que viera ali com todos pra
macumbar.
O par de nuas executava um jongo improvisado e festeiro que
ritmavam os estralos dos ossos da tia, os juques dos peitos da gorda e
o ogã com batidos chatos. Todos estavam nus também e se esperava a
escolha do Filho de Exu pelo grande Cão presente. Jongo temível.
Macunaíma fremia de esperança querendo o cariapemba pra pedir uma
tunda em Venceslau Pietro Pietra. Não se sabe o que deu nele de
sopetão, entrou gingando no meio da sala derrubou Exu e caiu por
cima brincando com vitória. E a consagração do Filho de Exu novo
era celebrada por licenças de todos e todos se urarizaram em honra do
filho novo do icá.
Terminada a cerimônia o diabo foi conduzido pra tripeça,
principiando a adoração. Os ladrões os senadores os jecas os negros as senhoras os futebóleres, todos, vinham se rojando por debaixo do pó
alaranjando a saleta e depois de batida a cabeça com o lado esquerdo
no chão, beijavam os joelhos beijavam todo o corpo do uamoti. A
polaca vermelha tremendo rija pigando espuminha da boca em que
todos molhavam o mata-piolho pra se benzerem de atravessado, gemia
uns roncos regougados meio choro meio gozo e não era polaca mais,
era Exu, o jurupari mais macanudo daquela religião.
Depois que todos beijaram adoraram e se benzeram muito, foi a
hora dos pedidos e promessas. Um carniceiro pediu pra todos
comprarem a carne doente dele e Exu consentiu. Um fazendeiro pediu
pra não ter mais saúva nem maleita no sítio dele e Exu se riu falando
que isso não consentia não. Um namorista pediu pra pequena dele
conseguir o lugar de professora municipal pra casarem e Exu
consentiu. Um médico fez um discurso pedindo pra escrever com
muita elegância a fala portuguesa e Exu não consentiu. Assim. Afinal
veio a vez de Macunaíma o filho novo do fute. E Macunaíma falou:
— Venho pedir pra meu pai por causa que estou muito
contrariado.
— Como se chama? perguntou Exu.
— Macunaíma, o herói.
— Uhum… o maioral resmungou, nome principiado por Ma tem
má-sina…
Mas recebeu com carinho o herói e prometeu tudo o que ele
pedisse porque Macunaíma era filho. E o herói pediu que Exu fizesse
sofrer Venceslau Pietro Pietra que era o gigante Piaimã comedor de
gente.
Então foi horroroso o que se passou. Exu pegou três pauzinhos de
erva-cidreira benta por padre apóstata, jogou pro alto, fez
encruzilhada, mandando o eu de Venceslau Pietro Pietra vir dentro
dele Exu pra apanhar. Esperou um momento, o eu do gigante veio, entrou dentro da fêmea, e Exu mandou o filho dar a sova no eu que
estava encarnado no corpo polaco. O herói pegou uma tranca e
chegou-a em Exu com vontade. Deu que mais deu. Exu gritava:
— Me espanca devagar
Que isto dói dói dói!
Também tenho família E isto dói dói dói!
Enfim roxo de pancada sangrando pelo nariz pela boca pelos
ouvidos caiu desmaiando no chão. E era horroroso… Macunaíma
ordenou que o eu do gigante fosse tomar um banho salgado e fervendo
e o corpo de Exu fumegou molhando o terreno. E Macunaíma ordenou
que o eu do gigante fosse pisando vidro através dum mato de urtiga e
agarra-compadre até as grunhas da serra dos Andes pleno inverno e o
corpo de Exu sangrou com lapos de vidro, unhadas de espinho e
queimaduras de urtiga, ofegando de fadiga e tremendo de tanto frio.
Era horroroso. E Macunaíma ordenou que o eu de Venceslau Pietro
Pietra recebesse o guampaço dum marruá, o coice dum bagual, a
dentada dum jacaré e os ferrões de quarenta vezes quarenta mil
formigas-de-fogo e o corpo de Exu retorceu sangrando empolando na
terra, com uma carreira de dentes numa perna, com quarenta vezes
quarenta mil ferroadas de formiga na pele já invisível, com a testa
quebrada pelo casco dum bagual e um furo de aspa aguda na barriga.
A saleta se encheu dum cheiro intolerável. E Exu gemia:
— Me chifra devagar
Que isto dói dói dói!
Também tenho família
E isto dói dói dói!
Macunaíma ordenou muito tempo muitas coisas assim e tudo o eu
de Venceslau Pietro Pietra agüentou pelo corpo de Exu. Afinal a
vingança do herói não pôde inventar mais nada, parou. A fêmea só
respirava levinho largada no chão de terra. Teve um silêncio fatigado.
E era horroroso.
Lá no palácio da rua Maranhão em São Paulo tinha um correcorre
sem parada. Vinham médicos veio a Assistência todos estavam
desesperados. Venceslau Pietro Pietra sangrava todo urrando.
Mostrava uma chifrada na barriga, quebrou a testa que parecia coice
de potro, queimado enregelado mordido e todo cheio das manchas e
galos duma tremendérrima sova de pau.Na macumba continuava o silêncio de horror. Tia Ciata veio
maneira e principiou rezando a reza maior do diabo. Era a reza
sacrílega entre todas, que se errando uma palavra dá morte, a reza do
Padre Nosso Exu, e era assim:
— Padre Exu achado nosso que vós estais no trezeno inferno da
esquerda de baixo, nóis te queremo muito, nóis tudo!
— Quereremos! quereremos!
— … O pai nosso Exu de cada dia nos dai hoje, seja feita vossa
vontade assim também no terreiro da sanzala que pertence pro nosso
padre Exu, por todo o sempre que assim seja, amém!…
Glória pra pátria gêge de Exu!
— Glória pro fio de Exu! Macunaíma agradeceu. A tia acabou:
— Chico-t-era um príncipe gege que virou nosso padre Exu dos
século seculóro pra sempre que assim seja, amém.
— Pra sempre que assim seja, amém!
Exu ia sarando sarando, tudo foi desaparecendo por encanto
quando a caninha circulou e o corpo da polaca virou são outra vez. Se
escutou uma bulha tamanha e tomou o espaço um cheiro de breu
queimado enquanto a fêmea deitava pela boca um anel de azeviche.
Então voltou do desmaio vermelha gorda só que mui fatigada e agora
estava só a polaca ali, Exu tinha ido embora.
E pra acabar todos fizeram a festa juntos comendo bom presunto e
dançando um samba de arromba em que todas essas gentes se
alegraram com muitas pândegas liberdosas. Então tudo acabou se
fazendo a vida real. E os macumbeiros, Macunaíma, Jaime Ovalle,
Dodô, Manu Bandeira, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira, Raul Bopp,
Antônio Bento, todos esses macumbeiros saíram na madrugada.

VIII
VEI, A SOL
Macunaíma ia seguindo e topou com a árvore Volomã bem alta.
Num galho estava um pitiguari que nem bem enxergou o herói, se
desgoelou cantando — “Olha no caminho quem vem! Olha no
caminho quem vem!” Macunaíma olhou pra cima com intenção de
agradecer mas Volomã estava cheinha de fruta. O herói vinha dando
horas de tanta fome e a barriga dele empacou espiando aquelas sapotas
sapotilhas sapotis bacuris abricôs mucajás miritis guabijus melancias
ariticuns, todas essas frutas.
— Volomã, me dá uma fruta, Macunaíma pediu. O pau não quis
dar. Então o herói gritou duas vezes:
— Boiôiô, boiôiô! quizama quizu!
Caíram todas as frutas e ele comeu bem. Volomã ficou com ódio.
Pegou o herói pelos pés e atirou-o pra além da baía de Guanabara
numa ilhota deserta, habitada antigamente pela ninfa Alamoa que veio
com os Holandeses. Macunaíma pendia tanto de fadiga que pegou no
sono durante o pulo. Caiu dormindo em baixo duma palmeirinha
guairô muito aromada onde um urubu estava encarapitado.
Ora o pássaro careceu de fazer necessidades, fez e o herói ficou
escorrendo sujeira de urubu. Já era de madrugadinha e o. tempo estava
inteiramente frio. Macunaíma acordou tremendo, todo enlambuzado.
Assim mesmo examinou bem a pedra mirim da ilhota pra ver si não
havia alguma cova com dinheiro enterrado. Não havia não. Nem a
correntinha encantada de prata que indica pro escolhido, tesouro de
Holandês. Havia só as formigas jaquitaguas ruivinhas.
Então passou Caiuanogue, a estrêla-da-manhã. Macunaíma já meio
enjoado de tanto viver pediu pra ela que o carregasse pro céu.
Caiuanogue foi se chegando porém o herói fedia muito.
— Vá tomar banho! ela fez. E foi-se embora. Assim nasceu a
expressão “Vá tomar banho!” que os Brasileiros empregam se
referindo a certos imigrantes europeus.
Vinha passando Capei, a Lua. Macunaíma gritou pra ela:— Sua bênção, dindinha Lua!
— Uhum… que ela secundou.
Então ele pediu pra Lua que o carregasse pra ilha de Marajó. Capei
veio chegando porém Macunaíma estava mesmo fedendo por demais.
— Vá tomar banho! ela fez. E foi-se embora. E a expressão se
fixou definitivamente. Macunaíma gritou pra Capei que pelo menos
desse um foguinho pra ele aquecer.
— Peça no vizinho! ela fez apontando pra Sol que já vinha lá no
longe remando pelo paraná guaçu. E foi-se embora.
Macunaíma tremia que mais tremia e o urubu sempre fazendo
necessidade em riba dele. Era por causa da pedra ser muito
pequetitinha. Vei vinha chegando vermelha e toda molhada de suor. E
Vei era a Sol. Foi muito bom pra Macunaíma porque lá em casa ele
sempre dera presentinhos de bô-lo-de-aipim pra Sol lamber secando.
Vei tomou Macunaíma na jangada que tinha uma vela cor-deferrugem pintada com muruci e fez as três filhas limparem o herói,
catarem os carrapatos e examinarem si as unhas dele estavam limpas.
E Macunaíma ficou alinhado outra vez. Porém por causa dela estar
velha vermelha e tão suando o herói não malíciava que a coroca era
mesmo a Sol, a boa da Sol poncho dos probres. Por isso pediu pra ela
que chamasse Vei com seu calor porque ele estava lavadinho bem mas
tremendo de tanto frio. Vei era a Sol mesmo e andava matinando fazer
Macunaíma genro dela. Só que ainda não podia aquentar ninguém
não, porque era cedo por demais, não tinha força. Pra distrair a espera
assobiou dum jeito e as três filhas dela fizeram muitos cafunés e
cosquinhas no corpo todo do herói.
Ele dava risadas chatas, se espremendo de cócegas e gostando
muito. Quando elas paravam pedia mais estorcendo já de antegozo.
Vei pôs reparo na senvergonhice do herói, teve raiva. Foi ficando sem
vontade de tirar fogo do corpo e esquentar ninguém. Então as cunhatãs
agarraram na mãe, amarraram bem ela e Macunaíma dando muitos
munhecaços na barriga da bruaca saiu que saiu um fogaréu por detrás
e todos se aquentaram.
Principiou um calorão que tomou a jangada, se alastrou nas águas
e dourou a face limpa do ar. Macunaíma deitado na jangada lagarteava
numa quebreira azul. E o silêncio alargando tudo…— Ai… que preguiça…
O herói suspirou. Se ouvia o murmurejo da onda, só. Veio um
enfaro feliz subindo pelo corpo de Macunaíma, era bom… A cunhatã
mais moça batia o urucungo que a mãe trouxera da África. Era vasto o
paraná e não tinha uma nuvem na gupiara elevada do céu. Macunaíma
cruzou as munhecas no alto por detrás fazendo um cabeceiro com as
mãos e enquanto a filha-da-luz mais velha afastava os mosquitos
borrachudos em quantidade, a terceira chinoca com as pontas das
trancas fazia estremecer de gosto a barriga do herói. E era se rindo em
plena felicidade, parando pra gozar de estrofe em estrofe que ele
cantava assim:
Quando eu morrer não me chores,
Deixo a vida sem sodade;
— Mandu sarará,
Tive pro pai o desterro,
Por mãe a infelicidade,
— Mandu sarará,
Papai chegou e me disse:
— Não hás de ter um amor!
— Mandu sarará,
Mamãe veio e me botou
Um colar feito de dor,
— Mandu sarará,
Que o tatu prepare a cova
Dos seus dentes desdentados,
— Mandu sarará,
Para o mais desinfeliz
De todos os desgraçados,
— Mandu sarará…Era bom… O corpo dele relumeava de ouro cinzando nos
cristaizinhos do sal e por causa do cheiro da maresia, por causa do
remo pachorrento de Vei, e com a barriga assim mexemexendo com
cosquinhas de mulher, ah!… Macunaíma gozou do nosso gozo, ah!…
“Puxavante! que filha-duma?… de gostosura, gente!” exclamou. E
cerrando os olhos malandros, com a boca rindo num riso moleque
safado de vida boa o herói gostou gostou e adormeceu.
Quando a jacumã de Vei não embalou mais o sono dele
Macunaíma acordou. Lá no longe se percebia mais que tudo um
arranhacéu cor-de-rosa. A jangada estava abicada na caiçara da
maloca sublime do Rio de Janeiro.
Ali mesmo na beira d’água tinha um cerradão comprido cheinho da
árvore pau-brasil e com palácios de cor nos dois lados. E o cerradão
era a avenida Rio Branco. Aí que mora Vei a Sol com suas três filhas
de luz. Vei queria que Macunaíma ficasse genro dela porque afinal das
contas ele era um herói e tinha dado tanto bôlo-de-aipim pra ela
chupar secando, falou:
— Meu genro: você carece de casar com uma das minhas filhas. O
dote que dou pra ti é Oropa França e Bahia. Mas porém você tem de
ser fiel e não andar assim brincando com as outras cunhas por aí.
Macunaíma agradeceu e prometeu que sim jurando pela memória
da mãe dele. Então Vei saiu com as três filhas pra fazer o dia no
cerradão, ordenando mais uma vez que Macunaíma não saísse da
jangada pra não andar brincando com as outras cunhas por aí.
Macunaíma tornou a prometer, jurando outra vez pela mãe.
Nem bem Vei com as três filhas entraram no cerradão que
Macunaíma ficou cheio de vontade de ir brincar com uma cunha.
Acendeu um cigarro e a vontade foi subindo. Lá por debaixo das
árvores passavam muitas cunhas cunhe cunhe se mexemexendo com
talento e formosura.
— Pois que fogo devore tudo! Macunaíma exclamou. Não sou
frouxo agora pra mulher me fazer mal!
E uma luz vasta brilhou no cérebro dele. Se ergueu na jangada e
com os braços oscilando por cima da pátria decretou solene:
— POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA, OS MALES DO
BRASIL SÃO!Pulou da jangada no sufragante, foi fazer continência diante da
imagem de Santo Antônio que era capitão de regimento e depois deu
em cima de todas as cunhas por aí. Logo topou com uma que fora
varina lá na terrinha do compadre chegadinho-chegadinho e inda
cheirava no-mais! um fartum bem de peixe. Macunaíma piscou pra ela
e os dois vieram na jangada brincar. Fizeram. Bastante eles brincaram.
Agora estão se rindo um pro outro.
Quando Vei com suas três filhas chegaram do dia e era a bôca-danoite as moças que vinham na frente encontraram Macunaíma e a
Portuguesa brincando mais. Então as três filhas de luz se zangaram:
— Então é assim que se faz, herói! Pois nossa mãe Vei não falou
pra você não sair da jangada e não ir brincar com as outras cunhas por
aí?!
— Estava muito tristinho! o herói fez.
— Não tem que tristinho nem mane tristinho, herói! Agora que
você vai tomar um pito de nossa mãe Vei!
E viraram muito zangadas pra velha:
— Veja, nossa mãe Vei, o que vosso genro fez! Nem bem a gente
foi no cerradão que ele escapuliu, deu em cima duma boa, trouxe ela
na vossa jangada e brincaram até mais não! Agora estão se rindo um
pro outro!
Então a Sol se queimou e ralhou assim: Ara ara, ara, meus
cuidados! Pois não falei pra você não dar em cima de nenhuma cunha
não!… Falei sim! E inda por cima você brinca com ela na jangada
minha e agora estão se rindo um pro outro!
— Estava muito tristinho! Macunaíma repetiu.
— Pois si você tivesse me obedecido casava com uma das minhas
filhas e havia de ser sempre moço e bonitão. Agora você fica pouco
tempo moço talqualmente os outros homens e depois vai ficando
mocetudo e sem graça nenhuma.
Macunaíma sentiu vontade de chorar. Suspirou.
— Si eu subesse…
— O “si eu subesse” é santo que nunca não valeu
pra ninguém, meus cuidados! Você o que é mas é muito safadinho,
isso sim! Não te dou mais nenhuma das minhas filhas não!
Daí Macunaíma pisou nos calos também:— Pois nem eu queria nenhuma das três, sabe! Três, diabo fez!
Então Vei com as três filhas foram pedir pouso num hotel e
deixaram Macunaíma dormir com a Portuga jangada.
Quando foi ali pela hora antes da madrugada, veio a Sol com as
moças pra darem o passeio na baía e encontraram Macunaíma com a
Portuguesa inda pegados no sono. Vei acordou os dois e fez presente
da pedra Vató pra Macunaíma. E a pedra Vató dá fogo quando a gente
quer. E lá se foi a Sol com as três filhas de luz.
Macunaíma inda passou esse dia brincando com a varina pela
cidade. Quando foi de-noite eles estavam dormindo num banco do
Flamengo quando chegou uma assombração medonha. Era Mianiquê-
Teibê que vinha pra enguilir o herói. Respirava com os dedos,
escutava pelo umbigo e tinha os olhos no lugar das mamicas. A boca
era duas bocas e estavam escondidas na dobra interior dos dedos dos
pés. Macunaíma acordou com o cheiro da assombração e jogou no
viado Flamengo fora. Então Mianiquê-Teibê comeu a varina e se foi.
No outro dia Macunaíma não achou mais graça na capital da
República. Trocou a pedra Vató por um retrato no jornal e voltou pra
taba do igarapé Tietê.

IX
CARTA PRAS ICAMIABAS
Às mui queridas súbditas nossas, Senhoras Amazonas.
Trinta de Maio de Mil Novecentos e Vinte e Seis, São Paulo.
Senhoras:
Não pouco vos surpreenderá, por certo, o endereço e a literatura
desta missiva. Cumpre-nos, entretanto, iniciar estas linhas de saudades
e muito amor, com desagradável nova. É bem verdade que na boa
cidade de São Paulo — a maior do universo, no dizer de seus prolixos
habitantes — não sois conhecidas por “icamiabas”, voz espúria, sinão
que pelo apelativo de Amazonas; e de vós, se afirma, cavalgardes
ginetes belígeros e virdes da Hélade clássica; e assim sois chamadas.
Muito nos pesou a nós, Imperator vosso, tais dislates da erudição
porém heis de convir conosco que, assim, ficais mais heróicas e mais
conspícuas, tocadas por essa platina respeitável da tradição e da
pureza antiga.
Mas não devemos esperdiçarmos vosso tempo fero, e muito menos
conturbarmos vosso entendimento, com notícias de mau calibre;
passemos pois, imediato, ao relato dos nossos feitos por cá.
Nem cinco sóis eram passados que de vós nos partíramos, quando
a mais temerosa desdita pesou sobre Nós. Por uma bela noite dos idos
de maio do ano translato, perdíamos a muiraquitã; que ou trem grafara
muraquitã, e, alguns doutos, ciosos de etimologias esdrúxulas,
ortografam muyrakitan e até mesmo muraquéitã, não sorriais! Haveis
de saber que este vocábulo, tão familiar às vossas trompas de
Eustáquio, é quase desconhecido por aqui. Por estas paragens mui
civis, os guerreiros chamam-se polícias, grilos, guardas-cívicas,
boxistas, legalistas, masorqueiros, etc; sendo que alguns desses termos
são neologismos absurdos — bagaço nefando com que os desleixados
e petimetres conspurcam o bom falar lusitano. Mas não nos sobra já
vagar para discretearmos “sub tegmine fagi”, sobre a língua
portuguesa, também chamada lusitana. O que vos interessará mais, por
sem dúvida, é saberdes que os guerreiros de cá não buscam mavórticas
damas para o enlace epitalâmico; mas antes as preferem dóceis e facilmente trocáveis por pequeninas e voláteis folhas de papel a que o
vulgo chamará dinheiro — o “curriculum vitae” da Civilização, a que
hoje fazemos ponto de honra em pertencermos. Assim a palavra
muiraquitã, que fere já os ouvidos latinos do vosso Imperador, é
desconhecida dos guerreiros, e de todos em geral que por estas partes
respiram. Apenas alguns “sujeitos de importância em virtude e letras”,
como já dizia o bom velhinho e clássico frei Luís de Sousa, citado
pelo doutor Rui Barbosa, ainda sobre as muiraquitãs projetam as suas
luzes, para aquilatá-las de medíocre valia, originárias da Ásia, e não
de vossos dedos, violentos no polir.
Estávamos ainda abatido por termos perdido a nossa muiraquitã,
em forma de sáurio, quando talvez por algum influxo metapsíquico,
ou, qui lo sá, provocado por algum libido saudoso, como explica o
sábio tudesco, doutor Sigmundo Freud (lede Fróide), se nos deparou
em sonho um arcanjo maravilhoso. Por ele soubemos que o talismã
perdido estava nas diletas mãos do doutor Venceslau Pietro Pietra,
súbdito do Vice-Reinado do Peru, e de origem francamente florentina,
como os Cavalcântis de Pernambuco. E como o doutor demorasse na
ilustre cidade anchietana, sem demora nos partimos para cá, em busca
do velocino roubado.
As nossas relações actuais com o doutor Venceslau são as mais
lisonjeiras possíveis; e sem dúvida mui para breve recebereis a grata
nova de que hemos reavido o talismã: e por ela vos pediremos
alvíçaras.
Porque, súbditas dilectas, é incontestável que Nós, Imperator
vosso, nos achamos em precária condição. O tesouro que daí
trouxemos, foi-nos de mister convertê-lo na moeda corrente do país; e
tal conversão muito nos há dificultado o mantenimento, devido às
oscilações do Câmbio e à baixa do cacau.
Sabereis mais que as donas de cá não se derribam a pauladas, nem
brincam por brincar, gratuitamente’, senão que a chuvas do vil metal,
repuxos brasonados de champagne, e uns monstros comestíveis, a que,
vulgarmente, dão o nome de lagostas. E quê monstros encantados,
senhoras Amazonas!!! Duma carapaça polida e sobrosada, feita a
modo de casco de nau, saem braços, tentáculos e cauda remígeros, de
muitos feitios; de modo que o pesado engenho, deposto num prato de porcelana de Sêvres, se nos antoja qual velejante trirreme a bordeisjar
água de Nilo, trazendo no bojo o corpo inestimável de Cleópatra.
Ponde tento na acentuação deste vocábulo, senhoras Amazonas,
pois muito nos pesara não preferísseis conosco, essa pronúncia,
condizente com a lição dos clássicos, à pronúncia Cleópatra, dicção
mais moderna; e que alguns vocabulistas levianamente subscrevem,
sem que se apercebam de que é ganga desprezível, que nos trazem,
com o enxurro de França, os galiparlas de má morte.
Pois é com esse dedicado monstro, vencedor dos mais delicados
véus paladinos, que as donas de cá tombam nos leitos nupciais. Assim
haveis de compreender de que alvíçaras falamos; porque as lagostas
são caríssimas, caríssimas súbditas, e algumas hemos nós adquiridas
por sessenta contos e mais; o que, convertido em nossa moeda
tradicional, alcança a vultosa soma de oitenta milhões de bagos de
cacau… Bem podereis conceber, pois, quanto hemos já gasto; e que já
estamos carecido do vil metal, para brincar com tais difíceis donas.
Bem quiséramos impormos à nossa ardida chama uma abstinência,
penosa embora, para vos pouparmos despesas; porém que ânimo forte
não cedera ante os encantos e galanteios de tão agradáveis pastoras!
Andam elas vestidas de rutilantes jóias e panos finíssimos, que
lhes acentuam o donaire do porte, e mal encobrem as graças, que, a de
nenhuma outra cedem pelo formoso do torneado e pelo tom. São
sempre alvíssimas as donas de cá; e tais e tantas habilidades demonstram, no brincar, que enumerá-las, aqui seria fàstiendo
porventura; e, certamente, quebraria os mandamentos de discreção,
que em relação de Imperator para súbditas se requer. Que beldades!
Que elegância! Que cachet! Que degagé flamífero, ignívomo,
devorador!! Só pensamos nelas, muito embora não nos descuidemos,
relapso, da nossa muiraquitã.
Nós, nos parece ilustres Amazonas, que assaz ganharíeis em
aprenderdes com elas, as condescendências, os brincos e passes do
Amor. Deixaríeis então a vossa orgulhosa e solitária Lei, por mais
amáveis mesteres, em que o Beijo sublima, as Volúpias encandecem,
e se demonstra gloriosa, “urbi et orbe”, a subtil força do Odor di
Femina, como escrevem os italianos.E já que nos detivemos neste delicado assunto, não no
abandonaremos sem mais alguns reparos, que vos poderão ser úteis.
As donas de São Paulo, sobre serem mui formosas e sábias, não se
contentam com os dons e excelência que a Natura lhes concedeu;
assaz se preocupam elas de si mesmas; e não puderam acabarem
consigo, que não mandassem vir de todas as partes do globo, tudo o
que de mais sublimado e gentil acrisolou a ciência fescenina, digo,
feminina das civilizações avitas. Assim é que chamaram mestras da
velha Europa, e sobretudo de França, e com elas aprenderam a passarem o tempo de maneira bem diversa da vossa. Ora se alimpam, e
gastam horas nesse delicado mester, ora encantam os convívios
teatrais da sociedade, ora não fazem coisa alguma; e nesses trabalhos
passam elas o dia tão entretecidas e afanosas que, em chegando a
noute, mal lhes sobra vagar para brincarem e presto se entregam nos
braços de Orfeu, como se diz. Mas heis de saber, senhoras minhas,
que por cá dia e noute divergem singularmente do vosso horário
belígero; o dia começa quando para vós é o pino dele, e a noute,
quando estais no quarto sono vosso, que, por derradeiro, é o mais
reparador.
Tudo isso as donas paulistanas aprenderam com as mestras de
França; e mais o polimento das unhas e crescimento delas, bem como
aliás “horjesco referens”, das demais partes córneas dos seus
companheiros legais. Deixai passe esta flórida ironia!
E muito há que vos diga ainda sobre o jeito com que cortam as
comas, de tal maneira gracioso e viril, que mais se assemelham elas a
efebos e Antinous, de perversa memória, que a matronas de tão directa
progênie latina. Todavia, convireis conosco, no desacerto de longas
trancas por cá, si atenderdes ao que mais atrás ficou dito; pois que os
doutores de São Paulo não derribam as suas requestadas pela força,
senão que a troco de oiro e de iocustas, as ditas comas são de
somenos, acrescendo ainda que assim se amainam os males, que tais
comas acarretam, de serem moradia e pasto habitual de insectos mui
daninho como entre vós se dá.
Pois não contentes de terem aprendido de França, as subtilezas e
passes da galanteria à Luís XV, as donas paulistanas importam das
regiões mais inóspitas c que lhes acrescente ao sabor, tais como pezinhos nipônicos, rubis da Índia, desenvolturas norteamericanas; e
muitas outras sabedorias e tesoiros internacionais.
Já agora vos falaremos ainda, bem que por alto, dum nitente
armento de senhoras, originárias da Polônia, que aqui demoram e
imperam generosamente. São elas mui alentadas no porte e mais
numerosas que as areias do mar oceano. Como vós, senhoras
Amazonas, tais damas formam um gineceu; estando os homens que
em suas casas delas habitam, reduzidos escravos e condenados ao vil
ofício de servirem. E por isso não se lhes chamam homens, sinão que
à voz espúria de garçons respondem; e são assaz polidos e silentes, e
sempre do mesmo indumento gravebundo trajam.
Vivem essas damas encasteladas num mesmo local, a que chamam
por cá de quarteirão, e mesmo de pensões ou “zona estragada”;
sobrelevando notar que a derradeira destas expressões não caberia, por
indina nesta notícia sobre as coisas de São Paulo, não fora o nosso
anseio de sermos exacto e conhecedor. Porém si, como vós, formam
essas queridas senhoras um clã de mulheres, muito de vós se apartam
do físico, no gênero de vida e nas ideais. Assim vos diremas que
vivem à noute, e se não dão aos afazeres de Marte nem queimam o
destro seio, mas a Mercúrio cortejam tão somente; e quanto aos seios,
deixam-nos envolverem, à feição de gigantescos e flácidos pomos,
que, si lhes não acrescentam ao donaire, servem para numerosos e árduos trabalhos de excelente virtude e prodigiosa excitação.
Ainda lhes difere o físico, tanto ou quanto monstruoso, bem que de
amável monstruosidade, por terem elas o cérebro nas partes pudendas,
e como tão bem se diz em linguagem madrigalesca, o coração nas
mãos. Falam numerosas e mui rápidas línguas; são viajadas e
educadíssimas; sempre todas obedientes por igual, embora.ricamente
díspares entre si, quais loiras, quais morenas, quais fôsse-maigres,
quais rotundas; e de tal sorte abundantes no número e diversidade, que
muito nos preocupa a razão, o serem todas e tantas, originais dum país
somente. Acresce ainda que a todas se lhes dão o excitante, embora
injusto, epíteto de “francesas”. A nossa desconfiança é que essas
damas não se originaram todas da Polônia, porém que faltam à verdade, e são iberas, itálicas, germânicas, turcas, argentinas, peruanas, e
de todas as outras partes férteis de um e outro hemisfério.Muito estimaríamos que compartilhásseis da nossa desconfiança,
senhoras Amazonas; e que convidásseis também algumas dessas
damas para demorarem nas vossas terras e Império nosso, por que
aprendais com elas um moderno e mais rendoso gênero de vida, que
muito fará avultar os tesoiros do vosso Imperador. E mesmo, si não
quiserdes largar mão da vossa solitária Lei, sempre a existência de
algumas centenas dessas damas entre vós, muito nos facilitará o
“modus in rebus”, quando for no nosso retorno ao Império do Mato
Virgem, cujo este nome, aliás, proporíamos se mudasse para Império
da Mata Virgem, mais condizente com a lição dos clássicos.
Todavia para terminar negócio tão principal, hemos por bem
advertir-vos dum perigo que essa importação acarretara, si não
aceitásseis alguns doutores possantes nos limites do Estado, enquanto
dele estivermos apartado. Com serem essas damas mui fogosas e
livres; bem pudera pesar-lhes em demasia o seqüestro inconseqüente
em que viveis, e, por não perderem elas as ciências e segredos que
lhes dão o pão, bem poderiam ir ao extremo de utilizarem-se das
bestas feras, dos bogios, dos tapires e dos solertes candirus. E muito
mais ainda nos pesaria à consciência e sentimento nobre do dever; que
vós, súbditas nossas, aprendásseis com elas certas abusões, tal como
foi com as companheiras da gentil declamadora Safo na ilha rósea de
Lesbos — vícios esses que não suportam crítica à luz das possibilidades humanas, e muito menos o escalpelo da rígida e sã moral.
Como vedes, assaz hemos aproveitada esta demora na ilustre terra
bandeirante, e si não descuidamos do nosso talismã, por certo que não
poupamos esforços nem vil metal, por aprendermos as coisas mais
principais desta eviterna civilização latina, por que iniciemos quando
for do nosso retorno ao Mato Virgem, uma série de milhoramentos,
que, muito nos facilitarão a existência, e mais espalhem nossa
prosápia de nação culta entre as mais cultas do Universo. E por isso
agora vos diremos algo sobre esta nobre cidade, pois que pretendemos
construir uma igual nos vossos domínios e Império nosso.
É São Paulo construída sobre sete colinas, à feição tradicional de
Roma, a cidade cesárea, “capita” da Latinidade de que provimos; e
beija-lhes os pés a grácil e inquieta linfa do Tietê. As águas são
magníficas, os ares tão amenos quanto os de Aquisgrana ou de Anver-res, e a área tão a eles igual em salubridade e abundância, que bem se
pudera afirmar, ao modo fino dos cronistas, que de três AAA se gera
espontaneamente a fauna urbana.
Cidade é belíssima, e grato o seu convívio. Toda cortada de ruas
habilmente estreitas e tomadas por estátuas e lampiões graciosíssimos
e de rara escultura; tudo diminuindo com astúcia o espaço de forma
tal, que nessas artérias não cabe a população. Assim se obtém o efeito
dum grande acúmulo de gentes, cuja estimativa pode ser aumentada à
vontade, o que é propício às eleições que são invenção dos inimitáveis
mineiros; ao mesmo tempo que os edis dispõem de largo assunto com
que ganhem dias honrados e a admiração de todos, com surtos de
eloqüência do mais puro estilo e sublimado lavor.
As ditas artérias são todas recamadas de ricocheteantes
papeizinhos e velívolas cascas de fruitos; e em principal duma
finíssima poeira, e mui dançarina, em que se despargem diariamente
mil e uma espécimens de vorazes macróbios, que dizimam a
população. Por essa forma resolveram, os nossos maiores, o problema
da circulação; pois que tais insectos devoram as mesquinhas vidas da
ralé; e impedem o acúmulo de desocupados e operários; e assim se
conservam sempre as gentes em número igual. E não contentes com
essa poeira ser erguida pelo andar dos pedestrianistas e por urrantes
máquinas a que chamam “automóveis” e “eléctricos”, (empregam
alguns a palavra Bond, voz espúria, vinda certamente do inglês)
contrataram os diligentes edis, uns antropóides, monstros
hipocentáureos azulegos e monótonos, a que congloba o título de
Limpeza Pública; que “per amica silencia lunae”, quando cessa o
movimento e o pó descansa inócuo, saem das suas mansões, e, com os
rabos girantes a modo de vassouras cilíndricas, puxadas por muares,
soerguem do asfalto a poeira e tiram os insetos do sono, e os concitam
à actividade com largos gestos e grita formidanda. Estes afazeres
nocturnos são discretamente conduzidos por pequeninas luzes,
dispostas de longe em longe, de maneira a permanecer quase total a
escuridade, não perturbem elas os trabalhos de malfeitores e ladrões.
A cópia destes se nos afigura realmente excessiva; e temos que são
a única usança que não se coaduna com nosso temperamento, ordeiro
e pacífico de seu natural. Porém, longe de nós qualquer reproche aos administradores de São Paulo, pois sabemos muito bem que aos
valerosos Paulistas, são aprazíveis tais malfeitores e suas artes. São os
Paulistas gente ardida e avalentoada, e muito afeita às agruras da
guerra. Vivem em combates singulares e colectivos, todos armados da
cabeça aos pés; assim assaz numerosos são os distúrbios por cá, em
que, não raro, tombam na arena da luta, centenas de milhares de
heróis, chamados bandeirantes. – Pelo mesmo motivo São Paulo, está
dotada de mui aguerrida e vultosa Polícia, que habita palácios brancos
de custosa engenharia. A essa Polícia compete ainda equilibrar os
excessos da riqueza pública, por se não desvalorizar o oiro incontável
da Nação; e tal diligência emprega nesse afã, que, por todos os lados
devora os dinheiros nacionais, quer em paradas e roupagens luzidas,
quer em ginásticas da recomendável Eugênia, que inda não tivemos o
prazer de conhecermos; quer finalmente atacando os incautos
burgueses que regressam do seu teatro, do seu cinema, ou “dão a sua
volta de automóvel pelos vergéis amenos que circundam a capital. A
essa Polícia ainda lhe compete divertir a classe das criadinhas
paulistanas; e para seu lustre se diga que o faz com jornaleiro
préstimo, em parques, construídos “ad hoc”, tais como o parque de
Dom Pedro Segundo e o Jardim da Luz. E quando o numerário dessa
Polícia avulta, são os seus homens enviados para as rechãs longínquas
e menos férteis da pátria, para serem devorados por súcias de gigantes
antropófagos, que infestam a nossa geografia, na inglória tarefa de ruir
por terra Governos honestos; e de pleno gosto e assentimento geral da
população, como se descrimina das urnas e dos ágapes
governamentais. Esses masorqueiros pegam nos polícias, assam-nos e
comem-nos ao jeito alemão; e as ossadas caídas na terra maninha são
excelente adubo de futuros cafezais.
Assim tão bem organizados vivem e prosperam os Paulistas na
mais perfeita ordem e progresso; e lhes não é escasso o tempo para
construírem generosos hospitais, atraindo para cá todos os leprosos
sulamericanos, Mineiros, Paraibanos, Peruanos, Bolivianos, Chilenos,
Paraguaios, que, antes de ir morarem nesses lindíssimos leprosários, e
serem servidos por donas de duvidosa e decadente beldade — sempre
donas! — animam as estradas do Estado e as ruas da capital, em
garridas comitivas eqüestres ou em maratonas soberbas que são o orgulho de nossa raça desportiva, em cujo conspeito pulsa o sangue
das heróicas bigas e quadrigas latinas!
Porém, senhoras minhas! Inda tanto nos sobra, por este grandioso
país, de doenças e insectos por cuidar! … Tudo vai num descalabro
sem comedimento, e estamos corroídos pelo morbo e pelos
miriápodes! Em breve seremos novamente uma colônia da Inglaterra
ou da América do Norte!… Por isso e para eterna lembrança destes
Paulistas, que são a única gente útil do país, e por isso chamados de
Locomotivas, nos demos ao trabalho de metrificarmos um dístico, em
que se encerram os segredos de tanta desgraça:
“POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA, OS MALES DO BRASIL
SÃO.”
Este dístico é que houvemos por bem escrevermos no livro de
Visitantes Ilustres do Instituto Butantã, quando foi da nossa visita a
esse estabelecimento famoso na Europa.
Moram os Paulistanos em Palácios alterosos de cinqüenta, cem e
mais andares, a que, nas épocas da procreação, invadem umas nuvens
de mosquitos pernilongos, de vária espécie, muito ao gosto dos
nativos, mordendo os homens e as senhoras com tanta propriedade nos
seus distintivos, que não precisam eles e elas das cáusticas urtigas para
as massagens da excitação, tal como entre os selvícolas é de uso. Os
pernilongos se encarregam dessa faina; e obram tais milagres que, nos
bairros miseráveis, surge anualmente uma incontável multidão de
rapazes e raparigas bulhentos, a que chamamos ‘italianinhos”;
destinados a alimentarem as fábricas dos áureos potentados, e a
servirem, escravos, o descanso aromático dos Cresos.
Estes e outros multimilionários é que ergueram em torno da urbs
as doze mil fábricas de seda, e no recesso dela os famosos Cafés
maiores do mundo, todos de obra de talha em jacarandá folhado de
oiro, com embutidos de salsas tartarugas.
E o Palácio do Governo é todo de oiro, à feição dos da Rainha do
Adriático; e, em carruagens de prata, forradas de peles finíssimas, o
Presidente, que mantém muitas esposas, passeia, ao cair das tardes,
sorrindo com vagar.De outras c muitas grandezas vos poderíamos ilustrar, senhoras
Amazonas, não fora perlongar demasiado esta epístola; todavia, com
afirmar-vos que esta é, por sem dúvida, a mais bela cidade terráquea,
muito hemos feito em favor destes homens de prol. Mas cair-nos-iam
as faces, si ocultáramos no silêncio, uma curiosidade original deste
povo. Ora sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão
prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra. Assim chegado
a estas plagas hospitalares, nos demos ao trabalho de bem nos
inteirarmos da etnologia da terra, e dentre muita surpresa e assombro
que se nos deparou, por certo não foi das menores tal originalidade
lingüística. Nas conversas utilizam-se os paulistanos dum linguajar
bárbaro e multifário, crasso de feição e impuro na vernaculidade, mas
que não deixa de ter o seu sabor e força nas apóstrofes, e também nas
vozes do brincar. Destas e daquelas nos inteiramos, solícito; e nos será
grata empresa vo-las ensinarmos aí chegado. Mas si de tal desprezível
língua se utilizam na conversação os naturais desta terra, logo que
tomam da pena, se despojam de tanta asperidade, e surge o Homem
Latino, de Lineu, exprimindo-se numa outra linguagem, mui próxima
da vergiliana, no dizer dum panegirista, meigo idioma, que, com
imperecível galhardia, se intitula: língua de Camões! De tal
originalidade e riqueza vos há-de ser grato ter ciência, e mais ainda
vos espantareis com saberdes, que à grande e quase total maioria, nem
essas duas línguas bastam, senão que se enriquecem do mais lídimo
italiano, por mais musical e gracioso, e que por todos os recantos da
urbs é versado. De tudo nos inteiramos satisfatoriamente, graças aos
deuses; e muitas horas hemos ganho, discretando sobre o z do termo
Brazil e a questão do pronome “se”. Outrossim, hemos adquirido
muitos livros bilíngües, chamados “burros”, e o dicionário Pequeno
Larousse; e já estamos em condições de citarmos no original latino
muitas frases célebres dos filósofos e os testículos da Bíblia.
Enfim, senhoras Amazonas, heis de saber ainda que a estes
progressos e luzida civilização, hão elevado esta grande cidade os seus
maiores, também chamados de políticos. Com este apelativo se
designa uma raça refinadíssima de doutores, tão desconhecidos de
vós, que os diríeis monstros. Monstros são na verdade mas na
grandiosidade incomparável da audácia, da sapiência, da honestidade e da moral; e embora algo com os homens se pareçam, originam-se
eles dos reais uirauaçus e muito pouco têm de humanos. Obedecem
todos a um imperador, chamado Papai Grande na gíria familiar, e que
demora na oceânica cidade do Rio de Janeiro — a mais bela do
mundo, na opinião de todos os estrangeiros, e que por meus olhos
verifiquei.
Finalmente, senhoras Amazonas e muito amadas súbditas, assaz
hemos sofrido e curtido árduos e constantes pesares, depois que os
deveres da nossa posição, nos apartaram do Império do Mato Virgem.
Por cá tudo são delícias e venturas, porém nenhum gozo teremos e
nenhum descanso, enquanto não rehouvermos o perdido talismã.
Hemos por bem repetir entretanto que as nossas relações com o doutor
Venceslau são as milhores possíveis; que as negociações estão
entaboladas e perfeitamente encaminhadas; e bem poderíeis enviar de
antemão as alvíçaras que enunciamos atrás. Com pouco o vosso
abstêmio Imperador se contenta; si não puderdes enviar duzentas
igaras cheias de bagos de cacau, mandai, cem, ou menos cinqüenta!
Recebei a bênção do vosso Imperador e mais saúde e fraternidade.
Acatai com respeito e obediência estas mal traçadas linhas; e,
principalmente, não vos esqueçais das alvíçaras e das polonesas, de
que muito hemos mister.
Ci guarde a Vossas Excias.
Macunaíma,
Imperator.

X
PAUÍ-PÓDOLE
Venceslau Pietro Pietra ficara muito doente com a sova e estava
todo envolvido em rama de algodão. Passou meses na rede.
Macunaíma não podia nem dar passo pra conseguir a muiraquitã agora
guardada dentro do caramujo por debaixo do corpo do gigante. Imaginou botar formiga cupim no chinelo do outro porque isso traz morte,
dizem, porém Piaimã tinha pé pra trás e não usava chinelo.
Macunaíma estava muito contrariado com aquele chove-não-molha e
passava o dia na rede mastigando beiju membeca entre codórios
longos de restilo. Nesse tempo veio pedir pousada na pensão o índio
Antônio, santo famoso com a companheira dele, Mãe de Deus. Foi
visitar Macunaíma, fez discurso e batizou o herói diante do deus que
havia de vir e tinha forma nem bem de peixe nem bem de anta. Foi
assim que Macunaíma entrou pra religião Caraimonhaga que estava
fazendo furor no sertão da Bahia.
Macunaíma aproveitava a espera se aperfeiçoando nas duas línguas
da terra, o brasileiro falado e o português escrito. Já sabia nome de
tudo. Uma feita era dia da Flor, festa inventada prós Brasileiros serem
caridosos e tinha tantos mosquitos carapanãs que Macunaíma largou
do estudo e foi na cidade refrescar as idéias. Foi e viu um despropósito
de coisas. Parava em cada vitrina e examinava dentro dela aquela
porção de monstros, tantos que até parecia a serra do Ererê onde tudo
se refugiou quando a enchente grande inundou o mundo. Macunaíma
passeava passeava e encontrou uma cunhatã com uma urupema
carregadinha de rosas. A mocica fez ele parar e botou uma flor na
lapela dele, falando:
— Custa milréis.
Macunaíma ficou muito contrariado porque não sabia como era o
nome daquele buraco da máquina roupa onde a cunhatã enfiara a flor.
E o buraco chamava botoeira. Imaginou escarafunchando na memória
bem, mas nunca não ouvira mesmo o nome daquele buraco. Quis
chamar aquilo de buraco porém viu logo que confundia com os outros
buracos deste mundo e ficou com vergonha da cunhatã. “Orifício” era palavra que a gente escrevia mas porém nunca ninguém não falava
“orifício” não. Depois de pensamentear pensamentear não havia meios
mesmo de descobrir o nome daquilo e pôs reparo que da rua Direita
onde topara com a cunhatã já tinha ido parar adiante de São Bernardo,
passada a moradia de mestre Cosme. Então voltou, pagou pra moça e
falou de venta-inchada:
— A senhora me arrumou com um dia-de-judeu! Nunca mais me
bote flor neste… neste puíto, dona!
Macunaíma era desbocado duma vez. Falara uma bocagem muito
porca, muito! A cunhatã não sabia que puíto era palavra-feia não e
enquanto o herói voltava aluado com o caso pra pensão, ficou se
rindo, achando graça na palavra. “Puíto…” que ela dizia. E repetia
gozado: “Puíto… Puíto”… Imaginou que era moda. Então se pôs
falando pra toda a gente si queriam que ela botasse uma rosa no puíto
deles. Uns quiseram outros não quiseram, as outras cunhatãs
escutaram a palavra, a empregaram e “puíto” pegou. Ninguém mais
não falava em boutonnière por exemplo; só puíto, puíto se escutava.
Macunaíma ficou de azeite uma semana, sem comer sem brincar
sem dormir só porque desejava saber as línguas da terra. Lembrava de
perguntar prós outros como era o nome daquele buraco mais tinha vergonha de irem pensar que ele era ignorante e moita. •
Afinal chegou o domingo pé-de-cachimbo que era dia do Cruzeiro,
feriado novo inventado prós Brasileiros descansarem mais. De manhã
teve parada na Mooca, ao meio-dia missa campal no Coração de
Jesus, às dezessete corso e batalha de confetes na avenida Rangel Pestana e de-noite, depois da passeata dos deputados e desocupados pela
rua Quinze, ia queimar um fogo-de-artifício no Ipiranga. Então pra
espairecer Macunaíma foi no parque ver os fogos.
Nem bem saiu da pensão topou com uma cunha clara, louríssima,
filhinha-da-mandioca bem, toda de branco e o chapéu de tucumã
vermelho coberto de margaridinhas. Chamava Fráulein e sempre
carecia de proteção. Foram juntos e chegaram lá. O parque estava uma
boniteza. Tinha tantas máquinas repuxos misturadas com a máquina
luz elétrica que a gente se encostava um no outro no escuro e as mãos
se agarravam pra agüentar a admiração. Assim a dona fez e
Macunaíma sussurrou docemente:— Mani… filhinha da mandioca!…
Pois então a alemãzinha chorando comovida, se virou e perguntou
pra ele si deixava ela afincar aquela margarida no puíto dele. Primeiro
o herói ficou muito assarapantado, muito! e quis zangar porém depois
ligou os fatos e percebeu que fora muito inteligente. Macunaíma deu
uma grande gargalhada.
Mas o caso é que “puíto” já entrara pras revistas estudando com
muita ciência os idiomas escrito e falado e já estava mais que assente
que pelas leis de catalepse elipse síncope mentonímia metafonia
metátese próclise prótese aférese apócope haplologia etimologia
popular todas essas leis, a palavra “botoeira” viera a dar em “puíto”,
por meio duma palavra intermediária, a voz latina “rabanitius”
(botoeira-rabanitius-puíto), sendo que rabanitius embora não
encontrada nos documentos medievais, afirmaram os doutos que na
certa existira e fora corrente no sermo vulgaris.
Nesse momento um mulato da maior mulataria trepou numa
estátua e principiou um discurso entusiasmado explicando pra
Macunaíma o que era o dia do Cruzeiro. No céu escampado da noite
não tinha uma nuvem nem Capei. A gente enxergava os conhecidos,
os pais-das-árvores os pais-das-aves os pais-das-caças e o parentes
manos pais mães tias cunhadas cunhas cunhatãs, todas essas estrelas
piscapiscando bem felizes nessa terra sem mal, adonde havia muita
saúde e pouca saúva, o firmamento lá. Macunaíma escutava muito
agradecido, concordando com a fala comprida que o discursador fazia
pra ele. Só depois do homem apontar muito e descrever muito é que
Macunaíma pôs reparo que o tal de Cruzeiro era mas eram aquelas
quatro estrelas que ele sabia muito bem serem o Pai de Mutum
morando no campo do céu. Teve raiva da mentira do mulato e berrou:
— Não é não!
— … Meus senhores, que o outro discursava aquelas quatro
estrelas rutilantes como lágrimas ardentes, no dizer do sublime poeta,
são o sacrossanto e tradicional Cruzeiro que…
— Não é não!
— Psiu!
— … o símbolo mais…
— Não é não!— Apoiados!
— Fora!
— Psiu!… Psiu!…
— … mais su-sublime e maravilhoso da nossa amarmada pátria é
aquele misterioso Cruzeiro lucilante que…
— Não é não!
— … ve-vedes com…
— Nan sculhàmba!
— … suas… qua… tro claras lantejoulas de
prat…
— Não é não!
— Não é não! que outros gritavam também. Com tanta bulha
afinal o mulato entrupigaitou e todos os presentes animados pelo “Não
é não!” do herói estavam com muita vontade de fazer um chinfrim.
Porém Macunaíma tremia tão tiririca que nem percebeu. Pulou em
riba da estátua e principiou contando a história do Pai do Mutum. E
era assim:
— Não é não! Meus senhores e minhas senhoras! Aquelas quatro
estrelas lá é o Pai do Mutum! juro que é o Pai do Mutum, minha
gente, que pára no campo vasto do céu!… Isso foi no tempo em que os
animais já não eram mais homens e sucedeu no grande mato Fulano.
Era uma vez dois cunhados que moravam muito longe um do outro.
Um chamava Camã-Pabinque e era catimbozeiro. Uma feita o
cunhado de Camã-Pabinque entrou no mato por amor de caçar um
bocado. Estava fazendo e topou com Pauí-Pódole e seu compadre o
vaga-lume Camaiuá. E Pauí-Pódole era o Pai do Mutum. Estava
trepado no galho alto da acapu, descansando. Vai, o cunhado do
feiticeiro voltou pra maloca e falou pra companheira dele que tinha
topado com Pauí-Pódole e seu compadre Camaiuá. E o Pai do Mutum
com seu compadre num tempo muito de dantes já foram gente que
nem nós. O homem falou mais que bem que tinha querido matar Pauí-
Pódole com a sarabatana porém não alcançara o poleiro alto do Pai do
Mutum na acapu. E então pegou na frecha de pracuuba com ponta de
taboca e foi pescar carataís. Logo Camã-Pabinque chegou na maloca
do cunhado e falou:
— Mana, o que foi que vosso companheiro falou pra você?Então a mana contou tudo pro feiticeiro e que Pauí-Pódole estava
empoleirado na acapu com seu compadre o vaga-lume Camaiuá. No
outro dia manhãzinha Camã-Pabinque saiu do papiri dele e achou
Pauí-Pódole piando na acapu. Então o catimbozeiro virou na
tocandeira Ilague e foi subindo pelo pau mas o Pai do Mutum
enxergou a formigona e soprou um pio forte. Bateu um ventarão
tamanho que o feiticeiro despencou do pau, caindo nas capituvas da
serrapilheira. Então virou na tacuri Opalá menorzinha e foi subindo
outra vez, porém Pauí-Pódole tornou a enxergar a formiga. Soprou e
veio um ventinho brisando que sacudiu Opalá nas trapoerabas da
serrapilheira. Então Camã-Pabinque virou na lavapés chamada
Megue, pequetitinha, subiu na acapu, ferrou o Pai do Mutum bem no
furinho do nariz, enrolou o corpico e trazendo o não-se-diz entre os
ferrões, juque! esguichou ácido-fórmico aí. Chi! minha gente! Isso
Pauí-Pódole abriu um vôo esparramado com a dor e espirrou Megue
longe! O feiticeiro nem não pôde sair mais do corpo de Megue, do
susto que pegou. E ficou mais essa praga da formiguinha lavapés pra
nós… Gente!.
“Pouca saúde e muita saúva,
Os males do Brasil são!”
já falei… No outro dia Pauí-Pódole quis ir morar no céu pra não
padecer mais com as formigas da nossa terra, fez. Pediu, pro
compadre vaga-lume alumiar o caminho na frente com as lanterninhas
verdes bem acesas. O vaga-lume Cunavá sobrinho do outro foi na
frente alumiando caminho pra Camaiuá e pediu pro mano que fosse na
frente alumiando pra ele também. O man0 pediu pro pai, o pai pediu
pra mãe, a mãe pediu pra toda a geração, o chefe-de-polícia e o
inspetor do quarteirão e muitos muitos, uma nuvem de valumes foram
alumiando caminho uns prós outros. Fizeram, gostaram de lá e sempre
uns atrás dos outros nunca mais voltaram do campo vasto do céu. É
aquele caminho de luz que daqui se enxerga atravessando o espaço.
Pauí-Pódole então avoou pro céu e ficou lá. Minha gente! aquelas
quatro estrelas não é Cruzeiro, que Cruzeiro nada! É o Pai do Mutum!
É o Pai do Mutum, minha gente! É o Pai do Mutum, Pauí-Pódole que
pára no campo vasto do Céu!… Tem mais não”.Macunaíma parou fatigado. Então se ergueu do povaréu um
murmurejo longo de felicidade fazendo relumear mais ainda as gentes,
os pais-dos-pássaros os pais-dos-peixes os pais-dos-insetos os paisdas-árvores, todos esses conhecidos que param no campo do céu. E
era imenso o contentamento daquela paulistanada mandando olhos de
assombro pras gentes, pra todos esses pais dos vivos brilhando
morando no céu. E todos esses assombros de-primeiro foram gente
depois foram os assombros misteriosos que fizeram nascer todos os
seres vivos. E agora são as estrelinhas do céu.
O povo se retirou comovido, feliz no coração cheio de explicações
e cheio das estrelas vivas. Ninguém não se amolava mais nem com dia
do Cruzeiro nem com as máquinas repuxos misturadas com a máquina
luz elétrica. Foram pra casa botar pelego por debaixo do lençol porque
por terem brincado com fogo aquela noite, na certa que iam mijar na
cama. Foram todos dormir. E a escuridão se fez.
Macunaíma parado em riba da estátua ficara sozinho ali. Também
estava comovido. Olhou pra altura. Que Cruzeiro nada! Era Pauí-
Pódole se percebia bem daqui… E Pauí-Pódole estava rindo pra ele,
agradecendo. De repente piou comprido parecendo trem-de-ferro. Não
era trem era piado e o sopro apagou todas as luzes do parque. Então o
Pai do Mutum mexeu uma asa mansamente se despedindo do herói.
Macunaíma ia agradecer, porém o pássaro erguendo a poeira da
neblina largou numa carreira esparramando pelo campo vasto do céu.

XI
A VELHA CEIUCI
No outro dia o herói acordou muito constipado. Era porque apesar
do calorão da noite ele dormira de roupa com medo da Caruviana que
pega indivíduo dormindo nu. Mas estava muito gangento com o
sucesso do discurso da véspera. Esperou impaciente os quinze dias da
doença resolvido a contar mais casos pro povo. Porém quando se
sentiu bom era manhãzinha e quem conta história de dia cria rabo de
cotia. Por isso convidou os manos pra caçar, fizeram.
Quando chegaram ao bosque da Saúde o herói murmurou:
— Aqui serve.
Dispôs os manos nas esperas, botou fogo no bosque e ficou
também amoitado esperando que saísse algum viado mateiro pra ele
caçar. Porém não tinha nenhum viado lá e quando queimada acabou,
jacaré saiu? pois nem viado mateiro nem viado catingueiro, saíram só
dois ratos chamuscados. Então o herói caçou os ratos chamuscados,
comeu-os e sem chamar os manos voltou pra pensão.
Lá chegado ajuntou os vizinhos, criados a patroa cunhas
datilógrafos estudantes empregados-públicos, muitos empregadospúblicos! todos esses vizinhos e contou pra eles que tinha ido caçar na
feira do Arouche e matara dois…
— … mateiros, não eram viados mateiros não, dois viados
catingueiros que comi com os manos. Até vinha trazendo um naco pra
vocês mas porém escorreguei na esquina, caí derrubei o embrulho e
cachorro comeu tudo.
Toda a gente se sarapantou com o sucedido e desconfiaram do
herói. Quando Maanape e Jiguê voltaram, os vizinhos foram perguntar
pra eles si era verdade que Macunaíma caçara dois catingueiros na
feira do Arouche. Os manos ficaram muito inquizilados porque não
sabiam mentir e exclamaram irritadíssimos:
— Mas que catingueiros esses! O herói nunca matou viado!- Não
tinha nenhum viado na caçada não! Gato miador, pouco caçador,
gente! Em vez foram dois ratos chamuscados que Macunaíma pegou e
comeu.Então os vizinhos perceberam que tudo era mentira do herói,
tiveram raiva e entraram no quarto dele pra tomar satisfação.
Macunaíma estava tocando numa flautinha feita de canudo de mamão.
Parou o sopro, aparou o bocal da flautinha e se admirou muito sossegado:
— Praquê essa gentama no meu quarto, agora!… Faz mal pra
saúde, gente!
Todos perguntaram pra ele:
— O que foi mesmo que você caçou, herói?
— Dois viados mateiros.
Então os criados as cunhas estudantes empregados-públicos. todos
esses vizinhos principiaram rindo dele. Macunaíma sempre aparando
o bocal da flautinha. A patroa cruzando os braços ralhou assim:
— Mas, meus cuidados, praquê você fala que foram dois viados e
em vez foram dois ratos chamuscados!
Macunaíma parou assim os olhos nela e secundou:
— Eu menti.
Todos os vizinhos ficaram com cara de André e cada um foi
saindo na maciota. E André era um vizinho que andava sempre
encalistrado. Maanape e Jiguê se olharam, com inveja da inteligência
do mano. Maanape inda falou pra ele:
— Mas praquê você mentiu, herói!
— Não foi por querer não… quis contar o que tinha sucedido pra
gente e quando reparei estava mentindo. ..
Jogou a flautinha fora, pegou no ganzá pigarreou e descantou.
Descantou a tarde inteirinha uma moda tão sorumbática mas tão
sorumbática que os olhos dele choravam a cada estrofe. Parou porque
os soluços não deixaram mais continuar. Largou do ganzá. Lá fora a
vista era uma tristura de entardecer dentro da cerração. Macunaíma
sentiu-se desinfeliz e teve saudades de Ci a inesquecível. Chamou os
manos pra se consolarem todos juntos. Maanape e Jiguê sentaram
junto dele na cama e os três falaram longamente da Mãe do Mato. E
espalhando a saudade falaram dos matos e cobertos cerrações deuses e
barrancas traiçoeiras do Uraricoera. Lá que eles tinham nascido e se
rido pela primeira vez nos macurus… Encostados nas maquiras pra lá
do limpo do mocambo os guirás cantavam o que não dava o dia e eram pra mais de quinhentas as famílias dos guirás… Perto de quinze
vezes mil espécies de animais assombravam o mato de tantos milhões
de paus que não tinham mais conta… Uma feita um branco trouxera da
terra dos Ingleses, dentro dum sapiquá gótico, a constipação que fazia
agora Macunaíma tanto chorar de sodades. E a constipação tinha ido
morar no antro das formigas mumbucas mui pretas. Na escureza o
calor se amaciava como saindo das águas; pra trabalhar se cantava;
nossa mãe ficara virada numa coxilha mansa no lugar chamado Pai do
Tocandeira. >. Ai, que preguiça… E os três manos perceberam pertinho o murmurejo do Uraricoera! Oh! como era bom por lá… O herói
se atirou pra trás chorando largado na cama.
Quando a vontade de chorar parou, Macunaíma afastou os
mosquitos e quis espairecer. Se lembrou de ofender a mãe do gigante
com uma bocagem novinha vinda da Austrália. Virou Jiguê na
máquina telefone porém o mano inda estava muito confundido com o
caso da mentira do herói e não houve meios de ligar. O aparelho tinha
defeito. Então Macunaíma fumou fava de paricá pra ter sonhos
gostosos e adormeceu bem.
No outro dia lembrou que precisava se vingar dos manos e
resolveu passar um pealo neles. Levantou madrugadinha e foi
esconder no quarto da patroa. Brincou pra fazer tempo. Depois voltou
falando afobado prós manos:
— Oi, manos achei rasto fresco de tapir bem na frente da Bolsa de
Mercadorias!
— Que me diz, perdiz!
— Pois é. Quem que havia de dizer!
Ninguém inda não matara tapir na cidade. Os manos se
sarapantaram e foram com Macunaíma caçar o bicho. Chegaram lá,
principiaram procurando o rasto e aquele mundão de gente
comerciantes revendedores baixistas matarazos, vendo os três manos
curvados pro asfalto procurando, principiaram campeando também,
todo aquele mundão de gente. Procuraram procuraram, você achou?
nem eles! Então perguntaram pra Macunaíma:
— Onde que você achou rasto de tapir? Aqui não tem rasto
nenhum não!
Macunaíma não parava de campear falando sempre:— Tetápe, dzónanei pemonéite hêhê zeténe netaíte.
E os manos regatões zanguões tequeteques madalenas e
Hungareses recomeçavam procurando o rasto. Quando cansavam e
paravam pra perguntar, Macunaíma campeando sempre secundava:
— Tetápe, dzónanei pemonéite hêhê zeténe netaíte.
E todo aquele mundão de gente procurando. Era já perto da noite
quando pararam desacorçoados. Então Macunaíma se desculpou:
— Tetápe dzónanei pemo…
Não deixaram nem que ele acabasse, todos perguntando o que
significava aquela frase. Macunaíma respondeu:
— Sei não. Aprendi essas palavras quando era pequeno lá em casa.
E todos se queimaram muito. Macunaíma fastou disfarçado
falando:
— Calma gente! Tetápe hêhê! Não falei que tem rasto de tapir não
falei que tinha! Agora não tem mais não.
Foi pior. Um dos comerciantes se zangou de verdade e o repórter
que estava ao pé dele vendo o outro zangado zangou também por
demais.
— Isso não vai assim não! Pois então a gente vive trabucando pra
ganhar o pão-nosso e vai um indivíduo tira a gente o dia inteiro do
trabalho só pra campear rasto de tapir!
— Mas eu não pedi pra ninguém procurar rasto, moço, me
desculpe! Meus manos Maanape e Jiguê é que andaram pedindo, eu
não! Culpa é deles!
Então o povo que já estava todo zangado virou contra Maanape e
contra Jiguê. Já todos, e eram muitos! estavam com vontade de armar
uma briga. Então um estudante subiu na capota dum auto e fez
discurso contra Maanape e contra Jiguê. O povo estava ficando
zangadíssimo.
— Meus senhores, a vida dum grande centro urbano como São
Paulo já obriga a uma intensidade tal de trabalho que não permite-se
mais dentro da magnífica entrosagem do seu progresso siquer a
passagem momentânea de seres inócuos. Ergamo-nos todos una você
contra os miasmas deletérios que conspurcam o nosso organismo
social e já que o Governo cerra os olhos e delapida os cofres da
Nação, sejamos nós mesmos os justiçadores…— Lincha! lincha! que o povo principiou gritando.
— Quê lincha nada! exclamou Macunaíma tomando as dores pelos
manos.
E todos se viraram contra ele outra vez. E agora já estavam
zangadíssimos. O estudante continuava pra si:
— … e quando o trabalho honesto do povo é perturbado por um
desconhecido…
— O quê! quem que é desconhecido! berrou Macunaíma
desesperado com a ofensa.
— Você!
— Não sou, tá’í!
— É!
— Ora vá desmamar jacu com alpiste, moço! Desconhecida é a
senhora vossa mãe, ouviu! — e virando pro povo: O que vocês estão
pensando, hein! Não tenho medo não! nem de um nem de dois nem de
dez mil e daqui a pouco eu arraso tudo isto aqui!
Uma madalena que estava na frente do herói, virou pro
comerciante atrás dela e zangou:
— Não bolina, senvergonha!
O herói estava cego de raiva, pensou que era com ele e:
— Quê “não bolina” agora! não estou bolinando ninguém, sua
lambisgóia!
— Lincha o bolina! Pau nele!
— Pois venham, cafajestes!
E avançou pra multidão. O advogado quis fugir porém Macunaíma
atirou um pontapé nas costas dele e entrou pelo povo distribuindo
rasteiras e cabeçadas. De repente viu na frente um homem alto loiro
mui lindo. E o homem era um grilo. Macunaíma teve ódio de tanta
boniteza e chimpou uma bruta duma bolacha nas fuças do grilo. O
grilo berrou, e enquanto falava uma frase em língua estrangeira
agarrou o herói pelo congote.
— Prrrêso!
O herói gelou.
— Preso por quê?
O polícia secundou uma porção de coisas em língua estrangeira e
segurou firme.— Não estou fazendo nada! que o herói murmurava com medo.
Porém o grilo não quis conversa e foi descendo a ladeirinha com o
povo todo atrás. Outro grilo chegou e os dois falaram muitas frases,
muitas! em língua estrangeira e lá foram empurrando o herói ladeira
abaixo. Uma testemunha de tudo contou o sucedido pra um senhor que
estava na porta duma casa de frutas e o senhor penalizado atravessou a
multidão e fez os grilos pararem. Era já na rua Libero. Então o senhor
fez um discurso prós grilos, que eles não deviam de levar Macunaíma
preso porque o herói não fizera nada. Tinha ajuntado uma porção de
grilos mas nenhum não entendia o discurso porque nenhum não
pescava nada de brasileiro. As mulheres choravam com dó do herói.
Os grilos falavam por demais numa língua estrangeira e uma voz
gritou:
— Não pode!
Então o povo ficou com muita vontade de pelear outra vez e de
todos os lados agora estavam gritando: “Larga!”. “Não leva!”. “Não
pode!”. “Não pode!”, um chinfrim, “Solta!”. Um fazendeiro estava
disposto a fazer discurso insultando a Polícia. Os grilos não entendiam
nada e gesticulavam, muito atrapalhados falando em língua
estrangeira. Formou-se um furdunço temível. Então Macunaíma se
aproveitou da trapalhada e pernas praquê vos quero! Vinha um bonde
na carreira badalando. Macunaíma pongou o bonde e foi ver como
passava o gigante.
Venceslau Pietro Pietra já principiava convalescendo da sova
apanhada na macumba. Fazia um calorão dentro da casa porque era
hora de cozinharem a polenta e fora a fresca era boa por causa do
vento sulão. Por isso o gigante com a velha Ceiuci as duas filhas e a
criadagem pegaram cadeiras e vieram sentar na porta da rua pra gozar
a frescata. O gigante ainda não saíra do algodão e estava talequal um
fardo caminhando. Sentaram.
O curumi Chuvisco andava librinando pelo bairro e encontro
Macunaíma negaceando da esquina. Parou e ficou olhando o herói.
Macunaíma virou-se:
— Nunca viu não!
— Quê que você está fazendo aí, conhecido!
— Estou assustando o gigante Piaimã com sua família.Chuvisco debicou:
— Qual! não vê que gigante tem medo de ti! Macunaíma encarou
o curumi empalamado e teve raiva. Quis bater nele porém lembrou de
cor: “Quando você estiver embrabecendo conta três vezes os botões da
vossa roupa”, contou e ficou manso de novo. Então secundou:
— Quer apostar? Eu faço e aconteço e garanto que Paiamã vai pra
dentro com medo de mim. Esconde lá perto pra escutar só o que eles
falam.
Chuvisco avisou:
— Oi, conhecido, tome tento com gigante! Você já sabe do que ele
é capaz. Piaimã está fraco está fraco porém canudo que teve pimenta
guarda o ardume.. Si você não tem medo mesmo, aposto.
Virou numa gota e pingou rente de Venceslau Pietro Pietra com a
companheira as filhas e a criadagem. Então Macunaíma pegou na
primeira palavra-feia da coleção e jogou na cara de Piaimã. O
palavrão bateu de rijo porém Venceslau Pietro Pietra nem se incomodou, direitinho elefante. Macunaíma chimpou outra bocagem mais feia
na caapora. A ofensa bateu rijo porém se incomodar é que ninguém se
incomodou. Então Macunaíma jogou toda a coleção de bocagens e
eram dez mil vezes dez mil bocagens. Venceslau Pietro Pietra falou
pra velha Ceiuici, bem quieto:
— Tem algumas que a gente não conhece inda não, guarda pra
nossas filhas.
Então Chuvisco voltou pra esquina. O herói garganteou:
— Tiveram medo ou não tiveram!
— Medo nada, conhecido! Até o gigante mandou guardar as
bocagens novas pras filhas brincarem. De mim que eles têm medo,
ocê aposta? Vá lá perto e escute só.
Macunaíma virou num caxipara que é o macho da formiga saúva e
foi se enroscar na rama de algodão acolchoando o gigante. Chuvisco
amontou numa neblina e quando ia passando em riba da família deu
uma mijadinha no ar. Principiou peneirando uma chuva-de-preguiça.
Quando os pingos vieram caindo o gigante olhou pra um agarrado na
mão dele e teve paúra de tanta água.
— Vam’bora, gente!E todos com muito medo foram correndo pra dentro. Então
Chuvisco desapeou e disse pra Macunaíma:
— Está vendo?
E assim até hoje. A família do gigante tem medo de Chuvisco mas
de palavra-feia não.
Macunaíma ficou muito despeitado e perguntou pro rival:
— Me diga uma coisa: você conhece a língua do lim-pim-gua-pá?
— Nunca vi mais gordo!
— Pois então, rival: Vá-pá à-pá mer-per-da-pá! E abriu o pala até a
pensão.
Mas estava muito contrariado por ter perdido a aposta e se lembrou
de fazer uma pescaria. Porém não podia pescar nem de frecha nem
com timbó nem cunambi nem tiguí nem macerá nem no pari nem com
linha nem arpão nem juquiaí nem sararaca nem gaponga nem de poita
nem de cassuá nem itapuá nem de giqui nem de grozera nem de gererê
guê tresmalho aparador gungá cambango arinque batebate gradeira
caicai penca anzol de vara covo, todos esses objetos armadilhas e venenos porque não possuía nada disso não. Fez um anzol com cera de
mandaguari mas bagre mordia, levava anzol e tudo. Porém tinha ali
perto um Inglês pescando aimarás com anzol de verdade. Macunaíma
voltou pra casa e falou pra Maanape:
— Quê que havemos de fazer! Carecemos de tomar anzol de
Inglês. Vou tirar aimará de mentira pra enganar o bife. Quando ele me
pescar e der a batida na minha cabeça então faço “juque!” enganando
que morri. Ele me atira no samburá, você pede o peixe mais grande
pra comer e sou eu.
Fez. Virou num aimará pulou na lagoa, o Inglês pescou-o e bateu
na cabeça dele. O herói gritou “Juque!” Mas o Inglês tirou o anzol da
goela do peixe porém. Maanape veio vindo e muito disfarçado pediu
pro Inglês:
— Dá peixe pra mim, seu Yes?
— Ali right. E deu um lambari de rabo vermelho.
— Ando padecendo de fome, seu Inglês! dá um macota, vá! esse
um gordinho do samburá!
Macunaíma estava com o olho esquerdo dormindo porém
Maanape conheceu-o bem. Maanape era feiticeiro. O Inglês deu o aimará pra Maanape que agradeceu foi-se embora. Quando estava
légua e meia longe o limará virou Macunaíma outra vez. Assim três
vezes, Inglês sempre tirando anzol da goela do herói. Macunaíma
segredou pro mano:
— Quê que havemos de fazer! Carecemos de tomar anzol de
Inglês. Vou virar piranha de mentira e arranco anzol da vara.
Virou numa piranha feroz pulou na lagoa arrancou anzol e
desvirando outra vez légua e meia abaixo no lugar chamado Poço do
Umbu onde tinha umas pedras cheias de letreiros encarnados da gente
fenícia sacou anzol da goela bem contente porque agora podia pescar
corimã piraíba aruana pirara piaba todos esses’peites. Os dois manos
iam-se quando escutaram Inglês falando pra Uruguaio:
— Que posso fazer agora! Não possuo mais anzol que a piranha
engoliu. Vou pra vossa terra, conhecido.
Então Macunaíma fez um grande gesto com os dois braços e
gritou:
— Espera um bocado, tapuitinga!
O Inglês se voltou e Macunaíma só de caçoada virou-o na máquina
London Bank.
No outro dia falou prós manos que ia pescar peixões no igarapé
Tietê. Maanape avisou:
— Não vá, herói, que você topa com a velha Ceiuci mulher do
gigante. Te come, heim!
— Não tem inferno pra quem já navegou no Cachoeira! que
Macunaíma exclamou. E partiu.
Nem bem lançou a linha de cima dum mutá que veio vindo a velha
Ceiuci pescando de tarrafa. A caapora viu a sombra de Macunaíma
refletida n’água jogou depressa a tarrafa e só pescou sombra. O herói
nem não achou graça porque estava tremendo de medo, vai, pra
agradecer falou assim:
— Bom-dia, minha vó.
A velha virou a cara pro alto e descobriu Macunaíma em riba do
mutá.
— Vem cá, meu neto.
— Não vou lá não.
— Pois então mando marimbondos.Fez. Macunaíma arrancou um molho de pataqueira e matou os
marimbondos.
— Desce, meu neto, que sinão mando novatas!
Fez. As formigas novatas ferraram em Macunaíma e ele caiu
n’água. Então a velha tarrafiou, envolveu o herói nas malhas e foi pra
casa. Lá chegada pôs o embrulho na sala-de-visitas que tinha um
abajur encarnado e foi chamar a filha mais velha que era bem
habilidosa, pras duas comerem o pato que ela caçara. E o pato era
Macunaíma o herói. Porém a filhona estava muito ocupada porque era
mesmo habilidosa e a velha pra adiantar serviço foi fazer fogo. A
caapora possuía duas filhas e a mais nova que não era nada habilidosa
e só sabia suspirar, enxergando a velha fazer fogo, imaginou: “Mãe
quando vem da pescaria conta logo o que pescou, hoje não. Vou ver”.
Desenrolou a tarrafa e saiu dela um moço bem do gosto. O herói
falou:
— Me esconde!
Então a moça que estava mui bondosa porque vivia desocupada
desde tempo, levou Macunaíma pro quarto e brincaram. Agora estão
se rindo um pro outro.
Quando fogo ficou bem quente a velha Ceiuci veio com a filhona
habilidosa pra depenarem o pato porém acharam só tarrafa. A caapora
embrabeceu:
— Isso há-de ser minha filhinha nova que é muito bondosa…
Bateu no quarto da moça, gritando:
— Minha filhinha nova, entrega já meu pato que sinão enxoto
você da casa minha pra todo o sempre!
A moça ficou com medo e mandou Macunaíma atirar vinte milréis
por debaixo da porta pra ver si contentava a gulosa. Macunaíma de
medo já atirou cem que viraram em muitas perdizes lagostas robalos
vidros-de-perfume e caviar. A velha gulosa engoliu tudo e pediu mais.
Então Macunaíma atirou um conto de réis por debaixo da porta. O
conto virou em mais lagostas coelhos pacas champanha rendas
cogumelos rãs e a velha sempre comendo e pedindo mais. Então a
moça bondosa abriu a janela dando pro Pacaembu deserto e falou:— Vou dizer três adivinhas, si você descobre, te deixo fugir. O que
é que é: É comprido roliço e perfurado, entra duro e sai mole, satisfaz
o gosto da gente e não é palavra indecente?
— Ah! isso é indecência sim!
— Bobo! é macarrão!
— Ahn… é mesmo!… Engraçado, não?
— Agora o que é que é: Qual o lugar onde as mulheres têm cabelo
mais crespinho?
— ôh, que bom! isso eu sei! é aí!
— Cachorro! É na África, sabe!
— Me mostra, por favor!
— Agora é a última vez. Diga o quê que é:
Mano, vamos fazer
Aquilo que Deus consente:
Ajuntar pêlo com pêlo,
Deixar o pelado dentro.
E Macunaíma:
— Ara! Também isso quem não sabe! Mas cá pra nós que
ninguém nos ouça, você é bem senvergonha, dona!
— Descobriu. Não é dormir ajuntando os pêlos das pestanas e
deixando o olho pelado dentro que você está imaginando? Pois si você
não acertasse pelo menos uma das advinhas te entregava pra gulosa de
minha mãe. Agora fuja sem escarcéu, serei expulsa, voarei pro céu. Na
esquina você encontra uns cavalos. Tome o castanho-escuro que pisa
no mole e no duro. Esse é bom. Si você escuta um passarinho gritando
“Baúa! Baúa!” então é a velha Ceiuci chegando. Agora fuja sem escarcéu, serei expulsa, voarei pro céu!
— Macunaíma agradeceu e pulou pela janela. Na esquina estavam
dois cavalos, um castanho-escuro e outro cardão-pedrez. “Cavalo
cardão-pedrez pra carreira Deus o fez” Macunaíma murmurou. Pulou
nesse e abriu na galopada. Caminhou caminhou caminhou e já perto
de Manaus ia correndo quando o cavalo deu uma topada que arrancou
chão. No fundo do buraco Macunaíma enxergou uma coisa
relumeando. Cavou depressa e descobriu o resto do deus Marte, escultura grega achada naquelas paragens inda na Monarquia e
primeiro-de-abril passado no Araripe de Alencar pelo jornal chamado
Comércio do Amazonas. Estava contemplando aquele torso macanudo
quando escutou “Baúa! Baúa!”. Era a velha Ceiuci chegando.
Macunaíma esporeou o cardão-pedrez e depois de perto de Mendoza
na Argentina quasi dar um esbarrão num galé que também vinha
fugindo da Guiana Francesa, chegou num lugar onde uns padres
estavam melando. Gritou:
— Me escondam, padres!
Nem bem os padres esconderam Macunaíma num pote vazio que a
caapora chegou montada no tapir.
— Não viram meu neto passar por aqui no seu cavalinho comendo
capim?
— Já passou.
Então a velha apeou do tapir e. montou num cavalo gazeo-sarará
que nunca prestou nem prestará e seguiu. Quando ela virou a serra do
Pafanacoara os padres tiraram o herói do pote, deram pra ele um
cavalo melado-caxito que tanto é bom como é bonito e mandaram ele
embora. Macunaíma agradeceu e galopou. Logo adiante encontrou
uma cerca de arame porém era cavaleiro: deu um sacalão, esbarrou o
pongo e ajuntando as mãos do animal caído com um jeito forte fez o
cavalo girar e passar por debaixo do arame. Então o herói pulou a
cerca e amontou de novo. Galopeou galopeou galopeou. Passando no
Ceará decifrou os letreiros indígenas do Aratanha; no Rio Grande do
Norte costeando o serrote do Cabelo-não-tem decifrou outro. Na
Paraíba, indo de Manguape pra Bacamarte passou na Pedra-Lavrada
com tanta inscrição que dava um romance. Não leu por causa da
pressa e nem a da Barra do Poti do Piauí, nem a de Jajeú em
Pernambuco, nem a dos Apertados do Inhamum, que já era no quarto
dia e se escutava no ar rentinho: “Baúa! Baúa!” Era a velha Ceiuci
chegando. Macunaíma pernas pra que vos quero pelo eucaliptal. Mas
o passarinho sempre mais perto e Macunaíma isso vinha que vinha
acochado pela velha. Afinal topou com a biboca dum surucucu que
tinha parte com o canhoto.
— Me esconde, surucucu!O surucucu nem bem escondeu o herói no buraco da latrininha, a
velha Ceiuci chegou.
— Não viram meu neto passar por aqui no seu cavalinho comendo
capim?
— Já passou.
A gulosa apeou do gazeo-sarará que nunca prestou nem prestará e
montou num cavalo bebe-em-branco que é cavalo manco e seguiu.
Então Macunaíma escutou surucucu tratando com a companheira
pra fazerem um moquém do herói. Pulou do buraco do quartinho e
jogou no terreiro o anel com brilhantão que dera de presente pro dedo
Mindinho. O brilhantão virou em quatro contos de carros de milho,
adubo Polisu e uma fordeca de segunda mão. Enquanto o surucucu
olhava pra aquilo tudo satisfeito, Macunaíma pro melado-caxito
descansar, amontou num bagual cardão-rodado que nunca pode estar
parado e galopeou através de varjões e varjotas. Varou num átimo o
mar de areia do chapadão dos Parecis e por derrames e dependurados
entrou na caatinga e assustou as galinhas com pintos de ouro do
Camutengo perto de Natal. Légua e meia adiante abandonando a margem do São Francisco emporcalhada com a enchente-da-páscoa,
entrou por uma brecha aberta no morro alto. Ia seguindo quando
escutou um “psiu” de cunha. Parou morto de medo. Então saiu do
meio da catinga-de-porco uma dona alta e feiosa com trança até o pé.
E a dona perguntou cochichando pro herói:
— Já se foram?
— Se foram, quem!
— Os Holandeses!
— Você está caducando, quê Holandês esse! Não tem Holandês
nenhum, dona!
Era Maria Pereira cunha portuga amufumbada naquela brecha de
morro desde a guerra com os Holandeses Macunaíma não sabia bem
mais em que parte de Brasil estava e lembrou de perguntar.
— Me diga uma coisa, filho de gambá é raposa, como chama este
lugar?
A cunha secundou emproada:
— Aqui é o Buraco de Maria Pereira. Macunaíma soltou uma
grande gargalhada e escafedeu enquanto a mulher amoitava outra vez. O herói segui de carreira e enfim passou pra outra banda do rio Chuí.
Foi lá que topou com o tuiuiú pescando.
— Primo Tuiuiú, você me leva pra casa?
— Pois não!
Logo o tuiuiú se transformou na máquina aeroplano, Macunaíma
escanchou no aturiá vazio e ergueram vôo. Voaram sobre o chapadão
mineiro de Urucuia, fizeram o circuito de Itapecerica e bateram pro
Nordeste. Passando pelas dunas de Mossoró, Macunaíma olhou pra
baixo e enxergou Bartolomeu Lourenço de Gusmão, batina
arregaçada, pelejando pra caminhar no areão. Gritou pra ele:
— Venha aqui com a gente, ilustre! Porém o padre gritou com um
gesto imenso:
— Basta!
Depois que pulando a serra do Tombador no Mato Grosso
deixaram pra esquerda as cochilhas de SantAna do Livramento, o
tuiuiu-aeroplano e Macunaíma subiram até o Telhado do Mundo,
mataram a sede nas águas novas do Vilcanota e na última etapa
voando sobre Amargosa na Bahia, sobre o Gurupá e sobre o Gurupi
com sua cidade encantada, enfim toparam de novo com o mocambo
ilustre do igarapé Tietê. Daí a pouquinho estavam na porta da pensão.
Macunaíma agradeceu muito e quis pagar o ajutório porém se lembrou
que estava carecendo de fazer economia. Virou pro tuiuiú e falou:
— Olha, primo, pagar não posso não mas vou te dar um conselho
que vale ouro: Neste mundo tem três barras que são a perdição dos
homens: barra de rio, barra de ouro e barra de saia, não caia!
Porém estava tão acostumado a gastar que esqueceu-se da
economia. Deu dez contos pro tuiuiú, subiu satisfeito pro quarto e
contou tudo prós manos já muito ressabiados com a demora. O caso
afinal custara uns bons pacotes. Maanape então virou Jiguê num
telefone e deu queixa pra Polícia que deportou a velha gulosa. Porém
Piaimã tinha muita influência e ela voltou na companhia lírica.
A filha expulsa corre no céu, batendo perna de déu em déu. É uma
cometa.

XII
TEQUETEQUE, CHUPINZÃO E A INJUSTIÇA DOS
HOMENS
No outro dia Macunaíma acordou febrento. Tinha mesmo delirado
a noite inteira e sonhado com navio.
— Isso é viagem por mar, falou a dona da pensão. Macunaíma
agradeceu e de tão satisfeito virou logo
Jiguê na máquina telefone pra insultar a mãe de Venceslau Pietro
Pietra. Mas a sombra telefonista avisou que não secundavam.
Macunaíma achou aquilo esquisito e quis se levantar pra ir saber o que
era. Porém sentia um calorão cocado no corpo todo e uma moleza de
água. Murmurou:
— Ai… que preguiça…
Virou a cara pro canto e principiou falando bocagens. Quando os
manos vieram saber o que era, era sarampão. Maanape logo foi buscar
o famoso Bento curandeiro em Beberibe que curava com alma de
índio e água de pote. Bento deu uma agüinha e fez reza cantada. Numa
semana o herói já estava descascando. Então se levantou e foi saber o
que tinha sucedido pro gigante.
Não tinha ninguém no palácio e a copeira do vizinho contou que
Piaimã com toda a família fora na Europa descansar da sova.
Macunaíma perdeu todo o requebrado e se contrariou bem. Brincou
com a copeira muito aluado e voltou macambúzio pra pensão.
Maanape e Jiguê encontraram o herói na porta da rua e perguntaram
pra ele:
— Quem matou seu cachorrinho, meus cuidados? Então
Macunaíma contou o sucedido e principiou
chorando. Os manos ficaram bem tristes de ver o herói assim e
levaram ele visitar o Leprosário de Guapira, porém Macunaíma estava
muito contrariado e o passeio não teve graça nenhuma. Quando
chegaram na pensão era noitinha e todos já estavam desesperados.
Tiraram uma porção enorme de tabaco dum cornimboque imitando
cabeça de tucano e espirraram bem. Então puderam pensamentear.— Pois é, meus cuidados, você andou lerdeando, cozinhando galo,
cozinhando galo, o gigante é que não havia de esperar, foi-se. Agora
agüente a massada!
Nisto Jiguê bateu na cabeça e exclamou:
— Achei!
Os manos levaram um susto. Então Jiguê lembrou que eles podiam
ir na Europa também, atrás da muiraquitã. Dinheiro, inda sobravam
quarenta contos do cacau vendido. Macunaíma aprovou logo porém
Maanape que era feiticeiro imaginou imaginou e concluiu:
— Tem coisa milhor.
— Pois então desembuxe!
— Macunaíma finge de pianista, arranja uma pensão do Governo e
vai sozinho.
— Mas praquê tanta complicação si a gente possui dinheiro à
bessa e os manos podem me ajudar na Europa!
— Você tem cada uma que até parece duas! Poder a gente pode
sim porém mano seguindo com arame do Governo não é milhor? É.
Pois então!
Macunaíma estava refletindo e de repente bateu na testa:
— Achei!
Os manos levaram um susto.
— Quê foi!
— Pois então finjo de pintor que é mais bonito! Foi buscar a
máquina óculos de tartaruga um gramofoninho meias de golfe luvas e
ficou parecido com pintor.
No outro dia pra esperar a nomeação matou o tempo fazendo
pinturas. Assim: Agarrou num romance de Eça de Queiroz e foi na
Cantareira passear. Então passou perto dele um cotruco andarengo
muito marupiara porque possuía folhinha de picapau. Macunaíma deitado de bruços divertia-se amassando os tacurus das formigas
tapipitingas. O tequeteque saudou:
— Bom-dia, conhecido, como le vai, muito obrigado, bem.
Trabalhando, não?
— Quem não trabuca não manduca.
— É mesmo. Bom, té-loguinho.E passou. Légua e meia adiante topou com um mi-cura e lembrou
de trabucar também um bocado. Pegou no gambazinho, fez ele engolir
dez pratas de dois milréis e voltou com o bicho debaixo do braço.
Chegando perto de Macunaíma mascateou:
— Bom-dia, conhecido, como le vai, muito obrigado, bem. Si você
quer te vendo meu micura.
— Quê que vou fazer com um bicho tão pichento! Macunaíma
secundou botando a mão no nariz.
— Tem aca mas é coisa muito boa! Quando faz necessidade só
prata que sai! Vendo barato pra você!
— Deixe de conversa, turco! Onde que se viu micura assim!
Então o tequeteque apertou a barriga do gambá e o bicho desistiu
as dez pratinhas.
— Está vendo! Faz necessidade é prata só! Ajuntando a gente fica
riquíssimo! Barato pra você!
— Quanto que custa?
— Quatrocentos contos.
— Não posso comprar, só tenho trinta.
— Pois então pra ficar freguês deixo por trinta contos pra você!
Macunaíma desabotoou as calças e por debaixo da camisa tirou o
cinto que carregava dinheiro. Porém só tinha a letra de quarenta
contos e seis fichas do Cassino de Copacabana. Deu a letra e teve
vergonha de receber o troco. Até inda deu as fichas de inhapa e agradeceu a bondade do tequeteque.
Nem bem o mascate sorvetera entre as sapupiras guarubas e
parinais do mato que já o micura quis fazer necessidade outra feita. O
herói arrendondou o bolso aparando e a porcaria caiu toda ali. Então
Macunaíma percebeu o logro e abriu numa gritaria desgraçada,
caminho da pensão. Virando uma esquina encontrou o José Prequeté e
gritou pra ele:
— Zé Prequeté, tira bicho do pé pra comer com café!
José Prequeté ficou com ódio e insultou a mãe do herói porém este
não fez caso não, deu uma grande gargalhada e foi seguindo. Mais
adiante lembrou que ia indo pra casa zangado e pegou na gritaria outra
vez.Os manos inda não tinham voltado da maloca do Governo e a
patroa veio no quarto pra consolar Macunaíma, brincaram. Depois de
brincarem o herói pegou no choro. Quando os manos chegaram toda a
gente se sarapantou porque eles tinham cinco metros de altura. Não vê
que o Governo estava com mil vezes mil pintores já encaminhados pra
mandar na pensão da Europa e Macunaíma ser nomeado era mas só no
dia de São Nunca. Ficava muito longe. O invento tinha favado e os
manos ficaram compridos por causa do desaponto. Quando
enxergaram o mano chorando, se assustaram bem e quiseram saber a
causa. E como esqueceram o desaponto voltaram pro tamanho de dantes, Maanape já velhinho e Jiguê na força do homem.
O herói fazia:
— Ihihih! tequeteque me embromou! Ihihih! Comprei micura dele,
quarenta contos me custou!
Então os irmãos se descabelaram. Agora não era possível mais
irem na Europa não, porque possuíam só a noite e o dia. Levaram na
prantina enquanto o herói esfregava o óleo de andiroba no corpo prós
mosquitos não amolarem e adormecia bem.
No outro dia amanhaceu fazendo um calorão temível e Macunaíma
suava que mais suava dum lado pra outro enraivecido com a injustiça
do Governo. Quis sair pra espairecer porém aquela roupa tanta
aumentando o calor… Teve mais raiva. Teve raiva por demais e
maliciou que ia ficar com o butecaiana que é doença da raiva. Então
exclamou:
— Ara! Ande eu quente, ria-se a gente!
Tirou as calças pra refrescar e pisou em cima. A raiva se acalmou
no sufragante e até que muito satisfeito Macunaíma falou prós manos:
— Paciência, manos! não! não vou na Europa não. Sou Americano
e meu lugar é na América. A civilização européia de certo esculhamba
a inteireza do nosso caráter.
Durante uma semana os três vararam o Brasil todo pelas restingas
de areia marinha, pelas restingas de mato ralo, barrancas de paranãs,
abertões, corredeiras carrascos carrascões e chavacais, coroas de
vazante boqueirões mangas e fundões que eram ninhos de geada,
espraiados pancadas pedrais funis bocainas barroqueiras e rasouras,
todos esses lugares, campeando nas ruínas dos conventos e na base dos cruzeiros pra ver si não achavam alguma panela com dinheiro
enterrado. Não acharam nada.
— Paciência, manos! Macunaíma repetiu macambúzio. Jogamos
no bicho!
E foi na praça Antônio Prado meditar sobre a injustiça dos
homens. Ficou lá encostado num plátano muito bem. Todos os
comerciantes e aquele despropósito de máquina passavam rentinho do
herói grugunzando sobre a injustiça dos homens. Macunaíma já estava
disposto a mudar o dístico pra: “Pouca saúde e muitos pintores os
males do Brasil são” quando escutou um “Ihihih!” chorando atrás.
Virou e viu no chão um ticotico e um chupim.
O ticotico era pequetitinho e o chupim era macota. O ticotiquinho
ia dum lado pra outro acompanhado sempre do chupinzão chorando
pro outro dar de comer pra ele. Fazia raiva. O ticotiquinho imaginava
que o chupinzão era filhote dele mas não era não. Então voava,
arranjava um decumê por aí que botava no bico do chupinzão.
Chupinzão engolia e pegava na manha outra vez: “Ihihih! mamãe…
telo decumê!… telo decumê!…” lá na língua dele. O ticotiquinho
ficava azaranzado porque estava padecendo fome e aquele
nhenhenhén-nhenhenhén azucrinando ele, atrás, diz-que “Telo
decumê!… telo decumê!…” não podia com o amor sofrendo. Largava
de si, voava buscar um bichinho uma quirerinha, todos esses decumês,
botava no bico do chupinzão, chupinzão engolia e principiava atrás do
ticotiquinho outra vez. Macunaíma estava meditando na injustiça dos
homens e teve um amargor imenso da injustiça do chupinzão. Era
porque Macunaíma sabia que de primeiro os passarinho foram gente
feito nós… Então o herói pegou num porrete e matou o ticotiquinho.
Foi-se embora. Depois que andou légua e meia sentiu calor e
lembrou de beber pinga pra refrescar. Trazia sempre num bolso do
paletó uma garrafinha de pinga presa ao puíto por uma corrente de
prata. Desarrolhou e chupitou de manso. Eis sinão quando escutou
atrás um “Ihihih!” chorando. Virou sarapantado. Era o chupinzão.
— Ihihih! papai… telo decumê!… telo decumê!… lá na língua dele.
Macunaíma ficou com ódio. Abriu o bolso onde estava guardado
aquilo do micura e falou:
— Pois coma então!Chupinzão pulou na beira do bolso e comeu tudo sem saber. Foi
engordando engordando, virou num pássaro preto bem grande e voou
prós matos gritando “Afinca! Afinca!”. É o Pai do Vira.
Macunaíma seguiu caminho. Légua e meia adiante estava um
macaco mono comendo coquinho baguaçu. Pegava no coquinho,
botava no vão das pernas junto com uma pedra, apertava e juque! a
fruta quebrava. Macunaíma veio e esgurejou com a boca cheia d’água.
Falou:
— Bom-dia, meu tio, como lhe vai?
— Assim assim, sobrinho.
— Em casa todos bons?
— Na mesma.
E continuou mastigando. Macunaíma ali, sapeando. O outro
enquizilou assanhado:
— Não me olhe de banda que não sou quitanda, não me olhe de
lado que não sou melado!
— Mas o quê você está fazendo aí, titio!
O macaco mono soverteu o coquinho na mão fechada e secundou:
— Estou quebrando os meus toaliquiçus pra comer.
— Vá mentir na praia!
— Uai, sobrinho, si tu não dá crédito então pra-quê pergunta!
Macunaíma estava com vontade de acreditar e indagou:
— É gostoso é?
O mono estalou a língua:
— Chi! prove só!
Quebrou de escondido outro coquinho, fingindo que era um dos
toaliquiçus e deu pra Macunaíma comer. Macunaíma gostou bem.
—- É bom mesmo, tio! Tem mais?
— Agora se acabou mas si o meu era gostoso que fará os vossos!
Come eles, sobrinho!
O herói teve medo:
— Não dói não?
— Qual, si até é agradável!…
O herói agarrou num paralelepípedo. O macaco mono rindo por
dentro inda falou pra ele:
— Você tem mesmo coragem, sobrinho?— Boni-t-ó-tó macaxeira comotó! o herói exclamou empafioso.
Firmou bem o paralelepípedo e juque! nos toaliquiçus. Caiu morto. O
macaco mono caçoou assim:
— Pois, meus cuidados, não falei que tu morrias! Falei! Não me
escutas! Estás vendo o que sucede prós desobedientes. Agora: sic
transit!
Então calçou as luvas de balata e foi-se. Daí a pouco veio uma
chuvarada que refrescou a carne verde do herói, impedindo a
putrefação. Logo se formou um poder de correições de formigas
guajuguajus e muru-petecas pro corpo morto. O advogado Fulano
atraído pelas correições topou com o defunto. Abaixou, tirou a carteira
do cadáver porém só tinha cartão-de-visita. Então resolveu levar o
defunto pra pensão, fez. Carregou Macunaíma nas costas e foi
andando. Porém o defunto pesava por demais e o advogado viu que
não podia com o peso. Então arreou o cadáver e deu uma coca de vara
nele. O defunto ficou levianinho e o advogado Fulano pôde levá-lo pra
pensão.
Maanape chorou muito se atirando sobre o corpo do mano. Depois
descobriu o esmagamento. Maanape era feiticeiro. Logo pediu de
emprestado pra patroa dois côcos-da-Bahia, amarrou-os com nó-cego
no lugar dos toaliquiçus amassados e assoprou fumaça de cachimbo
no defunto herói. Macunaíma foi se erguendo muito desmerecido.
Deram guaraná pra ele e daí a pouco matava sozinho as formigas que
inda o mordiam. Estava tremendo muito porque por causa da
chuvarada a friagem batera de repente. Macunaíma tirou a garrafinha
do bolso e bebeu o resto da pinga pra esquentar. Depois pediu uma
centena pra Maanape e foi até um chalé jogar no bicho. De-tarde
quando viram, a centena tinha dado mesmo. E assim eles viveram com
os palpites do mano mais velho. Maanape era feiticeiro.XIII
A PIOLHENTA DO JIGUÊ
No outro dia por causa da machucadura Macunaíma amanheceu
com uma grosseira pelo corpo todo. Foram ver e era a erisipa, doença
comprida. Os manos trataram dele bem e traziam diariamente pra casa
todos esses remédios pra erisipela que os vizinhos e conhecidos, todos
esses Brasileiros aconselhavam. O herói passou uma semana de cama.
De-noite sonhava sempre com embarcações e a dona da pensão
quando vinha de-manhã por amor de saber como ia o herói dizia
sempre que embarcação significava na certa viagem por mar. Depois
saía deixando sobre a cama do enfermo o Estado de São Paulo. E o
Estado de São Paulo era um jornal. Então Macunaíma gastava o dia
lendo todos esses anúncios de remédios pra erisipa. E eram muitos
anúncios!
No fim da semana o herói estava descascando bem e foi na cidade
buscar sarna pra se cocar. Andou banzando banzando, e muito
fatigado por causa da fraqueza parou no parque do Anhangabaú.
Chegara bem debaixo do monumento a Carlos Gomes que fora um
músico muito célebre e agora era uma estrelinha do céu. O ruído da
fonte murmurejando na tardinha dava pro herói a visagem das águas
do mar. Macunaíma sentou no parapeito da fonte e assuntou os
baguais marinhos de bronze chorando água. E lá na escureza da gruta
por detrás da tropilha presenciou uma luz. Fixou mais e distinguiu
uma embarcação muito linda que vinha boiando sobre as águas. “É
uma vigilenga” murmurou. Porém a nau vinha chegando cada vez
maior. É um gaiola” murmurou. Mas o gaiola vinha chegando tão
granto tão! que o herói deu um salto sarapantado e
gritou na bôca-da-noite ecoada “É um vaticano!” O navio já vinha
bem visível por detrás dos baguais de bronze. Tinha o corte da
velocidade no casco de prata e os mastros inclinados pra trás estavam
cheios de bandeiras que o vento da correria imprensava entre as
lâminas de ar. O grito chamara os choferes da esplanada e todos
curioseavam o gesto parado do herói e seguiam o risco do olhar dele
batendo na fonte escura.— Quê foi, herói?
— Olha lá!… Olha o vaticano macota que vem vindo sobre as
águas imensas do mar!
— Aonde!
— Por detrás do cavalo de estibordo!
Então todos viram por detrás do cavalo de estibordo o navio
chegando. Já estava bem perto e ia passar entre o cavalo e a parede de
pedra, já estava na boca da gruta. E era um navio guaçu.
— Não é vaticano não! é o transatlântico fazendo viagem por mar!
gritou um chofer japonês que já fizera muita viagem por mar. E era
um transatlântico enorme. Vinha iluminado, relampeava todo de ouro
e prata embandeirado e festeiro. Os óculos das cabinas eram colares
no casco e nos cinco deques empoleirados corria música entre a
gentana dançando mexida no cururu. A choferada comentava:
— É do Lóide!
— Não, é da Hamburgo!
— Vá saindo! tou percebendo! então! É il piróscafo Conte Verde
em vez!
E era o piróscafo Conte Verde sim. E era a Mãe D’água que vinha
bancando piróscafo pra atentar o herói.
— Gente! adeus, gente! Vou pra Europa que é milhor! Vou em
busca de Venceslau Pietro Pietra que
é o gigante Piaimã comedor de gente! que o herói discursava.
E toda a choferada abraçava Macunaíma se despedindo. O vapor
estava ali e Macunaíma já pulara no cais da fonte pra subir a escadinha
do piróscafo Conte Verde. Todos os tripulantes na frente da música
acenavam chamando Macunaíma e eram marujos forçudos, eram
Argentinos finíssimos e eram tantas donas lindíssimas pra gente
brincar até enjoar com os balangos das ondas.
— Desce a escadinha, capitão! que o herói exclamou.
Então o capitão tirou o cocar e executou uma letra no ar. E todos,
os marujos os Argentinos finíssimos e as cunhas lindíssimas pra
Macunaíma brincar, todos esses tripulantes soltaram vaias macotas
caçoando do herói enquanto o navio manobrando sem parar dava a
popa pra terra e flechava de novo pro fundo da gruta. E todos aqueles
tripulantes viraram doentes com erisipa sempre caçoando do herói. E quando o piróscafo atravessou o estreito entre a parede da gruta e o
bagual de bombordo a chaminèzona guspiu uma fumaçada de
pernilongos, de borrachudos mosquitos-pólvora mutucas
marimbondos cabas potós môsca-de-ura, todos esses mosquitos
afugentando os motoristas.
O herói sentado no rebordo da fonte penava todo mordido e com
mais erisipa, mais, todo erisipelado. Sentiu frio e veio febre. Então
espantou com um gesto os mosquitos e caminhou pra pensão.
No outro dia Jiguê entrou em casa com uma cunhatã, fez ela
engolir três bagos de chumbo pra não ter filhos e os dois dormiram na
rede. Jiguê tinha se amulherado. Ele era muito valente. Passava o dia
limpando a espingarda e afiando a lamparina. A companheira de Jiguê
todas as manhãs ia comprar macaxeira prós quatro comerem e se
chamava Suzi. Porém Macunaíma que era o namorado da
companheira de Jiguê, todos os dias comprava uma lagosta pra ela,
punha no fundo do jamachi e por cima esparramava a macaxeira pra
ninguém não maliciar. Suzi era bem feiticeira. Quando chegava em
casa deixava a cesta na saleta e ia dormir pra sonhar. Sonhando ela
falava pra Jiguê:
— Jiguê, meu companheiro Jiguê, estou sonhando que tem lagosta
por debaixo da macaxeira.
Jiguê ia ver e tinha. Todos os dias era assim e Jiguê tendo
amanhecido com dor-de-cotovelo desconfiou. Macunaíma percebeu a
dor do mano e fez uma mandinga pra ver si passava. Pegou numa cuia
e de-noite deixou-a no terraço, rezando manso:
“Água do céu
Vem nesta cuia,
Paticl vem nesta água,
Moposêru vem nesta água,
Sivuoímo vem nesta água,
Omaispopo vem nesta água,
Os Donos da Água enxotem a dor-de-corno!
Aracu, Mecumecuri, Pai que venham nesta água,
E enxotem a dor-de-corno si o doente beber esta água
Em que estão encantados os Donos da Água!”Deu pra Jiguê beber no outro dia porém não surtiu efeito não e o
mano andava muito desconfiado.
Quando Suzi se vestia pra ir na feira, assobiava o foxtrote da moda
pro namorado ir também. O namorado era Macunaíma, ia. A
companheira de Jiguê saía e Macunaíma saía atrás. Andavam
brincando por aí e quando chegava a hora da volta já não tinha
macaxeira mais na feira. Pois então Suzi disfarçando ia atrás da casa,
sentava no jamachi e puxava uma porção de macaxeira de dentro do
maissó. Todos comiam muito bem, só Maanape resmungava:
— Caboclo de Taubaté, cavalo pangaré, mulher que mija em pé,
libera nós Dominé! e empurrava a comida.
Maanape era feiticeiro. Não queria saber daquela macaxeira não e
como andava curtindo fome passava o tempo mastigando ipadu pra
enganar. De-noite quando Jiguê queria pular na rede a companheira
dele principiava gemendo, falando que estava empanzinada de tanto
engolir caroço de pitomba. Era só pra Jiguê não brincar com ela. Jiguê
teve raiva.
No outro dia ela foi na feira e assobiou o foxtrote da moda.
Macunaíma saiu atrás. Jiguê era muito valente. Pegou numa
mirassanga enorme e foi devagarinho atrás deles. Procurou procurou e
encontrou Suzi com Macunaíma de, mãos dadas no Jardim da Luz. Já
estavam se rindo um pro outro. Jiguê desceu a mirassanga nos dois,
levou a companheira pra pensão e deixou o mano fatigado na beira da
lagoa entre cisnes.
Do outro dia em diante Jiguê é que fazia as compras deixando a
companheira presa no quarto. Suzi sem quefazer passava o tempo
contrariando a moralidade mas uma feita o santo Anchieta vindo ao
mundo passou pela casa dela e por piedade ensinou-a a catar piolhos.
Suzi possuía uns cabelos ruivos à la garçonne e sustentava muitos
piolhos, muitos! Agora não sonhava mais que tinha lagostas por
debaixo da macaxeira nem não fazia imoralidades. Quando Jiguê partia ela tirava os cabelos e espetando-os no porrete do companheiro,
catava piolhos. Mas tinha muitos piolhos, muitos! Então com medo
que o companheiro apanhasse ela no trabalho, falou assim:— Jiguê, meu companheiro Jiguê, quando você volta do mercado
bate primeiro na porta, bate todos os dias uma porção de tempo pra
mim ficar contente e ir cozinhar a macaxeira.
Jiguê falou que sim. Todos os dias ia no mercado comprar
macaxeira e quando voltava batia demorado na porta. Então a cunha
botava os cabelos na cabeça e ficava esperando Jiguê.
— Suzi, minha companheira Suzi, bati uma porção de vezes na
porta, será que você alegrou?
— Muito! ela fez. E foi cozinhar a macaxeira.
E todos os dias eram assim. Mas tinha muitos piolhos, muitos! É
que ela contava os catados um por um e por isso os piolhos
aumentavam. Uma feita Jiguê matutou no que ficava fazendo a
companheira quando ele ia no mercado e teve vontade de assustá-la,
fez. Virou de pernas pro ar e veio andando nas pontas das mãos. Abriu
a porta e assustou Suzi. Isso ela gritou botando afobada a cabeleira na
cabeça. E os cabelos da testa ficaram no cangote e os cabelos do
cangote ficaram na testa escorrendo. Jiguê xingou Suzi de porca e deu
nela até escutar alguém subindo a escada. Era Chico vindo de baixo.
Então Jiguê parou e foi afiar a bicuda.
No outro dia Macunaíma estava outra vez com vontade de brincar
com a companheira de Jiguê. Falou prós manos que ia numa caçada
longe porém não foi não. Comprou duas garrafas de licor de butiá
catarinense uma dúzia de sanduíches dois abacaxis de Pernambuco e
se amoitou no quartinho. Passado tempo saiu de lá e falou pra Jiguê,
mostrando o embrulho:
— Mano Jiguê, no fim de muitas ruas, você indo, tem uma fruteira
trilhada. Vi um poder de caça, vá ver!
O mano espiou desconfiado pra ele porém Macunaíma disfarçou
bem:
— Olhe, tem paca tatu cotia… Minto, cotia não enxerguei
nenhuma. Paca tatu, cotia não.
Jiguê emprenhava pelas oiças mesmo, foi logo pegando na
espingarda e falou:
— Então vou porém mano jura primeiro que não brinca com
minha obrigação.Macunaíma jurou pela memória da mãe que nem olhava pra Suzi.
Então Jiguê tornou a pegar na espingarda-pá e na faca de ponta-tá
tatatá e partiu. Macunaíma nem bem Jiguê virou a esquina ajudou Suzi
abrindo os embrulhos e botando uma toalha da renda famosa chamada
“Ninho de Abelha” cujo papelão fora roubado em Muriú do Ceará-
Mirim pela danada Geracina da Ponta do Mangue. Quando tudo ficou
pronto os dois pularam na rede e brincaram. Agora estão se rindo um
pro outro. Depois de rirem bastante, Macunaíma falou:
— Desarrolha uma garrafa pra gente beber.
— Sim, ela fez. E beberam a primeira garrafa de licor de butiá que
era muito gostoso. Os dois estalaram a língua e pularam na rede outra
vez. Brincaram quanto quiseram. Agora estão se rindo um pro outro.
Jiguê andou légua e meia, foi até no fim das ruas, campeou a
fruteira uns pares de vezes, muito tempo, jacaré achou? nem ele! Não
tinha fruteira nenhuma e Jiguê voltou campeando sempre por todos os
fins das ruas. Afinal chegou subiu no quarto e encontrou mano
Macunaíma com a Suzi já rindo. Jiguê teve raiva e deu uma coca na
companheira. Agora ela está chorando. Jiguê agarrou o herói e chegou
o porrete com vontade nele. Deu que mais deu até Manuel chegar.
Manuel era o criado da pensão, um ilhéu. Agora o herói está fatigado.
E Jiguê que vinha padecendo de fome. então comeu as sanduíches os
abacaxis e bebeu o licor de butiá.
Os dois sovados passaram a noite se lastimando. No outro dia
Jiguê enfarado pegou na sarabatana e saiu pra ver si encontrava à tal
de fruteira. Jiguê era muito bobo. Suzi viu ele sair, enxugou os olhos e
falou pro namorado:
— Choremos não.
Então Macunaíma desamarrou a cara e se arranjou pra ir falar com
mano Maanape. Jiguê de volta na pensão perguntou pra Suzi:
— Onde anda o herói?
Porém ela estava zangadíssima e principiou assobiando. Então
Jiguê agarrou no porrete, se chegou pra companheira e disse muito
triste:
— Vai embora, perdição!
Daí ela sorriu feliz. Catou sem contar todos os piolhos que
restavam e eram muitos piolhos, atrelou-os a uma cadeira-de-balanço, sentou nela, os piolhos pularam e Suzi foi pro céu virada na estrela
que pula. É uma zelação.
O herói nem bem viu Maanape de longe pegou se lastimando. Se
atirou nos braços do mano e contou uma história bem triste provando
que Jiguê não tinha razão nenhuma pra sová-lo tanto. Maanape ficou
zangado e foi falar com Jiguê. Mas Jiguê também já vinha pra falar
com Maanape. Se encontraram no corredor. Maanape contou pra Jiguê
e Jiguê contou pra Maanape. Então eles verificaram que Macunaíma
era muito safado e sem caráter. Voltaram pro quarto de Maanape e
toparam com o herói se lastimando. Pra consolar levaram ele passear
na máquina automóvel.

XIV
MUIRAQUITÃ
No outro dia de manhã nem bem Macunaíma abriu a janela,
enxergou um passarinho verde. O herói ficou satisfeitíssimo e inda
estava ficando satisfeito quando Maanape entrou no quarto contando
que as máquinas jornais anunciavam a volta de Venceslau Pietro
Pietra. Então Macunaíma resolveu não ter mais contemplação com o
gigante e matá-lo. Saiu da cidade e foi no mato Fulano experimentar
força. Campeou légua e meia e afinal topou com uma peroba com a
sapopemba do tamanho dum bonde. “Esta serve” ele fez. Enfiou o bra-
ço na sapopemba, deu arranco e o pau saiu da terra não deixando nem
sinal. “Agora sim que tenho força!” Macunaíma exclamou. Tornou a
ficar satisfeito e voltou pra cidade. Porém não podia nem andar porque
estava cheio de carrapatos. Macunaíma com muita pachorra falou pra
eles:
— Ara, carrapatos! vão embora, pessoal. Não devo nada pra vocês
não!
Então a carrapatada caiu no chão por encanto e foi-se embora.
Carrapato já foi gente que nem nós… Uma feita botou uma vendinha
na beira da estrada e fazia muitos negócios porque não se incomodava
de vender fiado. Tanto fiou tanto fiou, tanto Brasileiro não pagou que
afinal carrapato quebrou e foi posto pra fora da vendinha. Ele agarra
tanto na gente porque está cobrando as contas.
Quando Macunaíma chegou na cidade já era noite fechada e ele foi
logo tocaiar a casa do gigante. Tinha neblina sobre o mundo e a casa
estava sem ninguém de tanta que era a escureza. Macunaíma se
lembrou de procurar uma criada pra brincar mas tinha estacionamento
das máquinas táxis na esquina e as cunhas já estavam brincado por aí.
Macunaíma se lembrou de armar arapuca prós curiós mas faltava isca.
Não havia que fazer e sentiu sono. Porém dormir não queria não
porque estava esperando Venceslau Pietro Pietra. Imaginou: “Agora
vou vigiar e quando Sono vier enforco ele”. Não demorou muito viu
um vulto chegando. Era Emoron-Pódole, o Pai do Sono. Macunaíma
ficou muito parado entre os ninhos de cupim pra não espantar o Pai do Sono e poder matá-lo. Emoron-Pódole veio vindo veio vindo e quando
já estava pertinho, o herói cochilou, bateu com o queixo no peito,
mordeu a língua e gritou:
— Que susto!
O Sono fugiu logo. Macunaíma seguiu andando muito
desapontado. “Ora veja só! não peguei mas quase… Vou esperar outra
vez e macacos me lambam si agora não pego o Pai do Sono e enforco
ele!” Assim que o herói refletiu. Tinha um corgo perto com um pau
caído por cima servindo de pinguela. Mais pra longe uma lagoa
branquejava de luar porque a neblina já tinha ido-se embora. A vista
era quieta e muito suave por causa da agüinha cantando o acalanto dos
pobres. O Pai do Sono devia de estar amoitado por ali. Macunaíma
cruzou os braços e com o olho esquerdo dormindo ficou imóvel entre
os ninhos de cupim. Não demorou muito enxergou Emoron-Pódole
chegando. O Pai do Sono veio vindo veio vindo e de repente parou.
Macunaíma ouviu que ele falava:
— Aquele sujeito não tá morto não. Morto que não arrota onde se
viu!
Então o herói arrotou “juque!”
— Onde se viu morto arrotar, gentes! o Sono caçoou e fugiu logo.
Por isso que o Pai do Sono inda existe e os homens por castigo não
podem dormir em pé.
Macunaíma ia ficar desapontado com o sucedido quando escutou
uma bulha e enxergou do outro lado do corgo um chofer gesticulando
feito chamado. Ficou muito sarapantado e gritou tiririca:
— Isso é comigo, colega! Sou francesa não!
— Sai azar! o rapaz fez.
Então Macunaíma pôs reparo numa criadinha com um vestido de
linho amarelo pintado com extrato de tatajuba. Ela já ia atravessando o
corgo pelo pau. Depois dela passar o herói gritou pra pingela:
— Viu alguma coisa, pau?
— Vi a graça dela!
— Quá! quá! quá quaquá!…
Macunaíma deu uma grande gargalhada. Então seguiu atrás do par.
Eles já tinham brincado e descansavam na beira da lagoa. A moça
estava sentada na borda duma igarité encalhada na praia. Toda nua inda do banho comia tambiús vivos, se rindo pro rapaz. Ele deitara de
bruços na água rente do pés da moça e tirava os lambarizinhos da
lagoa pra ela comer. A crilada das ondas amontava nas costas dele
porém escorregando no corpo nu molhado caía de novo na lagoa com
risadinhas de pingos. A moça batia com os pés n’água e era feito um
repuxo roubado da Luna espirrando jeitoso, cegando o rapaz. Então
ele enfiava a cabeça na lagoa e trazia a boca cheia de água. A moça
apertava com os pés as bochechas dele e recebia o jato em cheio na
barriga, assim. A brisa fiava a cabeleira da moça esticando de um em
um os fios lisos na cara dela. O moço pôs reparo nisso. Firmando o
queixo no joelho da companheira ergueu o busto da água, estirou o
braço pro alto e principiou tirando os cabelos da cara da moça pra que
ela pudesse comer sossegada os tamiús. Então pra agradecer ela enfiou
três lambarizinhos na boca dele e rindo muito fastou o joelho
depressa. O busto do rapaz não teve apoio mais e ele no sufragante
focinhou n’água até o fundo, a moça inda forçando o pescoço dele
com os pés. Ela ia escorregando sem perceber de tanta graça que
achava na vida. Ia escorregando e afinai a canoa virou. Pois deixai ela
virar! A moça levou,um tombo engraçado por cima do rapaz e ele
enrolou-se nela talqualmente um apuizeiro carinhoso. Todos os tamiús
fugiram enquanto os dois brincavam n’água outra vez.
Macunaíma chegava. Sentou no .fundo da igarité virada,
esperando. Quando viu que eles tinham acabado de brincar, falou pro
chofer:
— Faz três dias que não como,
Semana que não escarro,
Adão foi feito de barro,
Sobrinho, me dá um cigarro.
O chofer secundou:
— Me desculpe, meu parente,
Si cigarro não lhe dou;
A palha o fosfre e o goiano
Caiu n’água, se molhou.— Não se incomode que eu tenho, respondeu Macunaíma. Tirou
uma cigarreira de tartaruga feita por Antônio do Rosário no Pará,
ofereceu cigarros de palha de tauari pro moço e pra criadinha, acendeu
um fósforo prós dois e outro pra ele. Depois afastou os mosquitos e
principiou contando um caso. Assim a noite passava depressa e a
gente não se amolava com o canto da sururina marcando as horas da
escuridão. E era assim;
— No tempo de dantes, moços, o automóvel não era uma máquina
que nem hoje não, era a onça parda. Se chamava Palauá e parava no
grande mato Fulano. Vai, Palauá falou prós olhos dela:
— Vão na praia do mar, meus verdes olhos, depressa depressa
depressa!
Os olhos foram e a onça parda ficou cega. Porém levantou o
focinho, fez ele cheirar o vento e percebeu que Aimalá-Pódole, o Pai
da Traíra estava andando lá no longe do mar e gritou:
— Venham da praia do mar, meus verdes olhos, depressa depressa
depressa!
Os olhos vieram e Palauá ficou enxergando outra vez. Passava por
ali a tigre preta que era muito feroz e falou pra Palauá:
— O que você está fazendo, comadre!
— Estou mandando meus olhos olharem o mar.
— É bom?
— Prós cachorros!
— Então manda os meus também, comadre!
— Mando não porque Aimalá-Pódole está na praia do mar.
— Manda que sinão te engulo, comadre! Então Palauá falou assim:
— Vão na praia do mar, amarelos olhos de minha comadre tigre,
depressa depressa depressa!
Os olhos foram e a tigre preta ficou cega. Aimalá-Pódole estava lá
e juque! engoliu os olhos da tigre. Palauá maliciou tudo porque o Pai
da Traíra estava cheirando mui forte. Foi tratando de se raspar. Porém
a tigre preta que era mui feroz presenciou a fugida e falou pra onça
parda:
— Espera um pouco, comadre!
— Não vê que careço de buscar janta pra meus filhos, comadre.
Então até outro dia.— Primeiro manda meus olhos voltarem, comadre, que já tomei
um fartão de escureza.
Palauá gritou:
— Venham da praia do mar, amarelos olhos de minha comadre
tigre, depressa depressa depressa!
Porém os olhos não voltaram não e a tigre preta ficou feito fúria.
— Agora que te engulo, comadre!
E correu atrás da onça parda. Foi uma chispada mãe por esses
matos que chii! os passarinhos se tornaram pequetitinhos
pequetitinhos de medo e a noite levou um susto tamanho que ficou
paralítica. Por isso que quando faz dia em riba das árvores, dentro do
mato é sempre noite. A coitada não pode mais andar…
Quando Palauá correu légua e meia olhou pra trás fatigada. A tigre
preta vinha perto. Vai, Palauá chegou num morro chamado
Ibiraçoiaba e topou com um bigorna gigante, aquela uma que
pertencia à fundição de Afonso Sardinha no princípio da vida
brasileira. Junto da bigorna estavam quatro rodas esquecidas. Então
Palauá amarrou elas nos pés pra poder deslizar sem muito esforço e,
como se diz: desatou o punho da rede outra vez, uma chispada mãe! A
onça engoliu num átimo légua e meia de terreno porém isso vinha que
vinha acochada pela tigre. Faziam um barulhão tamanho que os
passarinhos estavam pequetitinhos pequetitinhos de medo e a noite
mais pesada por causa que não podia andar. E a bulha inda era
assombrada pelos gemidos do noitibó… Noitibó é Pai da Noite,
moços, e chorava a miséria da filha.
Bateu fome em Palauá. A tigre na cola dela. Mas Palauá nem não
podia mais correr assim com o estômago nas costas, vai» em de mais
longe quando passou pela barra do Boipeba onde o cuisarruim morou,
viu um motor perto e engoliu o tal. Nem bem motor caiu na barriga da
onça que a pobre criou força nova e chispou. Fez légua e meia e olhou
pra trás. Isso a tigre preta vinha feita pra cima dela. Estava uma
escureza que só vendo por causa da malinconia da noite e bem na
frente dum feixo a onça deu uma trombada temível no derrame dum
morrete, que por um triz, era uma vez Palauá! Vai, ela abocanhou dois
vagalumões e seguiu com eles nos dentes pra alumiar caminho. Nem
bem fez outra légua e meia olhou pra trás. A tigre junto. Era por causa que a onça parda cheirava muito e a peste da cega tinha faro de
perdigueiro. Vai, Palauá ingeriu um purgante de óleo de mamona,
pegou numa lata da essência chamada gasolina, despejou no x e lá foi
fuomfuom! fuom! que nem burro peidorreiro por aí. A bulha foi
tamanha que nem se escutou o tinido assombrado dos pratos partidos
do morro do Assobio ali. A tigre preta ficou toda atrapalhada por
causa que era cega e não cheirava mais a catinga da comadre. Palauá
correu mais muito e olhou pra trás. Não enxergou a tigre. Também
nem não podia mais correr com as fuças fumegando de quentura.
Tinha ali perto um bananal macota com um pauê na faixa porque
Palauá já tinha chegado no porto de Santos. Vai, a bicha derramou
água cansada no focinho e desesquentou. Depois cortou uma folha açu
de banana-figo e se escondeu botando ela por riba feito capote.
Dormiu assim. A tigre preta que era muito feroz até passou por ali,
onça nem pio. E a outra passou não presenciando a comadre. Então de
medo a onça nunca mais que largou de tudo o que tinha ajudado ela
fugir. Anda sempre com roda nos pés, motor na barriga, purgante de
óleo na garganta, água nas fuça?, gasolina no osso-de-Pai-João, os
dois vaga-lumes na boca e o capote de folha de banana-figo cobrindo,
ai ai! prontinha pra chispar. Principalmente si pisa nalguma correição
da formiga chamada taxi e alguma trepando no pelame luzido morde a
orelha dela, qual! chispa que nem Deus! E inda tomou nome estranho
pra disfarçar mais. É a máquina automóvel.
Mas por causa que bebeu água cansada Palauá teve estupor.
Possuir automóvel de seu é ter estupor em casa, moços.’
Dizem que mais tarde a onça pariu uma ninhada enorme. Teve
filhos e filhas. Uns machos outros fêmeas. Por isso que a gente fala
“um forde” e fala “uma chevrolé”…
Tem mais não.”
Macunaíma parou. Chorava comoção pela boca dos moços. Sobre
as águas a fresca boiava de barriga pro ar. O rapaz mergulhou á
cabeça pra disfarçar a lágrima e trouxe um tabiú nos dentes rabejando
danadinho. Repartiu a comida com a moça. Então lá na porta da casa
uma onça fíate abriu a goela e urrou pra Lua:
— Baúa, Baúa!Se escutou uma bulha formidável e tomou conta do ar um pitium
sufocado. Era Venceslau Pietro Pietra que chegava. O motorista se
ergueu logo e a criada também. Estenderam a mão pra Macunaíma,
convidando:
— Seu gigante chegou de viagem, vamos todos saber como está?
Fizeram. Encontraram Venceslau Pietro Pietra na porta-da-rua
conversando com repórter. O gigante rio prós três e falou pro
motorista:
— Vamos lá dentro?
— Pois não!
Piaimã possuía orelhas furadas por causa dos brincos. Enfiou uma
perna do rapaz na orelha direita, a
outra na esquerda e foi carregando o moço nas costas.
Atravessaram o parque e entraram na casa. Bem no meio do hol de
acapu mobiliado com sofás de cipó-titica feitos por um judeu alemão
de Manaus, se via um buraco enorme tendo por cima um cipó de
japecanga feito balanço. Piaimã sentou o moço no cipó e perguntou
pra ele si queria balançar um bocado. O moço fez que sim. Piaimã
balançou balançou, de repente deu um arranco. Japecanga tem
espinho… Os espinhos entraram na carne do chofer e principiou
escorrendo sangue no buraco.
— Chega! já estou satisfeito! que o chofer gritava.
— Balança que vos digo! secundava Piaimã.
Sangue escorrendo. A caapora companheira do gigante estava lá
em baixo do buraco e o sangue pingava numa tachada de macarrão
que ela preparava pro companheiro. O rapaz gemia no balanço:
— Ah, si eu possuísse meu pai e minha mãe a meu lado não estava
padecendo nas mãos deste malvado!…
Então Piaimã deu um arranco muito forte no cipó e o rapaz caiu no
molho da macarronada.
Venceslau Pietro Pietra foi buscar Macunaíma. O herói já estava se
rindo com a criadinha. O gigante falou pra ele:
— Vamos lá dentro?
Macunaíma estendeu os braços sussurrando:
— Ai!… que preguiça!.. .
— Ora vamos!… Vamos?— Pois sim…
Então Piaimã fez pra ele como fizera pro chofer, carregou o herói
nas costas de cabeça pra baixo prendidos os pés nos buracos das
orelhas. Macunaíma aprumou a sarabatana e assim de cabeça pra
baixo era ver um atirador malabarista de circo, acertando nos ovinhos
do alvo. O gigante ficou muito incomodado virou e percebeu tudo.
— Faz isso não, patrício!
Tomou a sarabatana e jogou longe, Macunaíma agarrava quanto
ramo caía na mão dele.
— Que você está fazendo? perguntou o gigante ressabiado.
— Não vê que os ramos estão batendo na minha cara!
Piaimã virou o herói de cabeça pra cima. Então Macunaíma fez
cócegas com os ramos nas orelhas do gigante. Piaimã dava grandes
gargalhadas e pulava de gozo.
— Não amola mais, patrício! ele fez. Chegaram no hol. Por
debaixo da escada tinha
uma gaiola de ouro com passarinhos cantadores. E os passarinhos
do gigante eram cobras e lagartos. Macunaíma pulou na gaiola e
principiou muito disfarçado comendo cobra. Piaimã convidava-o pra
vir no balanço porém Macunaíma engolia cobras contando:
— Falta cinco…
E engolia mais outra bicha. Afinal as cobras se^ acabaram e o
herói cheio de raiva desceu da gaiola com o pé direito. Olhou cheio de
raiva pro gatuno da muiraquitã e rosnou:
— Hhhm… que preguiça!
Mas Piaimã insistia pro herói balangar.
— Eu até que nem não sei balançar. . . Milhor você vai primeiro,
que Macunaíma rosnou.
— Que eu nada, herói! É fácil que-nem beber água Assuba na
japecanga, pronto: eu balanço!
— Então aceito porém você vai primeiro, gigante. Piaimã insistiu,
mas ele sempre falando pro gigante
balançar primeiro. Então Venceslau Pietro Pietra
amontou no cipó e Macunaíma foi balançando cada vez mais forte.
Cantava:”Bão-ba-lão
Senhor capitão,
Espada na cinta
Ginete na mão!”
Deu um arranco. Os espinhos ferraram na carne do gigante e o
sangue espirrou. A caapora lá em baixo não sabia que aquela
sangueira era do gigante dela e aparava a chuva na macarronada.
Molho engrossando.
Pára! Pára! Piaimã gritava.
— Balança que vos digo! secundava Macunaíma. Balançou até o
gigante ficar bem tonto e então deu
um arranco fortíssimo na japecanga. Era porque tinha comido
cobra e estava furibundo. Venceslau Pietro Pietra caiu no buraco
berrando cantado:
— Lem lem lem… si desta escapar, nunca mais como ninguém!
Enxergava a macarronada fumegando lá em baixo e berrou pra ela.
— Afasta que vos engulo!
Porém jacaré fastou? nem tacho! O gigante caiu na macarronada
fervendo e subiu no ar um cheiro tão forte de couro cozido que matou
todos os ticoticos da cidade e o herói teve uma sapituca. Piaimã se
debateu muito e já estava morre-não-morre. Num esforço gigantesco
inda se ergueu no fundo do tacho. Afastou os macarrões que corriam
na cara dele, revirou os olhos pro alto, lambeu a bigodeira:
— Falta queijo! exclamou… E faleceu.
Este foi o fim de Venceslau Pietro Pietra que era o gigante Piaimã
comedor de gente.
Macunaíma quando voltou da sapituca foi buscar a muiraquitã e
partiu na máquina bonde pra pensão. E chorava gemendo assim:
— Muiraquitã, muiraquitã de minha bela, vejo você mas não vejo
ela!…

XV
A PACUERA DE OIBÊ
Então os três manos voltaram pra querência deles.
Estavam satisfeitos porém o herói inda mais contente que os outros
porque tinha os sentimentos que só um herói pode ter: uma satisfa
imensa. Partiram. Quando atravessaram o pico do Jaraguá Macunaíma
virou pra trás contemplando a cidade macota de São Paulo. Maginou
sorumbático muito tempo e no fim sacudiu a cabeça murmurando:
— Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são…
Enxugou a lágrima, consertou o beicinho tremendo. Então fez um
caborge: Sacudiu os braços no ar e virou a taba gigante num bicho
preguiça todinho de pedra. Partiram.
Depois de muito refletir, Macunaíma gastara o arame derradeiro
comprando o que mais o entusiasmara na civilização paulista.
Estavam ali com ele o revólver Smith-Wesson o relógio Pathek e o
casal de galinha Legorne. Do revólver e do relógio Macunaíma fizera
os brincos das orelhas e trazia na mão uma gaiola com o galo e a
galinha. Não possuía mais nem um tostão do que ganhara no bicho
porém lhe balangando no beiço furado pendia a muiraquitã.
E por causa dela tudo ficara mais fácil. Desciam de rodada o
Araguaia e quando Jiguê remava Maanape manejava o joão-de-pau.
Se sentiam marupiaras outra vez. Pois então Macunaíma adestro na
proa tomava nota das pontes que carecia construir ou consertar pra
facilitar a vida do povo goiano. Noite chegada, enxergando as luzinhas
dos afogados sambando manso nas ipueiras da cheia, Macunaíma
olhava olhava e adormecia bem. Acordava esperto no outro dia e
erguido na proa da igarité com o argolão da gaiola enfiado no braço
esquerdo, repinicava na violinha botando a boca no mundo cantando
saudades da querência, assim:
Antianti é tapejara,
— Pirá-uauau,
Ariramba é cozinheira,
— Pirá-uauau,
Tapera, onde a tapera. Da beira do Uraricoera?
— Pirá-uauau.
E o olhar dele espichando espichando descia a pele do rio em
busca dos pagos da infância. Descia e cada cheiro de peixe cada moita
de craguatá cada tudo punha entusiasmo nele e o herói botava a boca
no mundo feito maluco fazendo emboladas e traçados sem sentido:
Tapera tapejara,
— Caboré,
Arapaçu passoca,
— Caboré,
Manos, vamos-se embora
Pra beira do Uraricoera!
— Caboré!
As águas araguaias murmurejavam chamando a reta da igarité com
gemidinho e lá do longe vinha a cantiga pequenta das uiaras. Vei, a
Sol, dava lambadas no costado relumeando suor de Maanape e Jiguê
remeiros e no cabeludo corpo em pé do herói. Era um calorão
molhado fazendo fogo no delírio dos três. Macunaíma se lembrou que
era imperador do Mato-Virgem. Riscou um gesto na Sol, gritando:
— Eropita boiamorebo!
Logo o céu se escurentou de sopetão e uma nuvem ruivor subiu do
horizonte entardecendo a calma do dia. A ruivor veio vindo veio vindo
e era o bando de araras vermelhas e jandaias, todos esses faladores,
era o papagaio-trombeta era o papagaio-curraleiro era o periquito
cutapado era o xarã o peito-roxo o ajuru-curau o ajuru-curica arari
ararica araraúna araraí araguaí arara-taua maracana maitaca ararapiranga catorra teriba camiranga anaca anapura canindés tuins
periquitos, todos esses, o cortejo sarapintado de Macunaíma imperador. E todos esses faladores formaram uma tenda de asas e de
gritos protegendo o herói do despeito vingarento da Sol. Era uma
bulha de águas deuses e passarinhos que nem se escutava mais nada e
a igarité meio parava atordoada. Mas Macunaíma assustando os
legornes riscava de quando em vez um gesto diante de tudo e gritava:— Era uma vez uma vaca amarela, quem falar primeiro come a
bosta dela! Dem-de-lem chegou!
O mundo ficava mudo não falando um isto e o silêncio vinha
amulegar a mornidão da sombra na igarité. E se escutava lá no longe
lá no longe baixinho baixinho o ruidejar do Uraricoera. Então dava
mais entusiasmo no herói. A violinha repinicava tremida. Macunaíma
pigarreava atirando gusparadas no rio e enquanto o guspe afundava
transformado em mata-matás nojentos, o herói botava a boca no
mundo feito maluco sem nem saber o que cantava, assim:
Panapaná pá-panapaná,
Panapaná pá-panapanema:
Papa de papo na popa,
— Maninha,
Na beira do Uraricoera!
Depois a bôca-da-noite engoliu todas as bulhas e o mundo
adormeceu. Tinha só Capei, a Lua, enorme de gorda, rechonchuda
que-nem cara das polacas depois duma noite daquelas, puxavante!
quanta sacanagem feliz quanta cunha bonita e quanto cachiri… Então
Macunaíma teve saudades do sucedido na taba grande paulistana. Viu
todas aquelas donas de pele alvinha com quem brincara de marido e
mulher, foi tão bom!… Sussurrou docemente: “Mani! Mani! filhinhas
da mandioca!” … Deu um tremor comovido no beiço dele que quase a
muiraquitã cai no rio. Macunaíma tornou a enfiar o tembetá no beiço.
Então pensou muito sério na dona da muiraquitã, na briguenta, na
diaba gostosa que batera tanto nele, Ci. Ah! Ci, Mãe do Mato,
marvada que tornara-se inesquecível porque fizera ele dormir na rede
tecida com os cabelos dela!… “Quem tem seus amores longe, passa
trabalhos trianos…” parafusou. Quê caborge da marvada!… E estava lá
no campo do céu banzando nuns trinques toda enfeitada passeando
brincando quem sabe com quem… Teve ciúmes. Ergueu os braços pro
alto assustando os legornes e rezou pro Pai do Amor:
Rudá! Rudá!
Tu que estás no céuE mandas nas chuvas.
Rudá! faz com que minha amada
Por mais companheiros que arranje
Ache que todos são frouxos!
Assopra nessa marvada
Sodades do seu marvado!
Faz com que ela se lembre de mim amanhã
Quando a Sol for-se embora no poente !…
Olhou bem pro ar. Não tinha Ci não, Capei só, gordanchona,
tomando tudo. O herói deitou de comprido na igarité, fez um
cabeceiro da gaiola e adormeceu entre maruins piuns muriçocas.
A noite já estava amarelando quando Macunaíma acordou com os
gritos dos viras num bambuzal. Assuntou a vista e deu um pulo na
praia, falando pra Jiguê:
— Espera um bocadinho.
Entrou no mato bem, légua e meia. Foi buscar a linda Iriqui,
companheira dele que já fora companheira de Jiguê e esperava se
enfeitando e cocando mucuim assentada nas raízes da samaúma. Os
dois se festejaram, muito brincaram e vieram pra igarité.
Quando foi ali pelo meio-dia a papagaiada se estendeu de novo
resguardando Macunaíma. E assim por muitos dias. Uma tarde o herói
estava muito enfarado e se lembrou de dormir em terra firme, fez.
Nem bem pisou na praia e se ergueu na frente dele um monstro. Era o
bicho Ponde um jucurutu do Solimões que virava gente de-noite e
engolia os estradeiros. Porém Macunaíma pegou na flecha que tinha
na ponta a cabeça chata da formiga santa chamada curupê e nem fez
pontaria, acertou que foi uma beleza. O bicho Ponde estourou virando
coruja. Mais pra diante depois de atravessado um chato quando subia
por um espigão cheio de crocas topou com o Monstro Mapinguari
macaco-homem que anda no mato fazendo mal pràs moças. O
monstro agarrou Macunaíma porém o herói tirou o toaquiçu pra fora e
mostrou pro Mapinguari.
— Não confunde não, parceiro!
O monstro riu e deixou Macunaíma passar. O herói andou légua e
meia procurando um pouso sem formiga. Subiu na ponta dum cumaru de quarenta metros e afinal depois de muito campear descobriu uma
luzinha longe. Foi lá e topou com um rancho. E era o rancho de Oibê.
Macunaíma bateu e uma vozica mui doce gemeu de lá dentro:
— Quem vem lá!
— É de paz!
Então a porta se abriu e apareceu um bicho tamanho que
sarapantou o herói. Era o monstro Oibê o minhocão temível. O herói
sentiu friagem por dentro mas se lembrou do smith-wesson, criou
coragem e pediu pousada.
— Entre que a casa é sua.
Macunaíma entrou, sentou numa canastra e ficou assim. Afinal
perguntou:
— Vamos conversar?
— Vamos.
— Sobre o quê?
Oibê cocou a barbicha matutando e de repente descobriu satisfeito:
— Vamos conversar porcaria?
— Chi! gosto disso que é um horror! o herói exclamou:
E conversaram uma hora de porcariada.
Oibê estava cozinhando a comidinha dele. Macunaíma não tinha
fome nenhuma porém botou a gaiola no chão e só de embusteiro
esfregando a mão na barriga fez:
— Juque! Oibê resmungou:
— Que é isso, gente!
— É fome é fome!
Oibê pegou numa gamela, botou cará com feijão dentro, encheu
uma cuia com farinha-d’água e ofereceu pro herói. Mas não deu nem
um tiquinho de pacuera assando no espeto de canela de sassafrás e
aromando bem. Macunaíma engoliu tudo sem mastigar e não tinha
fome nenhuma porém a boca dele ficou cheia de água por causa da
pacuera assando. Esfregou a mão na barriga e fez: .
— Juque!
Oibê resmungou:
— Que é isso, gente!
— É sede é sede!Oibê pegou no balde e foi buscar água no poço. Enquanto ia,
Macunaíma tirou a canela de sassafrás das brasas engoliu a pacuera
inteira sem mastigar e ficou bem sossegado esperando. Quando o
minhocão trouxe o balde Macunaíma bebeu um coco cheio. Depois se
espreguiçando suspirou:
— Juque!
O monstro se sarapantou:
— Que mais que é, gente!
— É sono é sono!
Então Oibê levou Macunaíma pro quarto-de-hóspedes deu boanoite e fechou a porta por fora. Foi cear. Macunaíma botou a gaiola
num canto, cobrindo o casal de galinhas com umas chitas. Assuntou o
quarto bem. Tinha uma bulhinha sem parada vinha de todos os lados.
Macunaíma bateu a pedra do isqueiro e viu que eram baratas. Trepou
assim mesmo na rede não sem espiar mais uma vez si não faltava nada
prós legornes. O casal estava até bem satisfeito comendo barata.
Macunaíma se riu pra ele, arrotou e adormeceu. Daí a pouco estava
coberto de baratas lambendo.
Quando Oibê pôs reparo que Macunaíma tinha comido a pacuera,
teve raiva. Agarrou num sininho, se embrulhou num lençol branco e
foi fazer assombração pro hóspede. Mas era só de brincadeira. Bateu
na porta e manejou o sininho, de-lem!
— Oi?
— Vim buscar minha pacuera-cuera-cuera-cuera-cuera, de-lem!
Abriu a porta. Quando o herói enxergou a assombração ficou com
tanto medo que nem se mexeu. Ele não sabia que era Oibê não. A
fantasma vinha vindo:
— Vim buscar minha pacuera-cuera-cuera-cuera cuera, de-lem!
Então Macunaíma percebeu que não era assombração nada, era
mas o monstro Oibê minhocão temível. Criou coragem pegou no
brinco da orelha esquerda que era a máquina revólver e deu um tiro na
assombração. Porém Oibê não fez caso e veio vindo. O herói tornou a
ter medo. Pulou da rede agarrou a gaiola e escafedeu pela janela,
jogando baratas no caminho todo. Oibê correu atrás. Mas era só de
brincadeira que ele queria comer o herói. Macunaíma desembestara
agreste fora mas isso ia que ia acochado pelo minhocão. Então botou o furabolo na goela, fez cosquinha e lançou a farinha engolida. A
farinha virou num areão e enquanto o monstro pelejava pra atravessar
aquele mundo de areia escorregando, Macunaíma fugia. Tomou pela
direita, desceu o morro do Estrondo que soa de sete em sete anos
seguiu por uns caponetes e depois de cortar um travessão encapelado
fez o Sergipe de ponta a ponta e parou ofegando num agarrado muito
pedregoso. Na frente havia uma lapa grande furada por uma furna com
um altarzinho dentro. Na boca da socava um frade. Macunaíma
perguntou pro frade:
— Como se chama o nome de você?
O frade pôs no herói uns olhos frios e secundou com pachorra:
— Eu sou Mendonça Mar pintor. Desgostoso da injustiça dos
homens faz três séculos que afastei-me deles metendo cara no sertão.
Descobri esta gruta ergui com minhas mãos este altar do Bom Jesus da
Lapa e vivo aqui perdoando gente mudado em frei Francisco da
Soledade.
— Está bom, Macunaíma falou. E partiu na chispada.
Mas o terreno era cheio de socavas e logo adiante estava outro
desconhecido fazendo um gesto tão bobo que Macunaíma parou
sarapantado. Era Hercules Florence. Botara um vidro na boca duma
furna mirim, tapava e destapava o vidro com uma folha de taioba.
Macunaíma perguntou:
— Ara, ara ara! Mas você não me dirá o quê que está fazendo aí,
siô!
O desconhecido virou pra ele e com os olhos relumeando de
alegria falou:
— Gardez cette date: 1927! Je viens d’inventer Ia photographie!
Macunaíma deu uma grande gargalhada.
— Chi! Isso já inventaram que anos, siô! Então Hercules Florence
caiu estuporado sobre a folha de taioba e principiou anotando com
música uma memória científica sobre o canto dos passarinhos. Estava
maluco. Macunaíma chispou.
Depois que correu légua e meia olhou pra trás e viu que Oibê já
vinha perto. Botou o furabolo na goela e lá foi pro chão todo o cará
engolido que virou num tartarugal mexemexendo. Oibê custou pra
virar aquela imundície de tartaruga e Macunaíma fugiu. Légua e meia adiante olhou pra trás. Isso Oibê vinha na cola dele. Então tornou a
botar o furabolo na goela e lançou que era só feijão e água. Tudo virou
num lamedo cheio de sapos-bois e quanto Oibê se debatia atravessando aquilo, o herói catava umas minhocas pras galinhas e partia
afobado. Ganhou muita dianteira e parou pra descansar. Ficou bem
admirado porque tinha corrido tanto que estava outra feita na porta do
rancho de Oibê. Resolveu se esconder no pomar. Tinha um pé de
carambola e Macunaíma principiou arrancando ramos do caramboleiro
pra se amoitar por debaixo. Os ramos cortados agarram pingando água
de lágrima e se escutou o lamento do caramboleiro:
Jardineiro de meu pai,
Não me, cortes meus cabelos,
Que o malvado me enterrou
Pelo figo da figueira
Que passarinho comeu…
— Chó, chó, passarinho!
Todos os passarinhos choraram de pena gemida nos ninhos e o
herói gelou de susto. Agarrou no patuá que trazia entre os berloques
do pescoço e traçou uma mandinga. O caramboleiro virou numa
princesa muito chique. O herói teve um desejo danado de brincar com
a princesa porém Oibê já devia de estar estourando por aí. De-fato:
— Vim buscar minha pacuera-cuera-cuera-cuera-cuera, de-lem!
Macunaíma deu a mão pra princesa e fugiram na disparada. Mais
adiante havia uma figueira com a sapopemba enorme. Oibê estava já
no calcanhar deles e Macunaíma não tinha tempo mais pra nada.
Então se meteu com a princesa no buraco da sapopemba. Mas o
minhocão enfiou o braço e inda agarrou a perna do herói. Ia puxar mas
Macunaíma deu uma grande gargalhada de experiência e falou:
— Você está maginando que pegou minha gâmbia, pegou não!
Isso é raiz, bocó!
O minhocão largou. Macunaíma gritou:
— Pois era a perna mesmo bocó-de-mola!Oibê tornou a enfiar o braço mas o herói já, tinha encolhido a
perna e o minhocão só achou raiz. Tinha uma garça perto. Oibê falou
pra ela:
— Comadre garça, bote sentido no herói. Não deixa ele sair que
vou buscar uma enxada pra cavar.
A garça ficou guardando. Quando Oibê já estava longe
Macunaíma falou pra ela:
— Então, sua palerma, é assim que se bota sentido num herói!
Fique bem perto arregalando os olhos!
A garça fez. Então Macunaíma atirou um punhado de formigas-defogo nos olhos dela e enquanto a garça gritava de cega ele saiu do
buraco com a princesa e escafederam outra vez. Perto de Santo
Antônio do Mato Grosso toparam com uma bananeira e estavam
morrendo de fome. Macunaíma falou pra princesa:
— Assobe, come as verdes que são boas e atira as amarelas pra
mim.
Ela fez. O herói se fartou enquanto a princesa dançava de eólicas
pra ele apreciar. Oibê já vinha chegando e eles desataram o punho da
rede outra vez.
Depois de correrem mais légua e meia, enfim chegaram num firme
pontudo do Araguaia. Porém a igarité estava abicada bem mais pra
baixo na outra margem com Maanape Jiguê a linda Iriqui, todos esses
companheiros dormindo. Macunaíma olhou pra trás. Oibê quase ali.
Então botou o furabolo na goela pela última vez, fez cosquinha e
alojou a pacuera n’água. A pacuera virou num periantã muito fofo de
ervas. Macunaíma botou a gaiola com jeito no fofo, atirou a princesa
lá e dando um arranco na margem com o pé, afastou da praia o
periantã que as águas levaram. Oibê chegou mas os fugitivos iam
longe. Então o minhocão que era um lobisomem famoso principiou
tremelicando criou rabo e virou cachorro-do-mato. Escancarou a goela
desencantada e saiu da barriga dele uma borboleta azul. Era alma de
homem presa no corpo do lobo por artes do Carrapatu medonho que
pára na gruta do Iporanga.
Macunaíma e a princesa brincando desciam a corrente do rio.
Agora estão se rindo um pro outro.Quando passaram rente da igarité os manos se acordaram com os
gritos de Macunaíma e foram atrás. Iriqui ficou logo enciumada
porque o herói não queria saber mais dela e só brincava com a
princesa. E pra ver si reconquistava o herói abriu num bué famoso.
Jiguê teve logo muita pena dela e falou pra Macunaíma ir brincar com
Iriqui um poucadinho. Jiguê era muito bobo. Mas o herói que já
andava impinimando com Iriqui secundou pra ele:
— Iriqui é muito relambória, mano, mas a princesa, upa! Não dê
credito pra Iriqui não! Oi que Sol de inverno chuva de verão choro de
mulher palavra de ladrão, eieiei… ninguém não caia não!
E foi brincar com a princesa. Iriqui ficou triste triste, bem triste,
chamou seis araras canindés e subiu com elas pro céu, chorando luz
virada numa estrela. As canindés amarelinhas também viraram
estrelas. É o Setestrêlo.

XVI
URARICOERA
NO outro dia Macunaíma amanheceu com muita tosse e uma
febrinha sem parada. Maanape desconfiou e foi fazer um cozimento de
broto de abacate, imaginando que o herói estava hético. Em vez era
impaludismo, e a tosse viera só por causa da laringite que toda a gente
carrega de São Paulo. Agora Macunaíma passava as horas deitado de
borco na proa da igarité e nunca mais que havia de sarar. Quando a
princesa não podia mais e vinha pra brincarem, o herói até uma vez
recusou suspirando:
— Ara… que preguiça…
No outro dia atingiram as cabeceiras dum rio e escutaram perto o
ruidejar do Uraricoera. Era ali. Um passarinho serigaita trepado na
munguba, enxergando o farrancho gritou logo:
— Sinhá dona do porto, dá caminho pra mim passar!
Macunaíma agradeceu feliz. De pé ele assuntava a paisagem
passando. Veio vindo o forte São Joaquim erguido pelo mano do
grande Marquês. Macunaíma deu um té-logo pro cabo e pro soldado
que só possuíam um naco esfarrapado de culote e o boné na cabeça e
viviam guardando as saúvas dos canhões. Afinal ficou tudo
conhecidíssimo. Se enxergou o cerro manso que fora mãe um dia, no
lugar chamado Pai da Tocandeira, se enxergou o pauê trapacento
malhado de vitórias-régias escondendo os puraquês e os pitiús e pra
diante do bebedouro da anta se viu o roçado velho agora uma tigüera e
a maloca velha agora uma tapera. Macunaíma chorou.
Abicaram e entraram na tapera. Vinha a bôca-da-noite. Maanape
com Jiguê resolveram fazer uma facheada pra pegarem algum peixe e
a princesa foi ver si topava com algum arezi pra comerem. O herói
ficou descansando. Estava assim quando sentiu no ombro um peso de
mão. Virou a cara e olhou. Junto dele estava um velho de barba. O
velho falou:
— Quem és tu, nobre estrangeiro?
— Não sou estranho não, conhecido. Sou Macunaíma o herói e
vim parar de novo na terra dos meus. Você quem é?
O velho afastou os mosquitos com amargura e secundou:— Sou João Ramalho.
Então João Ramalho enfiou dois dedos na boca e assoviou.
Apareceram a mulher dele as quinze famílias de escadinha. E lá
partiram de mudança buscando pagos novos sem ninguém.
No outro dia bem cedinho foram todos trabucar. A princesa foi no
roçado Maanape foi no mato e Jiguê foi no rio. Macunaíma se
desculpou, subiu na montaria e deu uma chegadinha até a boca do rio
Negro pra buscar a consciência deixada na ilha de Marapatá. Jacaré
achou? nem ele. Então o herói pegou na consciência dum
hispanoamericano, botou na cabeça e se deu bem da mesma forma.
Passava uma piracema de jaraquis. Macunaíma agarrou pescando e
distraído distraído quando viu estava em Óbidos, a montaria cheinha
de peixes frescos. Mas o herói foi obrigado a atirar tudo fora porque
em Óbidos “quem come j ar aqui fica aqui” falam e ele tinha que
voltar pro Uraricoera. Voltou e como era ainda o pino do dia deitou na
sombra da ingazeira catou os carrapatos e dormiu. Tarde chegando
todos voltaram pra tapera só Macunaíma não. Os outros saíram pra
esperar. Jiguê se acocorou botando a orelha no chão pra ver si
escutava o passinho do herói, nada. Maanape trepou no grelo duma
inajá pra ver si enxergava o brilho dos brincos do herói, nada. Então
saíram por mato e capoeira gritando:
— Macunaíma, nosso mano!…
Nada. Jiguê chegou debaixo da ingazeira e gritou:
— Nosso mano!
— Que foi!
— Você, aposto que já estava dormindo!
— Dormindo nada, então! Estava mas era negaceando um inambuguaçu. Você fez bulha, nhambu escapoliu!
Voltaram. E assim todos os dias. Os manos andavam muito
desconfiados. Macunaíma percebeu e disfarçou bem:
— Eu caço porém não acho nada não. Jiguê nem caça nem pesca,
passa o dia dormindo.
Jiguê teve raiva porque peixe andava rareando e caça inda mais.
Foi na praia do rio pra ver si pescava alguma coisa e topou com o
feiticeiro Tzaló que tem uma perna só. O catimbozeiro possuía uma
cabaça encantada feita com a metade duma casca de gerimum. Mergulhou a cabaça no rio, encheu de água até o meio e despejou na
praia. Caiu um despropósito de peixe. Jiguê reparou bem como que o
feiticeiro fazia. Tzaló largou da cabaça por aí e principiou matando
peixe com um porrete. Então Jiguê roubou a cabaça do feiticeiro Tzaló
que tem uma perna só.
Mais pra diante fez que-nem tinha reparado e veio muito peixe,
veio pirandira veio pacu veio cascudo veio bagre jundiá tucunaré,
todos esses peixes e Jiguê voltou carregado pra tapera depois de
esconder a cabaça na raiz do cipó. Todos ficaram sarapantados com
aquele mundo de peixe e comeram bem. Macunaíma desconfiou.
No outro dia esperou com o olho esquerdo dormindo que Jiguê
fosse pescar, saiu atrás. Descobriu tudo. Quando o mano foi-se
embora Macunaíma largou da gaiola com os legornes no chão pegou
na cabaça escondida e fez que-nem o mano. Isso vieram muitos
peixes, veio acará veio piracanjuba veio aviú guri-juba, piramutaba
mandi surubim, todos esses peixes. Macunaíma atirou a cabaça por aí,
na pressa de matar todos os peixes, cabaça caiu numa lapa e juque!
mergulhou no rio. Passava a pirandira chamada Padzá. Imaginou que
era abobra e engoliu a cabaça que virou na beixiga de Padzá. Então
Macunaíma enfiou a gaiola no braço voltou pra tapera e contou o
sucedido. Jiguê teve raiva.
— Cunhada princesa, eu que pesco, seu companheiro fica
dormindo em baixo da ingazeira e inda atrapalha os outros!
— Mentira!
— Então o que você fez hoje?
— Cacei viado.
— Quê-dele ele!
— Comi, uai! Fui andando por um caminho, vai, topei rasto dum…
catingueiro não era não mas era mateiro. Me agachei e fui no rasto.
Olhando olhando, sabe, dei uma cabeçada numa coisa mole, que
engraçado! sabem o que era! pois a bunda do viado, gente!
(Macunaíma deu uma grande gargalhada). Viado perguntou pra mim:
— Que está fazendo aí, parente!, — Te campeando! secundei. E vai,
matei o catingueiro que comi com tripa e tudo. Vinha trazendo um
naco pra vocês, vai, escorreguei atravessando o ipu, dei um tombo,
naco foi parar longe e tanajura sujou nele.A peta era tamanha que Maanape desconfiou. Maanape era
feiticeiro. Chegou bem rente do mano e perguntou:
— Você foi na caça?
— Quer dizer… fui sim.
— O quê você caçou?
— Viado.
— Qual!
Maanape fez um grande gesto. O herói piscou de medo e
confessou que tudo era lorota.
No outro dia Jiguê estava procurando a cabaça quando topou com
o tatu-canastra feiticeiro chamado Caicãe que nunca teve mãe. Caicãe
sentado na porta da toca puxou a violinha dele feita com a outra
metade da abobra encantada e agarrou cantando assim:
“Vote vote coandu!
Vote vote cuati!
Vote vote taiçu!
Vote vote pacari!
Vote vote canguçu!
Êh!…”
Assim. Vieram muitas caças. Jiguê, reparando. Caicãe atirou a
violinha encantada por aí, pegou num porrete e foi matar todo aquele
poder de caças que estavam feito bobas. Então Jiguê roubou a violinha
do feiticeiro Caicãe que nunca teve mãe.
Mais pra diante cantou que nem tinha escutado e veio um dilúvio
de caça parando na frente dele. Jiguê voltou carregado pra tapera
depois de esconder a violinha na raiz de outro cipó. Todos tornaram a
se espantar e comeram bem. Macunaíma tornou a desconfiar.
No outro dia esperou com o olho esquerdo dormindo que Jiguê
partisse, foi atrás. Descobriu tudo. Quando o mano voltou pra tapera
Macunaíma pegou na violinha, fez talequal reparara e veio uma
imundície de caça, viados cotias tamanduás capivaras tatus aperemas
pacas graxains lontras muçuãs catetos monos tejus queixadas antas, a
anta sabatira, onças, a onça pinima a papa-viado a jaguatirica,
suçuarana canguçu pixuna, isso era uma imundície de caças! O herói teve medo daquela bicharada tamanha e saiu numa carreira mãe
pinchando a violinha longe. A gaiola enfiada no braço dele ia batendo
nos paus e o galo com a galinha faziam um cacarejo de ensurdecer. O
herói imaginava que era a bicharia e disparava mais.
A violinha caiu no dente de um queixada que tinha umbigo nas
costas e se partiu em dez vezes dez pedaços que os bichos engoliram
pensando que era gerimum. Os pedaços viraram nas bexigas das
caças.
O herói estourou tapera a dentro feito um desesperado botando os
bofes pela boca. Nem bem pôde respirar contou o sucedido. Jiguê teve
ódio e falou:
— Agora que não caço nem pesco mais!
E foi dormir. Todos principiaram curtindo fome. Bem que pediam
porém Jiguê pulava na rede e fechava os olhos. O herói jurou
vingança. Fingiu um anzol com presa de sucuri e falou pro feitiço:
— Anzol de mentira, si mano Jiguê vier experimentar você, então
entra na mão dele.
Jiguê não podia dormir de tanta fome e enxergando o anzol falou
pro mano:
— Mano, esse anzol é bom?
— Xispeteó! Macunaíma fez e continuou limpando a gaiola.
Jiguê decidiu ir numa pescaria porque estava mesmo curtindo
fome, falou:
— Deixa ver si anzol é bom.
Pegou no feitiço e experimentou na palma da mão. O dente de
sucuri entrou na pele e despejou todo o veneno lá. Jiguê correu pro
matinho e bem que mastigou e engoliu maniveira, não vale de nada.
Então foi buscar uma cabeça de anhuma que fora encostada em picada
de cobra. Pôs na mão. Não valeu de nada. Veneno virou numa ferida
leprosa e principiou comendo Jiguê. Primeiro comeu um braço depois
metade do corpo depois as pernas depois a outra metade do corpo
depois o outro braço depois o pescoço e a cabeça. Só ficou a sombra
de Jiguê.
A princesa teve ódio. É que ela andava ultimamente brincando
com Jiguê. Macunaíma bem que percebeu porém imaginou: “Plantei
mandioca nasceu maniva, de ladrão de casa ninguém se priva, paciên-cia! …” E tinha encolhido os ombros. A princesa raivosa falou pra
sombra:
— Quando o herói for passear de fome você vira num cajueiro
numa bananeira e num churrasco de viado.
A sombra era envenenada por causa da lepra e a princesa queria
matar Macunaíma.
No outro dia o herói acordou com tanta fome que foi espairecer
passeando. Topou com um cajueiro cheio de frutas. Quis comer porém
presenciou que era a sombra leprosa e passou adiante. Légua e meia
depois topou com um churrasco de viado fumegando. Já estava roxo
de fome porém pôs reparo que o churrasco era a sombra leprosa e
passou adiante. Légua e meia depois topou com uma bananeira
carregadinha de pencas maduras. Mas agora o herói já estava que
vinha vesgo de tanta fome. A vesgueira fez ele enxergar dum lado a
sombra do mano e do outro a bananeira.
— Arre que posso comer! fez.
E devorou todas as pencas. E as bananas eram a sombra leprosa do
mano Jiguê. Macunaíma ia morrer. Então se lembrou de passar a
doença nos outros pra não morrer sozinho. Pegou numa formiga saúva
e esfregou bem ela na ferida do nariz, formiga já foi gente que nem
nós e a saúva ficou leprosa. Então o herói agarrou a formiga jaguataci
e fez o mesmo. Jaguataci ficou leprosa também. Então foi a vez da
formiga aqueque devoradora de sementes e da formiga guiquém, da
formiga tracuá e da formiga mumbuca bem preta, todas ficaram
leprosas. Não tinha mais formigas em redor do herói sentado. Ele
ficou com preguiça de estender o braço porque já estava moribundo.
Esperou a visita da saúde, criou força e pegou no mosquito birigüi
mordendo o joelho dele. Passou a doença no mosquito birigüi. Por
isso que agora quando esse mosquito morde a gente, entra na pele,
atravessa o corpo e sai do outro lado enquanto o furinho de entrada
vira na bereva medonha chamada chaga-de-Bauru.
Macunaíma tinha passado a lepra em sete outras gentes e ficou são
no sufragante, voltando pra tapera. A sombra de Jiguê conferiu que o
herói era muito inteligente e quis voltar desesperada pra junto da
família. Era já de-noite e se confundindo com a escureza a sombra não
achava mais o caminho perto. Sentou numa pedra e berrou:— Foguinho, cunhada princesa!
A princesa coxeando muito porque estava doente de zamparina
veio com um tição aluminando caminho. A sombra engoliu o fogo e a
cunhada. Berrou de novo:
— Foguinho, mano Maanape!
Maanape veio logo com outro tição alumiando caminho. E se
arrastava molengo porque barbeiro chupara sangue dele e Maanape
estava opilado. A sombra engoliu fogo e mano Maanape. Berrou:
— Foguinho, mano Macunaíma!
Queria engolir o herói também mas Macunaíma percebendo o que
sucedera pro mano e pra companheira
encostou a porta e ficou bem quieto na tapera. A sombra pedia
foguinho, pedia porém não recebendo resposta se lastimou até
madrugada”. Então Capei apareceu iluminando a terra e a leprosa
pôde chegar na tapera. Sentou na cangerana da soleira e esperou o dia
pra se vingar do mano.
De-manhã inda estava acocorada ali. Macunaíma acordou e
escutou. Não se ouvia nada e ele concluiu: — Arre! Foi-se!
E saiu passear. Quando passou pela porta a sombra trepou no
ombro dele. O herói não maliciou nada. Estava padecendo de fome
porém a sombra não. deixava ele comer. Tudo o que Macunaíma
pegava ela engolia, tamorita mangarito inhame biribá cajuí guiambê
guacá uxi ingá bacuri cupuaçu pupunha tape-rebá graviola
grumixama, todas essas comidas do mato. Então Macunaíma foi
pescar porque agora não tinha mais ninguém que pescasse pra ele não.
Mas cada peixe que tirava do anzol e jogava no paneiro, a sombra
pulava do ombro, engolia o peixe e voltava pro poleiro outra vez. O
herói matutou: “Deixa estar que te arranjo!” Quando peixe pegou,
Macunaíma fez um esforço heróico, deu um bruto arranco na vara de
formas que o impulso fez o peixe ir parar lá na Guiana. A sombra
correu atrás do peixe. Então Macunaíma gavionou mato fora no
sentido oposto. Quando a sombra voltou, não achando mais o mano
disparou no rasto dele. Depois de correr um pouco, atravessar a terra
dos índios tatus-brancos e pegar um susto tamanho que passou sem
pedir licença entre a sombra de Jorge Velho e a sombra do Zumbi que
estavam discutindo, o herói fatigadíssimo, olhou pra trás e viu que a sombra já vinha chegando. Estava na Paraíba e tão sem vontade de
chispar que parou. Era por causa do herói estar impaludado. Perto
havia uns trabalhadores destruindo formigueiros para construir um
açude. Macunaíma pediu água pra eles. Não tinha nem gota porém
deram raiz de umbu. O herói matou a sede dos legornes, agradeceu e
gritou:
Diabo leve quem trabalha!
Os trabalhadores estumaram a cachorrada no herói. Isso mesmo
que ele queria porque teve medo e chispou bem. Na frente abria a
estrada das boiadas. Macunaíma isso vinha que vinha acochado pela
sombra, nem turtuveou: meteu pelo estradão. Mais adiante estava
dormindo um boi malabar chamado Espácio que viera do Piauí. O
herói deu um trompaço nele de tanta fúria. Isso o boi saiu numa
galopada louca de susto e lá foi cego manadeiro abaixo. Então
Macunaíma quebrou por uma picada sem jeito e se amoitou por debaixo dum mucumuco. A sombra escutava a bulha do marruá
galopeando e imaginou que era Macunaíma, foi atrás. Alcançou o boi
e pra não perder a pernada fez poleiro no costado dele. E cantava
satisfeita:
“Meu boi bonito,
Boi Alegria,
Dá um adeus
Pra toda a família!
ôh… êh bumba,
Folga meu boi!
Ôh… êh bumba,
Folga meu boi!”
Porém nunca mais que o boi pôde comer, a sombra engolia tudo
antes do bicho. Então o marruá foi ficando jururu ficando jururu
magruço e lerdo. Quando passou pelo rincão chamado Água Doce
perto de Guarapes, o boi mirou sarapantado bem no meio do areão a
vista linda, um laranjal cheio de sombra com a galinha ciscando por
baixo. Era sinal de morte… A sombra desenganada cantava agora:
“Meu boi bonito,Boi desengano,
Dá um adeus,
Até para o ano!
– ôh.-.. êh bumba,
Folga meu boi!”
ôh… êh bumba,
Folga meu boi!
No outro dia o marruá estava morto. Foi esverdeando
esverdeando… A sombra muito penarosa se consolava cantando assim:
“O meu boi morreu,
Quê será de mim?
Manda buscar outro,
— Maninha,
Lá no Bom Jardim…”
E o Bom Jardim era uma estância do Rio Grande do Sul. Então
veio vindo uma giganta que gostava de brincar com o marruá. Viu o
boi morto,-chorou bem e quis levar o cadáver pra ela.
A sombra teve raiva e cantou:
“Arretira-te, giganta,
Que o caso está perigoso!
Quem se arretirou amante
az ação de generoso!”
A giganta agradeceu e foi-se embora dançando. Então passou por
ali o indivíduo chamado Manuel da Lapa carregado de folha de
cajueiro e de rama de algodão. A sombra saudou o conhecido:
“Seu Manué que vem do Açu,
Seu Manué que vem do Açu,
Vem carregadinho de folha de caju!
Seu Manué que vem do sertão, Seu Manué que vem do sertão,
Vem carregadinho de rama de algodão!”
Manuel da Lapa ficou muito concho com a saudação e pra
agradecer dançou um sapateado e cobriu o cadáver com a folha de
caju e a rama de algodão.
O velho já estava tirando a noite do buraco e a sombra toda
confundida não via mais o boi debaixo dos flocos e da folhagem.
Principiou dançando à procura dele. Um vaga-lume se admirou
daquilo e cantou perguntando:
“Linda pastorinha
Que fazeis aqui?”
“Vim buscar meu gado,
Maninha,
Que eu aqui perdi”.
Foi como a sombra secundou cantando. Então o vaga-lume
dançando voou do tronco pra baixo e mostrou o boi pra sombra. Ela
trepou na barriga verde do morto e ficou chorando ali.
No outro dia o boi estava podre. Então vieram muitos urubus, veio
o urubu-camiranga, veio o urubu-jeregua o urubu-peba o urubuministro o urubu-tinga que só come olhos e língua, todos esses
cabeças-peladas e principiaram dançando de contentes. O mai&
grande puxava a dança cantando:
“Urubu é passo feio feio feio!
Urubu é passo limpo limpo limpo”!
E era o urubu-ruxama, urubu-rei, o Pai do Urubu. Então mandou
um urubuzinho piá entrar dentro do boi para ver si já estava bem
podre. O urubuzinho fez. Entrou por uma porta e saiu por outra
dizendo que sim e todos fizeram a festa juntos dançando e cantando:
“Meu boi bonito,
Boi Zebedeu,
Corvo avoando, Boi que morreu.
Ôh… êh bumba,
Folga meu boi!
Ôh… êh bumba,
Folga meu boi!”
E foi assim que inventaram a festa famanada do Bumba-meu-Boi,
também conhecida por Boi-Bumbá.
A sombra teve raiva de estarem comendo o boi dela e pulou no
ombro do urubu-ruxama. O Pai do Urubu ficou muito satisfeito e
gritou:
— Achei companhia pra minha cabeça, gente!
E vou pra altura. Desde esse dia o urubu-ruxama que é o Pai do
Urubu possui duas cabeças. A sombra leprosa é a cabeça da esquerda.
De primeiro o urubu-rei tinha só uma cabeça.

XVII
URSA MAIOR
Macunaíma se arrastou até a tapera sem gente agora. Estava muito
contrariado porque não compreendia o silêncio. Ficara defunto sem
choro, no abandono completo. Os manos tinham ido-se embora transformados na cabeça esquerda do urubu-ruxama e nem siquer a gente
encontrava cunhas por ali. O silêncio principiava cochilando a beirario do Uraricoera. Que enfaro! E principalmente, ah!… que preguiça!…
Macunaíma foi obrigado a abandonar a tapera cuja última parede
trançada com palha de catolé estava caindo. Mas o impaludismo não
lhe dava coragem nem pra construir um papiri. Trouxera a rede pro
alto dum teso onde tinha uma pedra com dinheiro enterrado por
debaixo. Amarrou a rede nos dois cajueiros frondejando e não saiu
mais dela por muitos dias dormindo caceteado e comendo cajus. Que
solidão! O próprio séquito sarapintado se dissolvera. Não vê que um
ajuru-catinga passara muito afobado por ali. Os papagaios
perguntaram pro parente onde que ia.
— Madurou milho na terra dos Ingleses, vou pra lá!
Então todos os papagaios foram comer milho na terra dos Ingleses.
Porém primeiro viraram periquitos porque assim, comiam e os
periquitos levavam a fama. Só ficara um aruaí muito falador.
Macunaíma se consolou pensamenteando: “O mal ganhado, diabo
leva… paciência”. Passava os dias enfarado e se distraía fazendo o
pássaro repetir na fala da tribo os casos que tinham sucedido pro herói
desde infância. Aaah … Macunaíma bocejava escorrendo caju, muito
mole na rede, com as mãos pra trás fazendo cabeceiro, o casal de
legornes empoleirado nos pés e o papagaio na barriga. Vinha a noite.
Aromado pelas frutas do cajueiro o herói ferrava no sono bem.
Quando a arraiada vinha o papagaio tirava o bico da asa e tomava o
café da manhã devorando as aranhas que de-noite fiavam as teias dos
ramos pro corpo do herói. Depois falava:
— Macunaíma!
O dorminhoco nem se mexia.
— Macunaíma! ôh Macunaíma!
— Deixa a gente dormir, aruaí…— Acorda, herói! É de-dia!
— Ah… que preguiça!.. .
— Pouca saúde e muita saúva, Os males do Brasil são!…
Macunaíma dava uma grande gargalhada e cocava a cabeça cheia
de pixilinga que é piolho-de-galinha. Então o papagaio repetia o caso
aprendido na véspera e Macunaíma se orgulhava de tantas glórias
passadas. Dava entusiasmo nele e se punha contado pro aruaí outro
caso mais pançudo. E assim todos os dias.
Quando a Papaceia que é a estrela Vésper aparecia falando pras
coisas irem dormir, o papagaio zangava por causa da história parando
no meio. Uma feita ele insultou a estrela Papaceia. Então Macunaíma
contou:
— “Não insulta ela não, aruaí! Taína-Cã é bom. Taína-Cã que é a
estrela Papaceia tem pena da Terra e manda Emoron-Pódole dar o
sossego do sono deste mundo pra todas essas coisas que podem ter
sossego porque não possuem pensamento que nem nós. Taína-Cã é
indivíduo também… Relumeava lá no campo vasto do céu e a filha
mais velha do morubixaba Zozoiaça da tribo carajá, solteirona
chamada Imaerô falou assim:
— Pai, Taína-Cã relumeia tão bonito que eu quero me amulherar
com ele.
Zozoiaça riu bem por causa que não podia dar Taína-Cã de
casamento pra filha velha não. Vai, de-noite veio descendo o rio uma
piroga de prata, um remeiro saltou dela, bateu no poial e falou pra
Imaerô:
— Eu sou Taína-Cã. Escutei vosso pedido e vim numa piroga de
prata. Casa comigo por favor?
— Sim, ela fez contentíssima.
Deu a rede pro noivo e foi dormir com a mana mais nova se
chamando Denaquê.
No outro dia quando Taína-Cã pulou da rede todos se
sarapantaram. Era uma coroca enrugado enrugado, tremelicando tanto
feito a luz da estrela Papaceia. Vai, Imaerô falou:
— Cai fora, coroca! Vê lá si vou casar com velho! Pra mim há-de
ser um moço mui brabo mucudo e de nação carajá!Taína-Cã ficou jururu jururu e principiou imaginando na injustiça
dos homens. Porém a filha mais nova do morubixaba Zozoiaça teve
pena do coroca e falou:
— Eu caso com você…
Taína-Cã brilhou de gozo. Ficaram ajustados. Denaquê preparando
o enxoval cantava noite e dia:
— Amanhã por estas horas, furrum-fum-fum… Zozoiaça
respondia:
— Eu também com vossa mãe, furrum-fum-fum …
Depois que se acabaram os dedos das vossas mãos, papagaio, que
são de espera pra noivo, na rede trançada por Denaquê se brincou
dança de amor, furrum-fum-fum.
Nem bem o dia estava rompendo a barra, Taína-Cã pulou da rede e
falou pra companheira:
— Vou derrubar mato pra fazer roçado. Agora você fica no
mocambo e nunca não vai na roça me espiar.
— Sim, ela fez.
E ficou na rede, matutando gozada naquele velhinho esquisito que
dera pra ela a noite mais gostosa de amor que a gente imagina.
Taína-Cã derrubou mato, botou fogo em todos os macurus de
formiga e preparou a terra. Naquele tempo inda a nação carajá não
conhecia as plantas boas. Era só peixe e bicho que carajá engolia.
Na outra madrugada Taína-Cã falou pra companheira que ia buscar
sementes pra semear e repetiu a proibição. Denaquê ficou deitada na
rede inda um bocado, matutando nas gostosuras valentes das noites de
amor que o bom do coroca dava pra ela. E foi fiar.
Taína-Cã deu uma chegadinha no céu, foi até o corgo Berô, fez
oração e botando uma perna em cada barreira do corgo esperou
assuntando a água. Daí a pouco vieram vindo no pêlo da agüinha as
sementes do milho cururuca, o fumo, a maniveira, todas essas plantas
boas. Taína-Cã apanhou o que passava, desceu do céu e foi no roçado
plantar. Estava trabucando na Sol quando Denaquê apareceu. Era por
causa que ela de sodosa quis ver o companheiro dando gostosuras tão
valentes pra ela nas noites de amor. Denaquê deu um grito de alegria.
Taína-Cã* não era coroca não! Taína-Cã era mas um rapaz muito brabo mucudo e de nação carajá. Fizeram um macio de fumo e de
maniva e brincaram pulado na Sol.
Quando voltaram pro mocambo muito se rindo um pro outro,
Imaerô ficou tiririca. Gritou:
— Taína-Cã é meu! Foi pra mim que ele veio do céu!
— Sai azar! que Taína-Cã falou. Quando eu quis você não quis,
pois agora brinque-se!
E trepou na rede com Denaquê. Imaerô desinfeliz suspirou assim:
— Deixe estar jacaré, que a lagoa há-de secar!… E saiu gritando
pelo mato. Virou na ave araponga
que grita amarelo de inveja no quiriri do mato diurno. Desde então
por causa da bondade de Taína-Cã é que Carajá come mandioca e
milho e possui fumo pra se animar.
E tudo o que Carajá carecia, Taína-Cã ia no céu e voltava trazendo.
Pois não é que Denaquê, de ambiciosa, deu pra namorar com todas as
estrelinhas do céu! Deu sim, e Taína-Cã que é a Papaceia enxergou
tudo. Isso, até se orvalhou de tão triste, pegou nos teréns e foi-se
embora pro vasto campo do céu. Ficou lá, trouxe mais nada não. Si a
Papaceia continuasse trazendo as coisas do outro lado de lá, céu era
aqui, nosso todinho. Agora é só do nosso desejo. Tem mais não”. O
papagaio dormia.
Uma feita janeiro chegado Macunaíma acordou tarde com o pio
agourento do tincuã. No entanto era dia feito e a cerração já entrara
pro buraco… O herói tremeu e apalpou o feitiço que trazia no pescoço,
um ossinho de piá morto pagão. Procurou o aruaí, desaparecera. Só o
galo com a galinha brigando por causa duma aranha derradeira. Fazia
um calorão parado tão imenso que se escutava o sininho de vidro dos
gafanhotos. Vei, a Sol, escorregava pelo corpo de Macunaíma,
fazendo cosquinhas, virada em mão de. moça. Era malvadeza da
vingarenta só por causa do herói não ter se amulherado com uma das
filhas de luz. A mão de moça vinha e escorregava tão de manso no
corpo… Que vontade nos músculos pela primeira vez espetados depois
de tanto tempo! Macunaíma se lembrou que fazia muito não brincava.
Água fria diz que é bom pra espantar as vontades… O herói
escorregou da rede, tirou a penugem de teia vestindo todo o corpo dele e descendo até o vale de Lágrimas foi tomar banho num sacado perto
que os repiquetes do tempo-das-águas tinham virado num lagoão.
Macunaíma depôs com delicadeza os legornes na praia e se chegou
pra água. A lagoa estava toda coberta de ouro e prata e descobriu o
rosto deixando ver o que tinha no fundo. E Macunaíma enxergou lá no
fundo uma cunha lindíssima, alvinha e padeceu de mais vontade. E a
cunha lindíssima era a Uiara.
Vinha chegando assim como quem não quer, com muitas danças,
piscava pro herói, parecia que dizia — “Cai fora, seu nhonhô moço!” e
fastava com muitas danças assim como quem não quer. Deu uma
vontade no herói tão imensa que alargou o corpo dele e a boca
umideceu:
— Mani!. . .
Macunaíma queria a dona. Botava o dedão n’água e num átimo a
lagoa tornava a cobrir o rosto com as teias de ouro e prata. Macunaíma
sentia o frio da água, retirava o dedão.
Foi assim muitas vezes. Se aproximava o pino do dia e Vei estava
zangadíssima. Torcia pra Macunaíma cair nos braços traiçoeiros da
moça do lagoão e o herói tinha medo do frio. Vei sabia que a moça
não era moça não, era a Uiara. E a Uiara vinha chegando outra vez
com muitas danças. Quê boniteza que ela era!… Morena e coradinha
que-nem a cara do dia e feito o dia que vive cercado de noite, ela
enrolava a cara nos cabelos curtos negros como as asas da graúna.
Tinha no perfil duro um narizinho tão mimoso que nem servia pra
respirar. Porém como ela só se mostrava de frente e festava sem virar
Macunaíma não via o buraco no cangote por onde a pérfida respirava..
E o herói indeciso, vai-não-vai. Sol teve raiva. Pegou num rabo-detatu de calorão e guascou o lombo do herói. A dona ali, diz-que
abrindo os braços mostrando a graça fechando os olhos molenga.
Macunaíma sentiu fogo no espinhaço, estremeceu, fez pontaria, se
jogou feito em cima dela, juque! Vei chorou de vitória. As lágrimas
caíram na lagoa num chuveiro de ouro e de ouro. Era o pino do dia.
Quando Macunaíma voltou na praia se percebia que brigara muito
lá no fundo, Ficou de bruços um tempão coma vida dependurada nos
respiros fatigados. Estava sangrando com mordidas pelo corpo todo,
sem perna direita, sem os dedões sem os côcos-da-Bahia sem orelhas sem nariz sem nenhum dos seus tesouros. Afinal pôde se erguer.
Quando deu tento das perdas teve ódio de Vei. A galinha cacarejava
deixando um ovo na praia. Macunaíma pegou nele e chimpou-o no
carão feliz da Sol. O ovo esborrachou bem nas bochechas dela que \
sujou-se de amarelo pra todo o sempre. Entardecia.
Macunaíma sentou numa lapa que já fora jaboti nos tempos de
dantes e andou contando os tesouros perdidos em baixo d’água. E
eram muitos, era uma perna os dedões, eram os côcos-da-Bahia eram
as orelhas os dois brincos feitos com a máquina pathek e a máquina
smith-wesson, o nariz todos esses tesouros… O herói pulou dando um
grito que encurtou o tamanho do dia. As piranhas tinham comido
também o beiço dele e a muiraquitã! Ficou feito louco.
Arrancou uma montanha de timbó de assacú de tingui de canambí,
todas essas plantas e envenenou pra sempre o lagoão. Todos os peixes
morreram e ficaram boiando com a barriga pra cima, barrigas azuis
barrigas amarelas barrigas rosadas, todas as barrigas sara) pintando a
face da lagoa. Era de-tardinha.
Então Macunaíma destripou todos esses peixes, todas as piranhas e
todos os botos, caqueando a muraquitã nas barrigas. Foi uma
sangueira mãe escorrendo sobre a terra e tudo ficou tinto de sangue.
Era bôca-da-noite.
Macunaíma campeava campeava. Achou os dois brincos achou os
dedões achou as orelhas os nuquiiri o nariz, todos esses tesouros e
prendeu todos nos lugares deles com sapé e cola de peixe. Porém a
perna e a muiraquitã não achou não. Tinham sido engolidos pelo
monstro Ururau que não morre com timbó nem pau. O sangue
coalhara negro cobrindo a praia e o lagoão. Era de-noite.
Macunaíma campeava campeava. Soltava grite de lamentação
encurtando com a bulha o tamanho da bicharada. Nada. O herói
varava o campo, saltando na perna só. Gritava:
— Lembrança! Lembrança da minha marvada não vejo nem ela
nem você nem nada!
E pulava mais. As lágrimas pingavam dos olhinhos azuis dele
sobre as florzinhas brancas do campo. As florzinhas tingiram de azul e
foram os miosótis. O herói não podia mais, parou. Cruzou os braços
num desespero tão heróico que tudo se alargou no espaço pra conter osilêncio daquele penar. Só um mosquitinho raquitiquinho infernizava
inda mais a disgra do herói, zumbindo fininho: “Vim di Minas… vim
di Minas…”
Então Macunaíma não achou mais graça nesta terra. Capei bem
nova relumeava lá na gupiara do céu. Macunaíma cismou inda meio
indeciso, sem saber si morar no céu ou na ilha de Marajó. Um
momento pensou mesmo em morar na cidade da Pedra com o enérgico
Delmiro Gouveia, porém lhe faltou ânimo. Pra viver lá, assim como
tinha vivido era impossível. Até era por causa disso mesmo que não
achava mais graça na Terra… Tudo o que fora a existência dele apesar
de tantos casos tanta brincadeira tanta ilusão tanto sofri: mento tanto
heroísmo, afinal não fora sinão um se deixar viver; e pra parar na
cidade do Delmiro ou na ilha de Marajó que são desta Terra carecia de
ter um sentido. E ele não tinha coragem pra uma organização.
Decidiu:
— Qua o quê!… Quando urubu está de caipora o de baixo caga no
de cima, este mundo não tem jeito mais e vou pro céu.
Ia pro céu viver com a marvada. Ia ser o brilho bonito mas inútil
porém de mais uma constelação. Não fazia mal que fosse brilho inútil
não, pelo menos era o mesmo de todos esses parentes de todos os pais
dos vivos da sua terra, mães pais manos cunhas cunhadas cunhatãs,
todos esses conhecidos que vivem agora do brilho inútil das estrelas.
Plantou uma semente do cipó matamatá, filho-da-luna, e enquanto
o cipó crescia agarrou numa itá pontuda escreveu na lage que já fora
jaboti num tempo muito de dantes:
NÃO VIM NO MUNDO PARA SER PEDRA
A planta já tinha crescido e se agarrava numa ponta de Capei. O
herói capenga enfiou a gaiola dos legornes no braço e foi subindo pro
céu. Cantava triste:
— “Vamos dar a despedida,
— Tapera,
Taleqüal o passarinho,.
— Tapera,
Bateu asa foi-se embora,— Tapera,
Deixou a pena no ninho.
— Tapera…”
Lá chegando bateu na maloca de Capei. A Lua desceu no terreiro e
perguntou:
— Quê que quer, saci?
— Abênção minha madrinha, me dá pão com farinha?
Então Capei reparou que não era saci não, era Macunaíma o herói.
Mas não quis dar pensão pra ele, se lembrando do fedor antigo do
herói. Macunaíma enfezou. Deu uma porção de munhecaços na cara
da Lua. Por isso que ela tem aquelas manchas escuras na cara.
Então Macunaíma foi bater na casa de Caiuanogue, a estrêla-damanhã. Caiuanogue apareceu na janelinha pra ver quem era e
confundida pelo negrume da noite e a capenguice do herói, perguntou:
— Que é que quer, saci?
Mas logo pôs reparo que era Macunaíma o herói e nem esperou
resposta se lembrando que ele cheirava
muito fedido.
— Vá tomar banho! falou fechando a janelinha.
Macunaíma tornou a enfezar e gritou.
— Vem pra rua, cafajeste!
Caiuanogue raspou um susto enorme e ficou tremendo espiando
pelo buraco da fechadura. Por isso que a bonita da estrelinha é tão
pecurrucha e tremelica tanto.
Então Macunaíma foi bater na casa de Pauí-Pódole, o Pai do
Mutum. Pauí-Pódole gostava muito dele porque Macunaíma o
defendera daquele mulato da maior mulataria na festa do Cruzeiro.
Mas exclamou:
— Ah, herói, tarde piaste! Era uma honra grande pra mim receber
no meu mosqueiro um descendente de jaboti, raça primeira de todas.. .
No princípio era só o Jaboti Grande que existia na vida… Foi ele que
no silêncio da noite tirou da barriga um indivíduo e sua cunha. Estes
foram os primeiros fulanos vivos e as primeiras gentes da vossa
tribo… Depois, que os outros vieram. Chegaste tarde, herói! Já somos em doze e com você a gente ficava treze na mesa. Sinto muito mas
chorar não posso!
— Que pena, sinh’Helena! que o herói exclamou. Então Pauí-
Pódole teve dó de Macunaíma. Fez uma feitiçaria. Agarrou três
pauzinhos jogou pro alto fez encruzilhada e virou Macunaíma com
todo o estenderete dele, galo galinha gaiola revólver relógio, numa
constelação nova. É a constelação da Ursa Maior.
Dizem que um professor naturalmente alemão andou falando por
aí por causa da perna só da Ursa Maior que ela é o saci… Não é não!
Saci inda pára neste mundo espalhando fogueira e traçando crina de
bagual… A Ursa Maior é Macunaíma. É mesmo o herói capenga que
de tanto penar na terra sem saúde e com muita saúva, se aborreceu de
tudo, foi-se embora e banza solitário no campo vasto do céu.EPÍLOGO
Acabou-se a história e morreu a vitória.
Não havia mais ninguém lá. Dera tangolo-mangolo na tribo
Tapanhumas e os filhos dela se acabaram de um em um. Não havia
mais ninguém lá. Aqueles lugares aqueles campos furos puxadouros
arrastadouros meios-barrancos, aqueles matos misteriosos, tudo era a
solidão do deserto… Um silêncio imenso dormia a beira-rio do
Uraricoera.
Nenhum conhecido sobre a terra não sabia nem falar na falta da
tribo nem contar aqueles casos tão pançudos. Quem que podia saber
do herói? Agora os manos virados na sombra leprosa eram a segunda
cabeça do Pai do Urubu e Macunaíma era a constelação da Ursa
Maior. Ninguém jamais não podia saber tanta história bonita e a fala
da tribo acabada. Um silêncio imenso dormia a beira-rio do
Uraricoera.
Uma feita um homem foi lá. Era madrugadinha e Vei mandara as
filhas visar o passe das estrelas. O deserto tamanho matava os peixes e
os passarinhos de pavor e a própria natureza desmaiara e caíra num
gesto largado por aí. A mudez era tão imensa que espichava o
tamanhão dos paus no espaço. De repente no peito doendo do homem
caiu uma voz da ramaria:
— Currr-pac, papac! currr-pac, papac!…
O homem ficou frio de susto feito piá. Então veio brisando um
guanumbi e boleboliu no beiço do homem:
— Bilo, bilo, bilo, lá… tetéia!
E subiu apressado pras árvores. O homem seguindo o vôo do
guanumbi, olhou pra cima.
— Puxa rama, boi! o beija-flor se riu. E escafedeu.
Então o homem descobriu na ramaria um papagaio verde de bico
dourado espiando pra ele. Falou:
— Dá o pé, papagaio.
O papagaio veio pousar na cabeça do homem e os dois se
acompanheiraram. Então o pássaro principiou falando numa fala
mansa, muito nova, muito! que era canto e que era cachiri com mel-de-pau, que era boa e possuía a traição das frutas desconhecidas do
mato.
A tribo se acabara, a família virará sombras, a maloca ruíra minada
pelas saúvas e Macunaíma subira pro céu, porém ficara o aruaí do
séquito daqueles tempos de dantes em que o herói fora o grande
Macunaíma imperador. E só o papagaio no silêncio do Uraricoera preservava do esquecimento os casos e a fala desaparecida. Só o papagaio
conservava no silêncio as frases e feitos do herói.
Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E
o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história.
Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus
carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no
mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma,
herói de nossa gente.
Tem mais não

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: